Histórias quilombolas: filmografia e bibliografia básicas

326
Cena do filme Ganga Zumba, de 1964

LEIA O 1º ARTIGO
Quilombos: sinônimos de organização e luta

LEIA O 2º ARTIGO
Palmares: onde tudo é de todos e nada de ninguém

LEIA O 3º ARTIGO
Autodefesa e os guerreiros e guerreiras da liberdade

LEIA O 4º ARTIGO
A fúria dos colonizadores durante um século de resistência

LEIA O 5º ARTIGO
A imortalidade de Palmares

Abaixo, você encontrará uma lista com filmes e livros que abordam tanto a história do Quilombo dos Palmares quanto de alguns de seus herdeiros e herdeiras que sobrevivem nas terras remanescentes de quilombos. Nesta seleção, as indicações referem-se especificamente ao tema quilombola, não incluindo obras relacionadas à história negra e ao racismo em geral. O propósito é auxiliar o leitor ou leitora em pesquisas, aulas etc., por isso, estamos apresentando um material amplo, inclusive com filmes e livros com os quais não temos completa identificação política.

Em relação aos filmes, cabe um “alerta”. Ao contrário do que muitas vezes se acredita, filmes “baseados em histórias reais” e, inclusive, documentários estão longe de servir como documentos de qualquer episódio histórico. Podem, sim, nos ajudar a refletir sobre o tema abordado, mas de uma forma um tanto mais complexa.

Em primeiro lugar, eles sempre refletem a ideologia daqueles que os produzem e dirigem. Segundo, e tão importante quanto, os filmes geralmente refletem muito mais o momento histórico em que foram produzidos do que aquele sobre o qual está falando.

Para exemplificar, vale citar dois filmes que estão nesta lista, ambos dirigidos por Cacá Diegues: Ganga Zumba (1964) e Quilombo (1985). Ambos são ótimos e nos possibilitam conhecer um pouco da história dos dois últimos líderes de Palmares e de suas lutas. Contudo, tudo neles está impregnado pelos eventos e debates em curso na época em que foram realizados.

De forma ultra-sintética, podemos dizer que “Ganga Zumba” nos apresenta um líder quilombola muito identificado com os principais traços políticos dos movimentos que estavam se organizando e lutando no período imediatamente anterior ao golpe de 1964 e, consequentemente, apresenta elementos de populismo, uma discussão sobre a possibilidade de “reformas de base” e um reflexo da efervescência política da época.

“Quilombo”, é quase que uma metáfora sobre o início do processo de “redemocratização”. Seu mergulho na cultura e religiosidades africanas (cada um dos principais personagens é profundamente identificado com um orixá), a recorrente apresentação do quilombo como uma sociedade aberta à diversidade (onde convivem índios, judeus, pobres, prostitutas, gays, artistas etc.) e sua celebração da “liberdade guerreira” (enfatizando as formas de organização e luta do quilombo) refletem um certo projeto de país com o qual muitos sonhavam no momento em que a ditadura estava acabando. Cuidados à parte, todos eles sempre podem ser ótimos pontos de partida para debates.

Em relação aos livros, nos restringimos aqueles que consideramos “fundamentais”, principalmente em relação aos temas abordados nos artigos (a história de Palmares, a autodefesa, o quilombo com expressão de uma luta radical contra o sistema etc.), cientes de que há muita coisa que, nesta seleção, foi deixada de fora. Lembramos também, que, hoje, é possível encontrar uma infinidade de artigos em sites acadêmicos, de movimentos sociais, organizações políticas etc. Basta ter critério e o cuidado necessário com as fontes.   

Filmes de ficção
Chico Rei (Walter Lima Jr., 1985, 115 min.). Com uma excepcional trilha sonora produzida por Wagner Tiso, o Grupo Vissungo e Fernando Brandt (com participações de Milton Nascimento, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme), o filme foi baseado em poesias de Cecília Meireles e na memória e tradição oral de negros e negras mineiros, algo bastante apropriado para se contar a história (cercada de mitos) do negro escravizado que teria sido proprietário de uma das maiores minas do século XVIII, utilizando-a para resgatar e libertar negros e negras da região, organizando uma série de quilombos.

