Chacina em Campinas choca e escancara a barbárie machista

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O autor da chacina no interior de São Paulo

O ano de 2017 já começa com uma notícia que revela a barbárie provocada pela violência machista. A cinco minutos da virada do ano, o técnico de laboratório, Sidnei de Araújo, de 46 anos, invadiu a casa da ex-mulher e matou a tiros 12 pessoas, ferindo outras três. Entre as vítimas fatais estão, além de Isamara Filier, com quem era casado, seu próprio filho de oito anos. Ele se matou em seguida.

O assassino estava separado de Isamara há três anos e disputava a guarda do filho. Segundo um sobrevivente, o homem disse à ex-mulher antes de matá-la: “Vou te matar, você tirou meu filho“.  Os detalhes desse crime bárbaro não param por aí. A separação e a disputa pela guarda teriam sido motivadas pela suspeita de abuso sexual de Sidnei contra o filho.

Cartas deixadas pelo assassino momentos antes da chacina, direcionadas ao filho e à atual namorada, não deixam margens para dúvidas: trata-se de um crime motivado pelo machismo. Uma ação premeditada e friamente planejada. Nas missivas, Sidnei destila todo o seu ódio misógino, falando em “sistema feminista” e tachando as mulheres como “umas loucas”.

Trechos das cartas foram divulgadas pelo jornal Estado de S. Paulo: “Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. (…) Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho“.

Isamara Filier e o filho de oito anos, mortos pelo machismo

As agressões machistas não param por aí. “A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias“, afirma.

Não é estranho o assassino não se enxergar como machista, apesar de todas as agressões e insultos que escreve: “Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!“.

Em sua cabeça, ele não tem “raiva das mulheres”, mas das “vadias”, reverberando argumentos que culpabilizam as próprias mulheres por conta do machismo. Argumento semelhante ao que incrimina as mulheres vítimas de estupros pelo crime que sofreram.

Um crime chocante, mas não isolado
A chacina em Campinas choca, mas não deixa de ser a consequência bárbara do machismo que vemos cotidianamente. Não é de estranhar que as cartas deixadas pelo assassino se assemelhe aos inúmeros comentários machistas da Internet. Sidnei cometeu esse crime porque se viu legitimado a cometê-lo. E isso por conta da ideologia machista propagado e perpetuado no dia-a-dia, das piadinhas aos comentários que atacam as mulheres das mais diversas formas.

Por trás desse crime não está apenas quem apertou o gatilho, mas o machismo que impera nessa sociedade e quem o dissemina. E as vítimas, infelizmente, não se reduzem às 13 pessoas chacinadas, mas as mulheres que morrem todos os dias e as que sofrem na pele, seja por meio de agressões, assédio, abuso, estupro, seja pelos baixos salários e a superexploração a que são submetidas.