Como nos tornamos humanos

Pintura da caverna de Lascaux, na França

Desde que Engels escreveu seu genial ensaio “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, em 1876, as ciências naturais e humanas tiveram avanços colossais. Algumas hipóteses levantadas pelo cofundador do socialismo científico em seu artigo foram refutadas; outras, ao contrário, brilhantemente confirmadas. Além disso, se travou uma intensa luta ideológica em torno ao trabalho de Engels, que, muito mais do que um resumo científico, apresentava uma ampla visão de mundo, o que não poderia deixar de despertar as mais variadas paixões. Uma breve e despretensiosa revisita ao tema, à luz das últimas descobertas da ciência e do desenvolvimento social, nos parece conveniente.

A evolução humana
O gênero homo, ao qual pertencemos, finca suas raízes na África há cerca de 2,3 milhões de anos. Nesse período, vivia nas savanas semiáridas daquele continente uma espécie de hominídeo que pesava entre 30 e 40 quilos e chegava a 1,30 metros de altura. Seu modo de vida intercalava períodos em que passava suspenso na copa das árvores, se protegendo de predadores, e momentos em que descia para o chão em busca de comida. Com o tempo (e motivado, provavelmente, pela rarefação das árvores devido a mudanças climáticas), os períodos passados em solo se tornaram cada vez mais longos e frequentes, até que este nosso remoto ancestral abandonou o estilo de vida arbícola e desceu defintivamente ao chão, onde nos encontramos até hoje.

É nesse período que parece se consolidar o bipedalismo, ou seja, o andar sobre duas patas. É verdade que praticamente todos os primatas podem se equilibrar e percorrer certas distâncias sobre as patas traseiras. No entanto, só o fazem em caso de necessidade, enquanto nosso longínquo ascendente parece ter passado a maior parte do tempo em pé, fato amplamente comprovado pelo registro fóssil.

As razões do bipedalismo não estão bem esclarecidas pela ciência. Diferente do que se pensa, o bipedalismo não parece ter oferecido (pelo menos no início) qualquer vantagem motora direta àqueles que o praticavam. Não corriam mais rápido, nem gastavam menos energia. Mas obtinham outras vantagens. Em primeiro lugar, podiam ver sobre o capim alto, o que diminuia bastante o perigo de ataques por parte dos predadores. Em segundo (e que parece ter sido decisivo), como tinham mandíbulas fracas se comparadas com os grandes predadores, andar longas distâncias unicamente sobre as patas traseiras era a única forma de carregar alimentos para si próprio e para outros membros do bando. Quando um grande predador abate uma presa, ele em geral carrega consigo tudo o que não consegue comer, e faz isso com a mandíbula, andando sobre as quatro patas. Nossos ancestrais não tinham essa opção. Eles eram carniceiros com presas e garras frágeis, sem chifres, casco ou qualquer outra proteção especial, e encontravam o animal que serviria de alimento já morto, em geral em campo aberto, onde estariam ao alcance de seus predadores. Levar o que restava de carne e ossos para longe do local poderia significar a diferença entre a vida a morte. Assim, as mutações genéticas que afetavam a bacia, os joelhos e as pernas, favorecendo o bipedalismo, foram premiadas com uma vida mais longa e a possibilidade de gerar mais descendentes, aumentando a pressão evolutiva nesta direção específica.

O bipedalismo promoveu também uma maior interação social entre os componentes dos bandos. Quando se leva alimento para o grupo, deixa-se de comer uma parte do que se encontrou, mas este gesto fica marcado na memória de todos, que retribuirão mais tarde com um outro ato de solidariedade e cooperação. Que distância entre este fato científico amplamente comprovado e a caricatura maliciosa pintada por liberais e darwinistas sociais, que retratam a evolução como uma luta “de todos contra todos”! Nada mais falso! Darwin jamais afirmou que a seleção natural era uma luta entre indivíduos, muito menos indivíduos de uma mesma espécie, algo como um “UFC da vida”. O que Darwin disse é que cada indivíduo busca deixar depois si o maior número possível de descendentes. Esta luta por transmitir a sua própria carga genética pode se dar tanto com um modo de vida solitário, quanto por meio da associação, ou seja, a constituição de sociedades organizadas, colaborativas. Há na natureza incontáveis exemplos que ilustram ambos os casos.