Ganga Zumba: o rei dos Palmares (Cacá Diegues, Brasil, 1964, 100 min.). O filme, baseado no livro homônimo de João Felício dos Santos, acompanha a vida de Ganga Zumba (Antonio Pitanga) a partir do assassinato de sua mãe, no tronco, quando esta revela que seu filho (que nasceu no navio negreiro), chamado até então de Antonio, é um príncipe africano e deveria se tornar no herdeiro de Zambi, que dirigia Palmares naquele momento. Bastante vinculado à estética (modo de filmar e narrar a história) do Cinema Novo, o filme tem músicas de Moacir Santos (interpretadas por Nara Leão) e apresentações dos Filhos de Gandhi, além de participações ultra especiais, como de Cartola e Dona Zica da Mangueira.

Quilombo. Realizado em co-produção com a França e baseado nos livros “Ganga Zumba”, de João Felício dos Santos, e “Palmares”, de Décio de Freitas, o filme acompanha a história de Zumbi desde a década de 1650, quando Ganga Zumba (de quem Zumbi seria afilhado) dirigia Palmares, até sua morte, em 1695). Vale destacar as interpretações inspiradas de Antônio Pompeo (Zumbi), Tony Tornado (Ganga Zumba), Zezé Mota (Dandara) e o resgate, em participações-homenagens, de alguns dos mais importantes artistas negros do país, como João Nogueira, Grande Otelo, Jofre Soares, Léa Garcia, Milton Gonçalves, Zózimo Bulbul e Dona Zica da Mangueira.

Documentários

A voz dos quilombos (Lelette Coutto, Brasil, 23 min.). O filme mostra as manifestações culturais negras na Região do Médio Paraíba, no interior do Estado do Rio de Janeiro. A produção do filme foi acompanhada por jovens que participaram do I Encontro Estadual da Juventude Quilombola promovido pela equipe da Superintendência da Igualdade Racial da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, em 2008.

Atlântico negro: a rota dos orixás (Renato Barbieri, Brasi, 1998, 54 min.). O foco do documentário são as religiões de matriz africana e sua importância para a resistência e identidade negras no Brasil, destacando, também, como as comunidades negras e quilombolas tiveram um papel de destaque neste processo. Conectando personagens como Pai Euclides, babalorixá da Casa Fanti Ashanti, em São Luís do Maranhão, e o vodunon Avimanjenon, chefe do Templo de Avimanje, em Ouidá, no Benin (de onde partiram incontáveis navios negreiros para Salvador), o filme fala das religiões dos orixás, lugares sagrados a ambos os continentes e dos resquícios da influência de um povo sobre o outro. e residem no Benin contemporâneo.

Aruanda (Linduarte Noronha, 1960, 20 min.). O documentário aborda a relação dos quilombos marcaram com a história econômica do Nordeste canavieiro, destacando episódios como as lutas dos quilombolas em Palmares e Olho d’Água da Serra do Talhado, em Santana do Sabugi (PB), acompanhando a história do ex-escravo e madeireiro Zé Bento, que partiu com a família à procura de terra. http://curtadoc.tv/curta/povosidentidade/aruanda/

Até onde a vista alcança (Felipe Peres Calheiros, 2007, 20 min.). Em 2005, a partir de uma reunião dos membros da Associação Quilombola do Sambaquim e Riachão do Sambaquim, surgiu a idéia de unir esforços em busca de um sonho coletivo. Um bingo para alugar um ônibus. Uma viagem para alcançar um sonho. Assista: http://curtadoc.tv/curta/povosidentidade/ate-onde-a-vista-alcanca/

Entre Vãos (Luísa Caetano, 2010, 20 min.). Documentário filmado no Vão de Almas, habitado pela comunidade remanescente quilombola Kalunga, em Cavalcante (GO). Lizeni é uma menina kalunga de dez anos e é ela quem conduz nosso olhar por entre as brincadeiras de infância, o mundo adulto dos pais e a relação da família com a cidade mais próxima. Assista: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/entre-vaos/

Escola Quilombo: Educação Cultivada (Evandro Medeiros, 2014, 49 min.). O filme, realizado através do Observatório da Educação do Campo, da Universidade Federal do Tocantins, aborda o cotidiano pedagógico e o trabalho docente em uma pequena escola na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, em Arraias (TO), trazendo narrativas e imagens sobre a vida pessoal e os desafios de ser professor em escolas rurais, enfrentando precariedades materiais e o descaso do poder público. O filme é um desdobramento de uma experiência anterior feita pelo mesmo grupo de pesquisadores.

