Em defesa da militância revolucionária

175

Fotos Romerito Pontes

Uma polêmica com Alvaro Bianchi

 É preciso preparar pessoas que não dediquem à revolução apenas as noites livres, mas toda a vida (…).”

V. I. Lenin, “As tarefas urgentes do nosso movimento” (Iskra n. 1, dezembro de 1900).

 

Está sendo discutido um artigo de Alvaro Bianchi intitulado “Crítica ao militantismo”, publicado no site brasileiro blogjunho.com.br.

No Facebook existem dezenas de posts que o criticam, mas também são muitas as pessoas que apreciam o artigo, elogiando-o e o indicando como um ponto de referência no que diz respeito ao problema abordado: a questão da militância.

O sofrimento da militância… e as alegrias dos pós-ativistas
No artigo, Alvaro Bianchi começa construindo um alvo para sua polêmica: o que ele chama de “militantismo”, que é uma forma caricatural da militância revolucionária. Fala de “fetichismo da ação, a crença de que a atividade permanente e direta conduzirá inevitavelmente a uma vitória decisiva. Da panfletagem ao piquete, do piquete à assembleia, da assembleia à reunião, para, a seguir, reiniciar o ciclo“. Fala de militantes que se emocionam somente “com as vidas exemplares dedicadas à causa, com o sacrifício“. Dos tolos, obstinados e maníacos, impulsionados pela fé cega; de “chefes que pensam e subalternos que executam“.

A caricatura e o desprezo que Bianchi revela pela militância vão ao encontro de um senso comum predominante. A degeneração stalinista e a da socialdemocracia, a corrupção desenfreada dos partidos reformistas incorporados ao aparelho do Estado burguês geraram um grande descrédito na militância pela e nos partidos em geral. Um descrédito do qual tentam se aproveitar as organizações populistas e reacionárias, como o Movimento de Grillo na Itália, ou as organizações neorreformistas, como Podemos na Espanha, que têm como base não a militância, mas os eleitores. Todo o neorreformismo possui como característica própria a de ser “antipartido” ou “pós-partido”; elogia a superação das “tradições da Terceira Internacional”, incluindo neste termo tanto o Comintern revolucionário de Lenin e Trotsky como a sua negação burocrática e contrarrevolucionária.

Há mais de dez anos, Império, delirante manifesto da “biopolítica pós-moderna”, que escreveram Toni Negri e Michael Hardt e em que se inspiram (conscientemente ou não) muitos acadêmicos, criticava o militante “triste ascético agente da Terceira Internacional” que “atua por disciplina“, e propunha uma nova militância, diferente, que “resiste nos contrapoderes e se rebela projetando-se num projeto de amor“, inspirando-se, em vez de Lenin, em São Francisco, porque o santo, ao contrário do líder bolchevique, opunha “a alegria de ser à miséria do poder“.

O desprezo pela militância
Não acontecendo em um vácuo, mas no contexto político que descrevemos acima, é claro que a crítica de Bianchi ao “militantismo”, escondendo-se atrás da crítica a uma caricatura de militância que não existe, é na verdade uma crítica indireta àqueles setores no mundo que implementam uma militância revolucionária. Como, por exemplo, a LIT-QI e suas seções e, no Brasil, o PSTU.

Com o tom de quem diz coisas não conformistas, Alvaro Bianchi não faz outra coisa senão usar todos os clichês em voga hoje no neorreformismo, nos ambientes acadêmicos que flertam com o pós-modernismo, nos sites e blogs impulsionados por ex-militantes que procuram livrar-se de seus pecados da juventude, nos grupos políticos que de alguma forma tentam apresentar-se como uma “nova” forma de fazer política, em oposição precisamente ao “militantismo” (termo usado, como vimos, para se referir à militância revolucionária e de partido).