Mas voltemos aos nossos ancestrais. Com as mãos livres, estes começaram muito rapidamente a produzir  ferramentas. É justamente esta produção que dá nome ao nosso ilustre antepassado: homo habilis, ou “homem habilidoso”. Há muitos animais capazes de utilizar ferramentas para a realização de tarefas. Mas somente o homo habilis foi capaz de produzi-las, ou seja, transformar conscientemente a natureza em um sentido específico, criando ele mesmo, com isso, uma extensão de seu próprio corpo. A produção de ferramentas é, definitivamente, o ato fundador da humanidade e nosso homo habilis já é com certeza um completo ser humano. Suas ferramentas são ainda pouco trabalhadas (pedra lascada, ossos e madeira), mas não é, de modo algum, fruto do acaso ou de qualquer ação involuntária. É parte de uma cultura elaborada, evidentemente humana.

Com a produção de ferramentas, o homem transpõe as fronteiras de seu próprio corpo biológico e começa a deixar na natureza a marca de sua mão. A natureza se torna assim natureza “antropomórfica”, o segundo corpo do homem. Com o tempo, ele aprenderá a controlar e mover este corpo, da mesma maneira que uma criança descobre seu próprio corpo e aprende a controlá-lo também lenta e gradualmente. Assim, não se pode falar ainda, é claro, de um domínio do homem sobre a natureza, pois nossos ancestrais se encontram ainda sob o jugo de forças hostis, incompreensíveis e incontroláveis, mas o passo fundamental já havia sido dado. Começava a lenta e irrefreável transformação consciente da natureza, e com isso a transformação do próprio homem por obra dele mesmo, a sua autotransformação.

Mas a evolução, e com ela a socialização progressiva do homem, não parou aí. A liberação e o uso contínuo das mãos parece ter desencadeado, por um processo chamado “coevolução”, uma rápida expansão do cérebro, que nesta etapa atinge 750 cm³, ou seja, um pouco mais da metade de nosso cérebro atual. O cérebro do homo habilis impressiona não pelo tamanho absoluto (muitos animais têm cérebros grandes), mas pelo tamanho relativo, quer dizer, a proporção específica entre o tamanho do cérebro e o tamanho do corpo. Aqui a sequência dos eventos é importante: primeiro caminhamos, e somente depois, graças ao andar ereto e à consequente liberação das mãos para distintas tarefas, nosso cérebro cresceu. Ou seja, não criamos ferramentas porque ficamos mais inteligentes. Ficamos mais inteligentes porque criamos ferramentas. A inteligência não é a razão de nossa humanização. O trabalho é.

Associada à postura ereta, a rápida expansão do cérebro (chamada por alguns autores de “inflação cerebral”, devido à velocidade do crescimento) acarretou mudanças ainda mais profundas. Para andarem eretas, as fêmeas habilis precisavam de quadris estreitos. E como o cérebro humano estava se expandindo, a gestação precisou ser encurtada, de forma que a enorme cabeça da cria habilis passasse pelos ossos da pélvis e pelo canal vaginal. A seleção natural deu um jeito nisso. As fêmeas que davam à luz prematuramente eram premiadas com a sobrevivência. As que geravam fetos totalmente desenvolvidos morriam ao dar à luz, junto com suas crias. Muito rapidamente, esta característica foi transmitida a toda a espécie e assim a evolução determinou que todos os recém-nascidos humanos seriam, dali em diante, “prematuros”. Por sua vez, a fragilidade do recém-nascido humano, quando comparado com outros mamíferos, se tornou um novo e forte elemento de socialização, pois aproximou os adultos das crias (e com isso todos os adultos entre si) em um grau muito maior do que o observado em qualquer outra espécie.