Quilombo, produzido em 2013, em torno da formação de professores. 

Família Alcântara (Brasil, 53 min). Documentário sobre a história da família homônima do Quilombo do Caxambu, em Minas Gerais, cujas raízes estão na região do Congo, na África. Formada por cerca de 70 pessoas, a família Alcântara segue preservando sua história e a cultura do povo negro mantidas por séculos a partir da tradição oral.

História dos quilombos do estado do Rio de Janeiro: a verdade que a história não conta (Antonio Pitanga, Brasil, 2002). O documentário traz depoimentos de moradores de 11 comunidades quilombolas do estado do Rio de Janeiro, que falam sobre suas vidas, cultura, ancestralidade e lutas.

Livramento: som da rua (Roberto Berliner, 1997, 3 min.). Livramento é uma comunidade remanescente de quilombo perto de Triunfo (PE). D. Maria é a mais antiga no ofício e tornou-se benzedeira de grande prestígio na região. Suas companheiras são D. Rosa e D. Francisca. Juntas, cantam novenas e ladainhas nos dias santos importantes para a comunidade. Mas também cantam e dançam o coco na festa de São José. Quando a semana na roça é boa, D. Maria passa o sábado rezando para Nossa Senhora, o povo vai chegando e sua casa, vai formando os cocos, que seguem animados até a manhã de domingo. Assita: http://curtadoc.tv/curta/mulher/livramento-som-da-rua/

Nem caroço nem casca: uma história de quilombolas” (Will Martins, Brasil, 2013, 100 min.) Utilizando como ponto de partida o centro da cidade de Viana (Maranhão), o filme percorre seis comunidades quilombolas (Cacoal, Capoeira, Mocambo, Ipiranga, Boa Fé e Santo Inácio) que são ligadas por uma única estrada, resgatando as histórias e cotidiano de homens e mulheres, de jovens a anciãos, que traçam um panorama diversificado dos quilombos nos dias atuais. Os temas de cada comunidade se encontram e se complementam conforme se avança o caminho.

Nós – Quilombolas da Amazônia: O vídeo é resultado das oficinas de música e audiovisual, coordenadas por Wanderson Lobato, realizadas nas comunidades quilombolas de Guajará Miri e Itacoã, no Baixo Acará, nordeste paraense. Ao som de cantigas tradicionais do bumbá de Guajará Miri-Boi Resolvido, o documentário traz o olhar das próprias comunidades sobre suas manifestações culturais. Um dos objetivos centrais do projeto foi contribuir para o reconhecimento da presença de comunidades quilombolas na Amazônia e suas peculiares na formação cultural do Pará.

Ori  (Raquel Gerber, Brasil, 1989, 110 min). O título deste belíssimo e potente documentário faz referência a Ori (literalmente “cabeça”, em yorubá), o orixá que protege a essência individual de cada ser humano, seu inconsciente e sua força (sopro) vital. O filme tem texto e narração de Maria Beatriz Nascimento (uma importante pesquisadora e militante negra que morreu, em 1995, vítima do machismo, ao defender uma amiga que sofria violência doméstica) e mescla sua história pessoal, o processo de reorganização do movimento negro (no final dos anos 1970) e os muitos efeitos culturais, religiosos, sociais e políticos decorrentes da Diáspora e do racismo que acompanham as histórias de negros e negras. Assista: 

O ser kalunga (Rander Rezende, Luciana Maciel, Thayane Cordeiro, Dyanne Amorim, 2012, 22 min.). Documentário, realizado por estudantes, sobre a comunidade Kalunga, do município de Monte Alegre de Goiás, que viveu praticamente isolada até meados dos anos 1980, quando começou a ser identificada e pesquisada. O grupo de alunos deslocou-se de Goiânia em junho de 2012 para visitar a comunidade e participar da tradicional Festa de São João e produziu o filme a partir de depoimentos de membros da comunidade e pesquisadores. Assista: http://curtadoc.tv/curta/cultura-popular/o-ser-kalunga/