Alvaro Bianchi não diz nada de novo, nem de controverso. Deve-se reconhecer, porém, o seu mérito de ter conseguido, num pequeno artigo, condensar todos os clichês favoritos do neorreformismo e do centrismo, que podem ser resumidos em uma frase: a antiga militância (ou “militantismo”) é uma coisa tola, pesada, feita de panfletagens na frente das fábricas, de autofinanciamento que requer sacrifícios, com base em “certezas” inúteis e tristes; ao invés disso, as novas formas de ativismo “horizontalista” podem ser inteligentes e leves, baseadas no elogio permanente da “dúvida”, no ceticismo, na “desobediência” e na rejeição da disciplina e, sobretudo, podem garantir a alegria.

É compreensível que muitos militantes tenham se irritado com o artigo de Bianchi: ninguém obriga Bianchi ou outros a militarem, mas não se entende com que direito pode ofender aqueles que militam e a gerações inteiras que sacrificaram tempo, energia e até mesmo a sua própria vida no que Bianchi define com desprezo de “militantismo”.

O otimismo da vontade
Vale a pena deter-se sobre a citação que Bianchi, gramsciano e gramsciólogo, coloca no início de seu artigo: “o pessimismo da razão, o otimismo da vontade“, parafraseando-a assim: “Sem o controle contínuo do pessimismo do intelecto, o otimismo da vontade facilmente se converte em puro militantismo“.

A frase que Bianchi está parafraseando é amplamente atribuída a Gramsci, que por sua vez a atribuía a Romain Rolland. Como foi demonstrado posteriormente por alguns filólogos, no entanto, o escritor francês a havia recuperado de Jacob Burckhardt, mestre e amigo do filósofo niilista Nietzsche. Em todo caso, seja quem for o autor dessas palavras, Gramsci usou com um sentido diferente, tanto de Romain Rolland como de Bianchi. Alvaro Bianchi enfatiza o “pessimismo” da inteligência, que alimenta o seu ceticismo sobre a possibilidade de mudar o mundo e, assim, o seu desprezo sutil por aqueles que praticam o “militantismo” e se empenham “cegamente” (e tolamente) convencidos de que o mundo possa ser mudado. Em vez disso, Gramsci usou a frase em sentido exatamente oposto: a racionalidade demonstra como é difícil mudar o mundo, mas a história (como ensinou Marx) não é o produto de “forças cegas” e sim é feita pelos homens (ainda que em circunstâncias que não se escolhem) que podem, com a “práxis revolucionária”, alterá-la.

É interessante notar que Gramsci usa esta frase pela primeira vez em 1920 (depois vai retomá-la várias vezes: nos Cadernos, em suas Cartas) e, num artigo em Ordine Nuovo daquele mesmo ano, a utiliza justamente para elogiar a militância e “os esforços e sacrifícios que são exigidos a quem, voluntariamente, assumiu um posto de militante nas fileiras da classe operária“.

Há em Gramsci, em minha opinião, muitos desvios centristas que explicam por que os intelectuais reformistas e centristas procuram muitas vezes em Gramsci uma referência. Não é, porém, o tema deste artigo e tentei demonstrar isso de uma forma mais fundamentada em outro artigo (1). Mas, seja qual for o juízo sobre Gramsci, é certo que ele, assim como Trotsky, havia aprendido o materialismo estudando os textos de Labriola, e não tinha uma concepção determinista no sentido estrito do materialismo: compreendia aquela dialética entre objeto e sujeito, entre circunstâncias e ação revolucionária do homem que pode mudar o mundo. É aquela “práxis revolucionária” que, de acordo com Marx e Lenin, se expressa na organização, no partido da classe operária e, portanto, para retomar novamente as palavras de Gramsci, na militância “nas fileiras da classe operária”. Gramsci (como escreve em uma Carta do cárcere de dezembro de 1929 a seu irmão Carlo) vê nesse lema uma “superação dequeles estados de espírito vulgares e triviais que são chamados de pessimismo e otimismo“. Para Gramsci, o engajamento ativo, isto é, a militância organizada em um partido revolucionário pode mudar o mundo, ao contrário do que acreditam aqueles intelectuais tradicionais, não “orgânicos” à classe operária, aos quais expressava o seu mais profundo desprezo.