Como se vê, todas as características fundamentais daquilo que conhecemos como humanidade já estavam presentes no homo habilis há cerca de 2 milhões de anos. Com a invenção ou descoberta do trabalho, o homem deixa para sempre a esfera meramente biológica e se torna, além disso, um ser social. Sua ação deixa de ser determinada unicamente pelo jogo dos instintos de sobrevivência ou reprodução e ele passa a desenvolver uma ação planejada, cujo resultado vislumbra em sua mente antes de tê-lo concretizado diante de si. “Isso distingue o pior arquiteto da melhor abelha”, dizia Marx. O homo habilis é, com certeza, um arquiteto em início de carreira, mas ainda assim um arquiteto. Desta forma, não somos apenas humanos (e com isso muito diferentes dos animais). Somos humanos há muito mais tempo do que acredita o senso comum e em um sentido muito mais profundo.

Mas a evolução seguiu seu rumo e antes mesmo que o homo habilis se extinguisse para sempre, há cerca de 700 mil anos, deixando apenas fósseis e alguns restos de cultura material, uma outra espécie do gênero homo divergiu do ramo original, dando origem a um novo personagem, o homo erectus.

A denominação homo erectus (homem ereto) é controversa, pois ele era tão ereto quanto seu antecessor, que nem por isso se chamava erectus. Mas a manteremos para simplicidade da exposição, embora hoje não seja tão amplamente aceita quanto no passado.

Viveu o homo erectus entre 1,8 milhão e 300 mil anos atrás, tendo sido, portanto, contemporâneo de seu ancestral habilis, embora é pouco provável que tenham algum dia se encontrado, dada a distribuição geográfica de ambos. O homo erectus tinha entre 1,30 e 1,70 metros de altura e chegava a pesar 70 quilos, o que é próximo dos padrões modernos de peso e altura dos humanos. Seu cérebro chegava a incríveis 1250 cm³, o que também é muito próximo de um cérebro moderno. No entanto, alguns adultos possuíam cérebros bastante diminutos, de até 750 cm³. Essa grande variação no tamanho do cérebro salienta justamente o rápido desenvolvimento do órgão ao longo do milhão e meio de anos que a espécie existiu.

O homo erectus já é um ser humano muito parecido conosco. Em primeiro lugar, por seu modo de vida. Ele é um caçador nato e um exímio artesão. Além disso, possui senso estético e é um excelente designer. Seus instrumentos já não são toscas pedras lascadas no método de “tentativa e erro”, como acontecia com o homo habilis, mas belos machados de mão, bastante eficientes, lascados com extremo cuidado e visando sempre um resultado específico, programado pela mente do homo erectus. É também o primeiro de nosso gênero a migrar para fora da África e o primeiro a utilizar controladamente o fogo, embora seja pouco provável que o produzisse (possivelmente o capturava na natureza e o preservava de algum modo). Vivia em pequenas comunidades e construia singelos abrigos de pedra e madeira. É também neste período que parece ter se consolidado uma divisão sexual e etária do trabalho, com idosos, mulheres e crianças cuidando da produção de ferramentas e os homens adultos se ocupando diretamente da caça, que nesta etapa já era uma complexa atividade colaborativa.

A questão da fala constitui uma grande controvérsia. Primeiro, note-se que não nos referimos ainda à linguagem, ou seja, a um sistema de símbolos que permita a comunicação humana, mas apenas à fala, quer dizer, ao fenômeno anatômico. Por um lado, os moldes cranianos produzidos a partir dos fósseis do homo erectus parecem indicar um amplo desenvolvimento das áreas do cérebro ligadas à fala. Por outro, a análise da caixa toráxica, bastante diminuta, não confirma a possibilidade do homo erectus sustentar a fala de maneira estável. A análise da região do pescoço, que seria decisiva, foi até agora inconclusiva.