Para viver uma vida melhor. Produzido pela superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Maranhão (Iphan-MA), o filme reune depoimentos de moradores da Comunidade Quilombola de Nossa Senhora da Conceição, localizada em Santa Rita, no interior do estado. Mesmo que involuntariamente, o documentário traz à tona o conflito entre o projeto de “melhoria de vida” proposto pelo estado (a restauração de uma estação ferroviária e a transformação do local em um centro comunitário) e a necessidade de preservação do modo de vida e da própria sobrevivência dos quilombolas.

Quilombo de Queimadas (Kiko Alves, 2011, 13 min.). Curta que trata do dia a dia da comunidade de remanescentes de Quilombolas no extremo oeste do Ceará, sua luta pela demarcação de terras e seu desejo por dias melhores; Assista: http://curtadoc.tv/curta/cotidiano/quilombo-de-queimadas/

Quilombo (Nina Tedesco, 2008, 17 min.). Produzido em parceria entre a Fundação Cultural Casimiro de Abreu e a Universidade Federal Fluminense (UFF), contando com a participação de professores, historiadores e cineastas, o filme se utiliza de depoimentos, narrativas históricas e leituras de documentos para discutir a ocupação das terras e retirada dos negros descendentes de escravos que viveram em uma região de Casimiro de Abreu (RJ). A localidade se chamava “Quilombo”, mas, entre o final do século XIX e o inicio do XX, foi colonizada por suíços, não restando sequer um(a) negro(a) na comunidade. Assista: 

Quilombolas (Ale Maciel, 2013, 35 min.). Com grande força poética, o filme discute a importância e as muitas dificuldades das comunidades remanescentes de quilombos que sobrevivem no país.

Quilombos: luta e resistência (reportagem de Big Richard, 2012, 50 min.). Produzido como uma reportagem para o programa “Caminhos da Reportagem”, da TV Brasil, e patrocinado pela Fundação Palmares, este filme é uma “grande reportagem” que percorre quilombos do Rio Grande do Sul, da Bahia e do Maranhão. Apesar da defesa do atual governo se fazer presente de cabo a rabo do filme, a dura realidade dos quilombolas (e o descaso do próprio governo) vem à tona a todo momento, nas falas e imagens registradas nas comunidades sempre sob ameaças e marcadas pela violência.

Quilombos Maranhenses: cultura e política (Cláudio Farias, 2014). O documentário aborda aspectos sociopolíticos de cerca de 400 comunidades negras no Maranhão, com enfoque nos quilombos de Santa Cruz, localizado no município de Buriti de Inácia Vaz, e de Damásio, no município de Guimarães. O filme aborda a atual situação de inúmeras comunidades de Alcântara que perderam seu território original para a Base de Lançamento de Foguetes, e tantas outras comunidades quilombolas que se encontravam relegadas ao esquecimento. 

Quilombo Rio dos Macacos (Josias Pires, 2011, 10 min.). Localizado em um território rural na divisa de Salvador e Simões Filho (BA), o quilombo tem sido permanentemente ameaçado pela Marinha, principalmente a partir do início dos anos 1970 (ou seja, no auge da ditadura) e sofrido ataques diversos por parte de governos, latifundiários e empresários. Visto como um dos exemplos da força e resistência dos povos quilombolas, o Quilombo Rio dos Macacos é apresentado através dos relatos de seus moradores onde mesclam-se histórias de orgulho e ancestralidade, mas também de sofrimentos e medo constante da morte.