Portanto, Gramsci utiliza a citação usada por Bianchi, mas o faz para exaltar a militância revolucionária. Se, então, Bianchi quer atacar a militância (fingindo atacar o “militantismo”), deveria procurar outros modelos de referência. Com todos os seus limites, com os seus desvios centristas, Gramsci foi toda a sua vida um militante do partido e morreu na prisão fascista exatamente por isso: se tivesse se limitado a ser um acadêmico e um cético, escrevendo em alguma revista (ou blog, como diríamos hoje), Mussolini não o teria identificado como um perigoso inimigo a ser eliminado.

Um dicionário de clichês
Seria injusto, no entanto, simplesmente reduzir o artigo de Bianchi a uma celebração banal do ceticismo pequeno-burguês. É verdade: o artigo de Bianchi exala ceticismo e reúne, metodicamente, contra a militância um verdadeiro catálogo de clichês pequeno-burgueses, de modo a ser quase um “dicionário de clichês”, como o teria concebido (talvez com mais senso de humor) o romancista francês Gustave Flaubert.

Não sabemos o que Bianchi queria dizer com este artigo: o mais provável é que se trate de um escrito extemporâneo, mesmo que tenha sido feito com o objetivo de “reinventar a esquerda e reorganizá-la”, uma vez que este não é apenas o título de outro recente artigo do autor, mas também o propósito do blog em que escrevem ele, Henrique Carneiro, Ruy Braga e outros intelectuais com as mesmas posições.

Em todo caso, este artigo traz implicações importantes, políticas, que, mesmo que tenham sido introduzidas por Bianchi inconscientemente, foram imediatamente absorvidas por alguns de seus admiradores envolvidos em política. Para indicar essas implicações, devemos primeiro dar um passo de cem anos para trás.

Novas teorias… de cem anos atrás
Uma característica típica do reformismo e do centrismo de todos os tempos tem sido sempre a de apresentar periodicamente como “novas” teorias que são, na verdade, muito antigas. Isso porque, sendo o reformismo uma prática muito antiga no movimento operário, é difícil para os seus teóricos de hoje produzir algo novo, que não repita o que foi dito e feito. Mas a pretensão de serem originais é muitas vezes devida ao fato de que esses teóricos “pós” (pós-marxistas, pós-bolcheviques, pós-trotskistas etc.) normalmente vivem na ignorância dos debates e da experiência prática que o movimento operário produziu em quase dois séculos de vida. A ignorância não é uma virtude para os revolucionários, lembrava Marx. Mas, poderíamos acrescentar, é certamente uma virtude para os reformistas e centristas: porque a teoria revolucionária é um adversário implacável da sua política oportunista. Então, para eles, é melhor cultivar a ignorância. Isso, muitas vezes, acontece também com os acadêmicos.

Neste caso, também se adiciona um outro elemento: a arrogância daqueles que creem falar, do alto de sua cátedra, para militantes ignorantes, para operários rudes. Por isso, quando escrevem seus artigos e apresentam suas “novas” teorias, esse tipo de intelectuais nem sequer se preocupam em aprofundar, estudar os debates anteriores.

Por exemplo, no caso que estamos discutindo, as teorias de Bianchi contra o “militantismo” já foram escritas e repetidas na socialdemocracia russa no início do século XX. Não só isso: foi o tema do confronto e da ruptura da ala revolucionária (Lenin e os bolcheviques) com a ala oportunista (Martov e os mencheviques). Uma boa parte do livro de Lenin intitulado Um passo adiante, dois passos atrás (1904) é dedicado a polemizar contra aqueles que criticavam os bolcheviques por uma suposta “disciplina de quartel”, pela “militância cega”, porque os militantes teriam sido privados de sua liberdade individual e reduzidos a “rodas e rodinhas” de uma engrenagem (2).

Alvaro Bianchi não inventou nada de novo quando fala de militantes privados de “imaginação criadora”, tolos para os quais “pensar é uma atividade contrarrevolucionária”, sectários que querem “destruir” os adversários, partidos que gostariam de “substituir a vanguarda e as massas”, e assim por diante. E também quando propõe, no lugar de tudo isso, “novas práticas emancipadoras”, está caminhando por trilhas que outros percorreram muito antes dele.