A migração do homo erectus para distintas regiões do globo terrestre isolou populações inteiras, acelerando o processo de especiação, ou seja, de surgimento de novas espécies a partir do ramo original. Das inúmeras espécies humanas originadas do homo erectus, duas são especialmente importantes para nós: a primeira somos nós mesmos, o homo sapiens sapiens, ou apenas homo sapiens; a segunda são nossos primos mais próximos, porém extintos, o homo sapiens neanderthalensis, ou apenas neandertal. Comecemos por nossos primos, que têm uma história quase tão interessante quanto a nossa própria.

Embora muitos gráficos e ilustrações escolares identifiquem os neandertais como nossos antepassados diretos, isso não passa de um erro. Nós, assim como eles, descendemos do homo erectus. Os neandertais não são nossos ancestrais. Somos espécies paralelas. Este fato está solidamente estabelecido por toda a paleoantropologia e confirmado por uma ampla pesquisa genética, denominada “Projeto Genoma Neandertal”, que decodificou os trechos mais significativos do genoma neandertal e os comparou com o genoma do homo sapiens moderno.

Esqueletos reconstruídos do homo sapiens neanderthalensis e o homo sapiens sapiensOs neandertais surgiram há aproximadamente 300 mil anos e ocuparam uma vasta região que vai desde a península Ibérica até a Ásia. Foi uma espécie humana de grande riqueza cultural, produzindo não apenas objetos úteis, mas também adornos e enfeites para mera satisfação estética. Parecem ter desenvolvido um forte senso moral, pois seus mortos eram enterrados seguindo determinados padrões e ritos, embora não se deva confundir o fato com alguma proto-religião ou noção de sobrenatural, coisa que até agora não foi confirmada.

Fisicamente, eram fortes e musculosos, com esqueletos largos e potentes, e seu cérebro podia chegar a 1700 cm³, o que supera com folga o volume do cérebro sapiens. Acredita-se que tinham pele clara, mais adaptada às regiões frias, onde há pouca luz solar para ser usada na síntese da vitamina D, e cabelos ruivos, pois as pesquisas genéticas indicam uma mutação na região MC1R do cromossomo 16 dos neandertais, similar à mutação apresentada pelos ruivos sapiens na mesma região do mesmo cromossomo.

O Projeto Genoma Neandertal confirmou também que houve cruzamento localizado entre neandertais e sapiens na região sul da península Ibérica, mas esses cruzamentos não parecem ter influenciado o desenvolvimento posterior dos sapiens, permanecendo apenas como casos isolados. Em 1998, o fóssil de um menino de 4 anos, encontrado na região de Lapedo, em Portugal, confirmou esta hipótese, pois foi reconhecido como de um híbrido entre as duas espécies. Até agora foi o único caso. De conjunto, os neandertais são tão distantes dos europeus, quanto de qualquer outro povo. Logo, não houve cruzamentos sistemáticos ou significativos. Não há nada especificamente neandertal em nós (ruivos agora podem soltar a respiração).

O que sim se sabe com certeza é da existência de contatos culturais entre as duas espécies. Há indícios claros de que certas tecnologias circularam entre neandertais e sapiens modernos, mas provavelmente isso se deu por imitação simples e não por transmissão consciente através da linguagem.

Como são bem mais recentes e abundantes, os fósseis de neandertais revelam muito sobre sua anatomia. Eles possuem o osso hioide, que segura a base da língua no seu devido lugar. Logo, eram capazes de falar. No entanto, a língua está fixada mais acima na laringe, avançando muito para dentro da boca, o que certamente dificultava a fala. Por isso, o mais provável é que tivessem voz anasalada e passassem sempre a impressão de falar com a boca cheia. Também é certo que não conseguiam pronunciar todas as vogais, o que poderia limitar, mas não impedir totalmente a comunicação, pois quando crianças todos cantam alegremente e sabem como é fácil entender “i sipi ni livi i pi; ni livi pirqui ni quir; ili miri ni liguii; ni livi i pi pirqui ni quir, mis qui chili!”.