Um olhar sobre os Quilombos do Brasil (Cida Reis e Junia Torres, 2006, 19 min.). O documentário percorre cinco comunidades remanescentes de quilombos no Brasil, Gurutuba (MG), Mocambo (SE), Barra e Bananal (BA), Ivaporunduva (SP) e comunidades do Alto Trombetas (PA) registrando aspectos históricos e contemporâneos relacionados a questões territoriais, identidades culturais, lutas coletivas e conquistas de direitos. No cruzamento entre nossos olhares e os olhares dos próprios quilombolas, evidencia-se a diversidade de cada experiência e os elementos comuns entre elas. Assista: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/um-olhar-sobre-os-quilombos-do-brasil/

Unha Preta (Luciano Dayrell, 2009, 27 min.). O documentário acompanha a história e as lutas de duas comunidades localizadas no norte de Minas Gerais: Gurutuba e Brejo dos Crioulos. Isoladas por muito tempo em um espaço territorial livre denominado de Campo Negro da Jahyba, as comunidades tiveram suas histórias drasticamente alteradas a partir dos anos 1960, quando o governo, por meio de políticas de desinsetização e subsídios para empresas agropecuárias, começou o processo de expropriação e expulsão das milhares de famílias. Neste documentário alguns representantes dessas populações que vivem encurraladas em pequenos espaços de terra, expressam lucidez quanto aos valores de sua cultura e nos contam suas vidas e seus anos de luta pelos direitos étnicos. Assista: http://curtadoc.tv/curta/cultura-popular/unha-preta/

Bibliografia

A incrível e fascinante historia do Capitão Mouro
Georges Bourdoukan (Edições Casa Amarela Editora)
Exemplo bastante bem sucedido de um gênero conhecido como “romance histórico” (ou seja, um texto que se reconhece como ficção, mas está solidamente baseado em fatos e documentação histórica), o livro tem com uma espécie de “personagem central” o sistema de defesa de Palmares. Na narrativa, Bourdoukan conta a saga de Saifudin, um mouro náufrago resgatado por um navio mercante e trazido ao Brasil pelo judeu Ben Suleiman, que se alia a Zumbi para construir as fortificações de Palmares.

Insurreições escravas
Decio Freitas (Editora Movimento, 1976)
Tendo como foco a Revolta dos Malês, o livro de Freitas aborda várias das principais insurreições negras no país, discutindo seu papel no questionamento e derrocada do sistema colonial.

Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil
João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (Companhia das Letras, 1996)
O livro traz uma série de ensaios que abordam a história quilombola de diversos pontos de vistas (arqueologia, relações econômicas, políticas e culturais etc.) e perspectivas historiográficas, como, por exemplo, “Deus contra Palmares: representações senhoriais e idéias jesuíticas” (Ronaldo Vainfas), “Palmares como poderia ter sido” (Richard Price), “Do singular ao plural: Palmares, capitães do mato e o governo dos escravos” (Silvia Hunold Lara) e “Pampa Negro: quilombos no Rio Grande do Sul” (Mário Maestri).

Mato, palhoça e pilão: o quilombo, da escravidão às comunidades remanescentes (1532 – 2004)
Aldemir Fabiani (Editora Expressão Popular, 2005)
O livro procura analisar o “fenômeno quilombola”, desde a implantação do trabalho escravizado no Brasil, nos anos de 1530, até a abolição formal do regime escravista, em 1888. Discutindo o quilombo como um forma singular de resistência do trabalhador escravizado (com distintas formas de organização e funcionamento), o autor também discute como, a partir da Constituição de 1988, a categoria “quilombo” tem sido rediscutida em função do debate em torno do reconhecimento e titulação das terras remanescentes de quilombo.

O quilombismo
Abdias do Nascimento (Fundação Cultural Palmares, 2002)
O dirigente negro e fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN) apresentou sua “tese” sobre o “quilombismo” no 2º Congresso de Cultura Negra das Américas, realizado em 1980, no Panamá. Dentre as principais idéias defendidas no livro está a de que os quilombos não só foram uma das primeiras experiências de liberdade nas Américas, como tinham uma estrutura comunitária (para o autor, típica das comunidades e cultura africanas) que era toda ela contrária modelo econômico era o contrário do modelo colonial. Ou seja, ao invés de produzir um item só para exportação e depender da metrópole, os quilombolas tinha uma produção agrícola diversificada que provia seu próprio sustento e mantinham relações de troca e intercâmbio com as populações circundantes. Um sistema que Abdias defende estar na base de toda e qualquer sociedade democrática e que, portanto, deveria servir como exemplo no processo de democratização do país.  

