Do massacre da CSN em 1988 à greve dos petroleiros: As lições do classismo

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Soldados do exército cercam a CSN

No último dia 9, cumpriram-se 27 anos de uma das mais tristes e belas histórias do movimento operário brasileiro. Durante a greve de ocupação na Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, em Volta Redonda (RJ), o exército invadiu a usina a mando do presidente Sarney realizando um verdadeiro massacre que resultou em 3 mortes e centenas de feridos a fuzil e baioneta. Nenhum do lado do exército, é claro.

Os operários mortos têm nome: Carlos, Walmir e William. Nem mesmo durante a ditadura militar houve uma repressão tão violenta a um movimento de trabalhadores como esse ocorrido na CSN.

Aliás, Volta Redonda é a minha terra e a CSN foi construída com o suor do meu avô, meus tios-avós, meu pai, meus tios, meus primos e parentes, e vizinhos de infância. É uma cidade operária por essência. Só existe devido à construção da Usina, na década de 40.

Ora, mas o que pode haver de belo em uma história com momentos tão macabros? Explico: em 1988, ano da histórica greve e do massacre, vivíamos anos de forte crise econômica, plano Sarney, mas também anos pós-derrubada da ditadura militar e de construção de uma poderosa ferramenta para a luta dos trabalhadores brasileiros, que foi o Partido dos Trabalhadores.

Essa greve, marcada pela brutalidade do Estado contra o legítimo direito dos trabalhadores lutarem por mais direitos e melhores condições de vida, provocou um salto na consciência de classe dos trabalhadores. Estava mais claro do que nunca o quanto era inconciliável os interesses da classe trabalhadora e os interesses dos ricos e poderosos, esses últimos os chefes do presidente da República em um governo burguês, como o de Sarney.

O resultado desse salto no nível de consciência provocou, não por coincidência, a eleição dos primeiros prefeitos do PT em capitais e cidades importantes: São Paulo, Porto Alegre, Campinas, Santro André, dentre outras. O motivo não podia ser outro: trabalhador vota em trabalhador! E assim, o PT se consolidava como o maior fenômeno político de massas da história do nosso país. E melhor, não era qualquer política: uma política classista.

Passados 27 anos, é importante refletirmos sobre o caminho que levou o PT de ser a maior expressão organizativa da consciência de classe dos trabalhadores brasileiros a tornar-se, hoje, o chefe de um governo que comanda o exército e polícias para atacar e reprimir o povo pobre e, também as mobilizações da classe trabalhadora.

Os exemplos mais extremos dessa virada são a ocupação do Haiti, chefiada pelas tropas brasileiras desde 2004, no início do governo Lula, mas também a ocupação pelo exército do Complexo da Maré, durante o período da Copa do Mundo no Brasil, preparando terreno para a política fascista da instalação da UPP naquela comunidade.

Podemos citar, também, o uso da Força Nacional de Segurança Pública para atacar a revolta dos trabalhadores nas obras de Belo Monte contra as condições de semi-escravidão impostas pelas empreiteiras financiadoras das campanhas eleitorais desse partido, bem antes de existir Operação Lava Jato.

Mais recentemente, em pleno 2015, a diretoria da Petrobrás recebeu carta branca para acionar a polícia contra os trabalhadores em greve. A justeza da greve é inegável: lutar contra o desmonte e a privatização da maior empresa da América Latina, patrimônio construído com muito sangue e suor por gerações de petroleiros, próprios e terceirizados.

A defesa de uma política que buscasse contemplar tanto os banqueiros e as multinacionais quanto os trabalhadores explorados por essa mesma classe foi a grande marca dos rumos adotados pelo PT desde que chegou ao poder, conquistando as suas primeiras prefeituras importantes, justamente no fatídico ano de 1988.

Ou seja, foi justamente no ponto mais alto a que chegou o PT como ferramenta da classe trabalhadora que se iniciou o seu longo e penoso processo de degeneração. E tudo isso fruto de uma opção política: buscar a conciliação de classes, justamente em um mundo que é dividido em classes sociais, queira ou não admitir a direção desse partido.

Daí não fica difícil entender o mensalão, o escândalo da Petrobras, mas também as alianças com Sarney. Sim, o mesmo que autorizou o massacre dos trabalhadores da CSN em 1988.

No dia 5 de novembro, já em 2015, acabei sendo mais uma vítima da repressão do Estado, por estar lutando contra o avanço do capital sobre a riqueza do povo brasileiro, no caso a Petrobrás. Fui detido junto com o companheiro Jairzinho e a jornalista Larissa Gould pela PM de São Paulo, comandada pelo PSDB, supostamente por desobediência, mas que teve a presença solicitada pelo Terminal de São Caetano, da Transpetro.


Pedro e Jairzinho são detidos pela PM

O detalhe é que dois dias antes Deyvid Bacelar, representante dos petroleiros no Conselho de Administração da Petrobrás, coordenador do Sindipetro-BA e que em 2014 fez campanha para a presidente Dilma e para o governador da Bahia Rui Costa, também foi preso em situação semelhante à minha na RLAM, durante a mesma greve, pela PM da Bahia, comandada pelo PT. Emblemático.

A boa notícia é que os trabalhadores continuam firmes nas greves, ocupações, piquetes, com maior ou menor nível de consciência, e só dessa forma é possível que a nossa classe acumule experiências de forma suficiente para recuperar o espírito classista de 1988. Se naquele momento entendemos que Sarney e o seu PMDB eram inimigos da classe trabalhadora que deveriam ser derrotados nas ruas e nas urnas, hoje urge a consciência de que o governo Dilma, do PT, mas também a oposição de direita com PSDB, Cunha e companhia devem ser derrotados nas ruas, e só assim será possível construir uma nova ferramenta política para a classe trabalhadora brasileira, que liberte e emancipe a nossa classe.

Agora, porém, poderemos contar com a experiência que foi a construção do PT e o erro que foi abandonar o classismo, abraçando a conciliação de classe.

Afinal, trabalhador, só pode contar com trabalhador.