Muitas foram as razões que parecem ter contribuído para a extinção dos neandertais. Em primeiro lugar, a pouca evolução de sua cultura material em quase 200 mil anos parece indicar uma baixa inteligência prática, apesar do tamanho exuberante do cérebro. Seu porte físico extremamente avantajado era ideal para o esforço concentrado, mas inconveniente para longas caminhadas e deslocamentos a pé, o que poderia ser decisivo em caso de mudanças climáticas abruptas, diminuição da caça disponível em determinada região etc. Além disso, a gestação de um bebê neandertal durava 12 meses, o que diminuia consideravelmente sua taxa reprodutiva. Para piorar, o neandertal parece ter sido um caçador puro, que não combinava outras formas de obtenção de alimento, como a coleta e a proto-agricultura, o que lhe deixava poucas alternativas em tempos de maiores dificuldades.

Quando a isso se soma o contato (talvez nem sempre amistoso) com o homo sapiens moderno, mais esguio e inteligente, caçador-coletor e proto-agricultor, então as coisas começam a ficar realmente difíceis para os neandertais. O registro fóssil mostra uma contínua redução da área por eles habitada. Essa redução começa com os primeiros contatos entre as duas espécies e persiste até o desaparecimento completo dos neandertais. O isolamento cada vez maior certamente levou à consaguinidade, ou seja, ao cruzamento frequente entre parentes próximos, o que acelerou o processo de decaimento da espécie e terminou em sua extinção.

Como aconteceu com inúmeras outras espécies desde o surgimento da vida na Terra, o patrimônio genético do homo sapiens neanderthalensis foi para sempre retirado do banco genético planetário, e reconstituído apenas há alguns poucos anos, por meio da ciência e do gênio inventivo do homem.

Rendidas as justas homenagens ao homem de Neandertal, é preciso que nos concentremos agora no homo sapiens sapiens, ou homo sapiens moderno.

A espécie a qual pertencemos surgiu há aproximadamente 200 mil anos no sudoeste da África, em algum lugar próximo à fronteira entre a Namíbia e Angola. Esta teoria de uma origem única é hoje amplamente aceita e as teorias sobre uma suposta origem múltipla, muito em voga em outros tempos, foram praticamente descartadas.

Fisicamente, o homo sapiens se caracteriza por possuir membros inferiores relativamente longos se comparados com os superiores, forma muito mais adaptada à locomoção bípede do que todos os seus ancestrais; sistema mastigatório reduzido e dentes caninos pequenos; laringe longa, o que permite a fala articulada com todas as vogais; além de inúmeras particularidades comportamentais, fruto também do desenvolvimento genético e histórico e que compõe a sociabilidade especificamente humana.

Entre os 7 bilhões de homo sapiens que habitam hoje o planeta, há pequenas variações físicas que são simples adaptações evolutivas às condições particulares de cada região, como a cor da pele, o formato das narinas e a estrutura dos pelos do corpo. A ciência não atribui a essas características qualquer significado especial além de mera adaptação, não havendo por isso sequer uma nomenclatura científica para designar tais diferenças. O conceito de raça, usado para distinguir grupos humanos segundo suas características externas, não é da biologia e não encontra base sólida em nenhuma ciência natural. No entanto, sabemos que as raças existem como realidade histórica, política e social, e por isso não devem ser ignoradas, sob pena de se fechar os olhos à extrema desigualdade vivida por estes grupos no mundo real.

Intelectualmente, o homo sapiens se caracteriza pela capacidade de raciocínio abstrato, ou seja, de lidar com objetos que não se encontram presentes de forma real e imediata e de imaginar e entender coisas que ele nunca viu; pela linguagem, ou seja, por um conjunto de símbolos e estruturas capazes de transmitir informações; pela introspecção; pela autoconsciência e pela racionalidade.

O cérebro humano, cujo volume gira em torno dos 1400 cm³, é a mais complexa estrutura conhecida no universo, o mais alto grau de organização da matéria. Esta definição não é apenas uma dedução lógica ou uma afirmação moral, mas tem uma comprovação prática cotidiana: o fato de que o cérebro humano é a única estrutura (até onde se sabe) que tomou consciência de si mesma. O homem não é apenas homo sapiens, ou seja, não apenas “sabe” (muitos animais “sabem” coisas), mas é homo sapiens sapiens, quer dizer, “sabe que sabe”, tem consciência. Entre outras coisas, consciência de si mesmo. O cérebro humano é a matéria que se tornou autoconsciente.