O quilombo dos Palmares
Edson Carneiro (Editora Nacional, 1958)
O livro do historiador baiano destaca-se pelo seu pioneirismo: foi o primeiro dedicado especificamente ao Quilombo dos Palmares, tendo sido publicado em 1946 (quando o autor encontrava-se exilado no México, em função do regime varguista). Reconhecendo as dificuldades para se reconstruir a história (em função da quase inexistência de fontes que não sejam “oficiais” – dos governos, bandeirantes etc.), o autor buscou reconstruir a vida no interior do quilombo (relações econômicas, sociais, políticas, culturais etc.), colocando em evidência os cem anos de luta e resistência dos quilombolas. Em muitos sentidos, Carneiro lançou as bases para muitos dos principais estudos que vieram posteriormente. 

Os quilombos na dinâmica social no Brasil
Clóvis Moura (Editora Edufal, 2001)  
Organizado por Moura (que assina os textos “A quilombagem como expressão do protesto radical” e “São Paulo: da quilombogem radical à conciliação abolicionista”), o livro procura analisar a quilombagem como um processo sociológico que continua vivo na luta dos remanescentes quilombolas. Dentre os vários artigos, há textos de autores como Edison Carneiro (“A singularidade dos quilombos”), Kabengele Munanga (“Origem e histórico dos quilombos em África”), Maria Raimunda Araújo (“Notícias sobre os quilombos do Maranhão”) e Maria Penha Santos Lopes Guimarães (“Dos mecanismos legais para titulação das terras dos remanescentes de quilombos”). 

Palmares: a guerra dos escravos
Decio Freitas (Editora Graal, 1983)
Publicado em 1971, quando o autor (na época, um jornalista e historiador marxista, vinculado ao PCB) estava exilado no Uruguai, o livro é considerado uma das reconstituições históricas mais completas e documentadas sobre a República de Palmares, percorrendo um século de luta armada dos negros e negras contra o regime escravocrata em que se fundava a economia colonial.

Palmares, ontem e hoje
Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho (Jorge Zahar, 2005)
Traçando paralelos entre o processo de escravidão, particularmente na região de Palmares, e os dias de hoje, quando “as desigualdades sociais seculares não se atenuaram, as hierarquias não se enfraqueceram, as estruturas patriarcais e oligárquicas tampouco” (p. 9), os autores procuraram apresentar “as muitas maneiras como se interpretou e interpreta Palmares”, em distintos momentos da história e de acordos com as diferentes perspectivas ideológicas dos que escreveram sobre o tema.

Quilombos: resistência ao escravismo
Clóvis Moura (Editora Ática, 1993)
O livro apresenta os quilombos como a principal forma de luta dos negros e negras contra o escravismo, demonstrando a amplitude nacional das comunidades quilombolas e como elas contribuíram para desgastar o regime escravista pela ação militar e pelo rapto de escravos das fazendas. Nele, também, Clóvis Moura defende que Palmares foi exemplo marcante, por constituir-se em república com território fixo e pela formação de um tipo de Estado e de governo democráticos.

Rebeliões de Senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas
Clovis Moura (Editora Mercado Aberto, 1988)
Como foi destacado pelo professor Kabengele Munanga na apresentação da última edição do livro (em 2014), o livro “(…) foi a primeira obra na historiografia brasileira a tratar da questão das rebeliões negras de maneira sistemática, mostrando com fatos históricos o alastramento desse fenômeno em todo o território brasileiro. (…) Ele foi sem dúvida o pioneiro e o primeiro a desmistificar a ideia do negro submisso que não se importava com sua situação de cativo e a colocar em pauta a questão de sua participação no processo abolicionista e libertário, habilitando-o como sujeito de sua história e da história do Brasil e tirando-o da posição de mero objeto de pesquisa acadêmica”.

LEIA O 1º ARTIGO
Quilombos: sinônimos de organização e luta

LEIA O 2º ARTIGO
Palmares: onde tudo é de todos e nada de ninguém

LEIA O 3º ARTIGO
Autodefesa e os guerreiros e guerreiras da liberdade

LEIA O 4º ARTIGO
A fúria dos colonizadores durante um século de resistência

LEIA O 5º ARTIGO
A imortalidade de Palmares