O “novo” Iskra, ou seja, o Iskra com o qual Lenin rompeu e que, de novembro de 1903 a outubro de 1905, tornou-se o órgão dos mencheviques, publicou uma série de artigos justamente para polemizar contra a concepção “rígida” e “militante” que Lenin e os bolcheviques defendiam.

Como se entenderá a seguir, não se tratava de um debate sobre questões puramente “organizativas” ou sobre o Estatuto (embora tivesse nascido a partir da definição de militante no Estatuto): era um debate estratégico, porque a definição do partido centralizado de militantes, baseado em uma “disciplina férrea” (ou seja, o modelo de partido e de militância contra o qual escreve Alvaro Bianchi), implicava na relação entre o partido e a classe. Na concepção dos mencheviques, devia ser um partido de toda a classe, que não distinguia ativistas e militantes (não “militantista”, diria Bianchi). Na concepção dos bolcheviques, no entanto, devia ser um partido de vanguarda, ao mesmo tempo separado e integrado na classe. Por sua vez, a relação entre o partido e a classe trabalhadora também definia a relação com a burguesia e o seu Estado. Por isso, a verdadeira conclusão deste debate sobre a “militância” será em 1917, quando os mencheviques farão parte de um governo burguês que será derrubado pela Revolução de Outubro. Ou seja, o arranhão dos mencheviques, em 1903, introduzido com o debate sobre a “militância”, vai se transformar em gangrena em 1917.

Se Alvaro Bianchi – e seus admiradores – tiverem o tempo e a paciência para aprofundar o estudo, vão descobrir que todos os argumentos contra o “militantismo” já foram expressos mais de cem anos atrás. Com a única diferença que, talvez, o nível da polêmica era um pouco mais elevado: até porque foi conduzida por cabeças como as de Axelrod e Plekhanov, que foram capazes de oferecer artigos ao oportunismo, espero não ser ofensivo, mais brilhantes do que o de Alvaro Bianchi (3).

Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo…
Como entendemos, a verdadeira aposta em jogo quando se discute a militância é a finalidade para a qual se constrói (ou se recusa a construir) um verdadeiro partido revolucionário: é a questão do poder da classe operária e a da revolução que é necessária para chegar ao poder, e que é impossível de se fazer sem um partido de militantes, ou com um sucedâneo de um partido de tipo bolchevique. Não estamos, assim, discutindo interpretações do mundo: se se tratasse apenas disso, como já sinalizou o Marx das Teses sobre Feuerbach, os filósofos seriam suficientes. Mas trata-se de mudar o mundo com uma revolução operária e socialista: e esta é uma questão que podem enfrentar com seriedade apenas os militantes revolucionários, os tribunos do povo, os operários com suas mãos calejadas. Aos acadêmicos, aos céticos que desprezam a militância disciplinada em um partido centralizado, deixamos de bom grado a sua academia, os seus blogs, os seus clichês pequeno-burgueses e – se isso pode dar-lhes alegria, assim como nos assegura o pós-moderno Toni Negri – até mesmo os passarinhos de São Francisco.

Notas
(1) A análise das posições políticas de Gramsci e de seu centrismo em relação ao debate contra o stalinismo pode ser lida no meu artigo “Gramsci traído”, publicado no site da LIT-QI: http://litci.org/pt/especiais/opiniao/gramsci-traido/.

(2) Para um aprofundamento sobre este assunto, permito me remeter a um artigo meu: “Democracia sem centralismo não tem nada a ver com o bolchevismo”, publicado no blog Convergência e no site da LIT-QI: http://litci.org/pt/especiais/opiniao/democracia-sem-centralismo-nao-tem-nada-a-ver-com-o-bolchevismo/.

(3) Em italiano há uma boa coletânea dos principais textos da polêmica iniciada no Iskra e que continuou no “novo” Iskra. Está no livro editado por Giorgio Migliardi: Lenin e os mencheviques. O Iskra (1900-1905).

Tradução: Alberto Albiero