Sabemos hoje com precisão quando o homem abandonou seu lar na África. Isso aconteceu há cerca de 70 mil anos e deve ter ocorrido em função de uma gigantesca catástrofe natural, de proporções inimagináveis, chamada “catástrofe de Toba”. Toba é hoje um lago tranquilo na ilha de Sumatra, na Indonésia, mas há 70 mil anos foi o epicentro de uma erupção supervulcânica de categoria 8 (ou “megacolossal”, de acordo com o Índice de Explosividade Vulcânica), que liberou energia equivalente a 15 Gton de TNT, ou seja, 3 mil vezes a maior explosão vulcânica já registrada pelo homem. Foram lançados ao ar 2.000 km³ de lava que caíram imediatamente sobre a ilha como uma enorme chuva incandescente e cerca de 800 km³ de poeira, o suficiente para cobrir o céu do planeta por vários anos, precipitando uma era glacial que estava apenas em seu início. Devido à direção dos ventos, a maior parte da poeira de Toba foi levada para o continente africano, dizimando um número incontável de espécies animais e vegetais.

Fruto da catástrofe, a maior parte da população de homo sapiens sapiens morreu, tendo a espécie humana inteira se reduzido a cerca de 10.000, ou até mesmo (segundo cálculos mais radicais) 1.000 casais, gerando o que se chama “efeito gargalo” na história da evolução humana, quando nossa espécie teve que praticamente ser reconstruída a partir de alguns poucos indivíduos.

Mas nossos antepassados intuíram o que era preciso fazer: deixar o continente. Assim, uma parte significativa da população (nem toda, obviamente), começou a migrar pelo mundo. Há 40 mil anos esses viajantes chegaram à Eurásia e Oceania e há 10 mil (existem dados que apontam para 15 e até mesmo 25 mil anos atrás), à América, através do estreito de Bering, que, naquela época, fruto das glaciações, fornecia uma passagem seca entre a Ásia e América.

“O grande salto para frente”
Durante aproximadamente 150 mil anos, a cultura sapiens permaneceu fundamentalmente a mesma, com um desenvolvimento pouco significativo. No entanto, há cerca de 50 mil anos se deu o que os paleoantropólogos chamam de “o grande salto para frente”. Começa uma fase claramente distinta no desenvolvimento de nossa espécie, uma etapa de um comportamente especificamente humano, em absolutamente nada diferenciável do que temos hoje. Surge quase que simultaneamente a música, a pintura, os rituais, se desenvolve a linguagem e a comunicação. Além disso, há uma espécie de “big bang” da cultura material, com inúmeros novos instrumentos e ferramentas sendo desenvolvidos, e em quantidades enormes para os padrões arqueológicos.

Como explicar esse fenômeno, que se estendeu a todas as populações sapiens? Uma das hipóteses levantadas pelos paleoantropólogos é a de que neste período tenha surgido a linguagem abstrata ou referencial, ou seja, a capacidade de se comunicar sobre coisas imateriais, como ideias, sentimentos etc. Como consequência, o homem se tornou ainda mais gregário, seu pensamento ficou mais refinado e sua produção material e imaterial deu um salto.

Mas como explicar o próprio surgimento da linguagem abstrata em uma população tão vastamente distribuída? Terá sido um mero “click” evolutivo na anatomia e funcionamento do cérebro? Naturalmente, toda ação humana ocorre dentro de certos limites fisiológicos, pois o homem é um ser, além de outras coisas, natural. No entanto, este “além de outras coisas” cumpre aqui um papel decisivo.

Charles DarwinDarwin atribuía o desenvolvimento do cérebro a um processo essencialmente natural, o que era coerente com sua teoria evolutiva e seu mecanismo de seleção natural. Em polêmica com ele, outro grande naturalista, Alfred Russel Wallace, afirmava que teria sido impossível ao cérebro humano chegar ao estado de autoconsciência por meio de um processo meramente evolutivo. Alfred era um místico espiritualista e acreditava que a autoconsciência era a única característica que não poderia se desenvolver por meio da seleção natural. Teria que ser um impulso divino, um “sopro nas narinas”, algo externo ao homem. Hoje sabemos que Wallace tinha certa razão, mas não no sentido que ele mesmo acreditava. A autoconsciência do homem não é, obviamente, obra de qualquer ser sobrenatural. Mas também não é fruto puro e simples da seleção natural. A inteligência humana, sua autoconsciência, é fruto de um impulso externo chamado sociedade. É esta sociedade que constitui o sopro em nossas narinas. Nossa inteligência não é uma propriedade intrínseca de nosso cérebro, mas o resultado da interação entre nosso cérebro e a sociedade que nos cerca. A inteligência individual é uma obra social, uma construção coletiva. O cérebro humano não tem qualquer inteligência especificamente humana inata, isolada da sociedade. Somos inteligentes graças ao fato de que nossos pares nos ensinam coisas desde a mais tenra infância, desenvolvem e estimulam nossas capacidades, transmitem a nós parte dos conhecimentos acumulados pela humanidade. Assim, o cérebro humano não se desenvolve apenas sobre a coluna cervical do indivíduo que o carrega. Ele se ergue também sobre a base de todo o progresso social e humano que o cerca. O cérebro nos molda, mas nós também o moldamos. O cérebro é um produto de nossa sociedade, tanto quanto a nossa sociedade é um produto do cérebro.

Desta forma, “o grande salto para frente” deve ser explicado muito mais pelos processo sociais da época do que pelo desenvolvimento puramente natural do cérebro. É muito mais provável que a grande migração humana, iniciada há cerca de 70 mil anos, fruto da catástrofe de Tobas, seja a responsável pelo grande salto dado pelo homo sapiens do que um “click” evolutivo qualquer. Toda migração pressupõe trabalho, adaptação ativa, social, e não meramente biológica. Ao se deslocar pelo continente africano, o homem enfrentou novos desafios, novos climas, novos predadores; se adaptou às novas condições de vida apelando ainda mais ao trabalho, ao coletivismo e à cooperação entre todos os membros dos bandos errantes, o que estimulou e fortaleceu seus sentidos, tanto os sentidos naturais, quanto os sentidos humanos (a apreciação da arte, da música etc). Sua inteligência, sua memória e sua capacidade de previsão foram desafiadas e seu cérebro apenas respondeu à altura.  Ali, provavelmente naquela região que hoje ocupa toda a metade sul da África, surgiu o homem tal como o conhecemos hoje.

Trabalho e linguagem
Existe hoje uma concepção bastante difundida de que a linguagem constitui, por si só, a característica humana mais fundamental, a tal ponto que teria sido a linguagem, e não o trabalho, a responsável pela humanização do homem. Trata-se de uma ideia bastante charmosa, mas que não resiste à crítica científica.

Como vimos, o trabalho, entendido como transformação consciente da natureza (ainda que simples e em pequeníssima escala), existe há pelo menos 2 milhões de anos, enquanto a linguagem não possui mais do que 200 mil anos; é um privilégio do homo sapiens. Se falarmos de linguagem abstrata, então o marco se desloca ainda mais em direção ao presente, para não mais de 50 mil anos.

A concepção que atribui à linguagem o surgimento de um ser especificamente humano ignora, portanto, 1,8 milhões de anos de evolução baseada na seleção natural e também no trabalho, mas onde não havia linguagem. Entre os paleoantropólogos, é amplamente aceita a ideia de que a linguagem só surgiu, como disse Engels, “quando houve algo a dizer”, ou seja, quando os seres humanos já estavam envolvidos em uma atividade prática sobre a qual necessitavam comunicar alguma ideia.

É por isso que a linguagem surge no homem como linguagem concreta: “pedra”, “osso”, “madeira”, “animal” provavelmente foram as primeiras (ou estiveram entre as primeiras) palavras a surgir, sem verbos ou qualquer outra estrutura gramatical, apenas coisas sendo nomeadas, objetivos a serem perseguidos, tarefas a serem realizadas.

É claro que a linguagem e a comunicação são decisivas e constituem certamente um marco na história da humanização do homem. Somos seres falantes e ouvintes. Não estamos, portanto, negando a importância da linguagem. É o próprio Engels quem afirma: “Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano”. O decisivo aqui são as expressões “primeiro” e “depois dele e com ele”. Ou seja, apesar de toda a importância da linguagem para o ser humano, é preciso admitir que ela também é fruto do trabalho. É sobre o trabalho que ela surge e se desenvolve, como o comprova não só a paleoantropologia, mas toda a linguística moderna.

O socialismo e a evolução humana
Do exposto acima, conclui-se que o desenvolvimento humano foi um longo e acidentado processo de saltos, estagnação, lenta acumulação de mudanças quantitativas e até mesmo retrocessos momentâneos, até que nos consolidássemos como a espécie biológica e socialmente predominante em todo o planeta. O desenvolvimento humano foi fruto de processos naturais e históricos, onde a fronteira entre cada um desses aspectos é tênue e relativa. Mas de maneira geral, a história do homem é a história de sua luta por dominar a natureza, por elevar-se acima do restante do reino animal. No entanto, como dizia Engels, “a cada passo, os fatos nos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre um povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada. (…) E quanto mais isso seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza, e mais inconcebível será essa idéia absurda e antinatural da antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo.

Tendo atingido um tão elevado grau de desenvolvimento biológico e social, o homem se encontra hoje diante de uma nova encruzilhada. O capitalismo e suas forças destrutivas ameaçam, mais do que em qualquer outra época, as conquistas humanas e sociais do homem e até mesmo sua existência física, quer dizer, o homem como espécie. Nossa humanidade tem sido roubada. O trabalho, que nos elevou sobre a natureza, nos separando do resto do reino animal, é hoje, ele mesmo, um fator de animalização. “Chegamos à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais (comer, beber e procriar […]), enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal”, disse Marx em uma de suas primeiras obras. E é inevitável que seja assim enquanto o trabalho, a atividade humana por excelência, estiver sujeito às leis cegas e irracionais do mercado, da concorrência e do lucro.

Não só a alienação do trabalho, mas também as outras formas de alienação, como o racismo, o machismo, a homofobia e a xenofobia, têm destruído a capacidade dos indivíduos de enxergarem a si mesmos e aos outros como membros de uma mesma humanidade. Ou seja, uma conquista humana de pelo menos 1 milhão de anos vem sendo perdida a olhos vistos. Além disso, a utilização irracional dos recursos naturais tem provocado mudanças ambientais que ameaçam nossa espécie, fato amplamente reconhecido e comprovado por todos os estudos sérios nas diversas áreas da geografia física.

Mas mesmo diante deste grotesco cenário, os socialistas nutrem um profundo otimismo em relação a esta espécie que deu seus primeiros passos, ainda tortos e inseguros, nas savanas africanas há 2 milhões de anos. Se soubemos chegar até aqui, desbravando continentes e atravessando oceanos, lutando contra pragas e catástrofes naturais a partir de uma simples pedra lascada, é de se acreditar que possamos superar as barreiras criadas por nosso próprio desenvolvimento social.

O socialismo, ao libertar o homem do jugo da propriedade privada e do trabalho assalariado, inaugurará também uma nova etapa na história de sua evolução, onde todo o potencial de sua biologia e de sua organização social, todo o esplendor de seu poderoso cérebro, serão finalmente revelados.

Os humanos do futuro rir-se-ão de nossos preconceitos infantis, de nossas ambições mesquinhas, dos séculos desperdiçados em guerras sem sentido e em competições industriais desordenadas e irracionais. Liberto de todas as amarras criadas pela pré-história de seu desenvolvimento, nossos descendentes poderão viver, finalmente, a plenitude de ser humano. Esta é a aposta e a luta do socialismo.