Edu e Júlia, PSTU da SUL

Nossos irmãos, Igo Ngo e Felipe foram alvos de mais uma injustiça promovida por uma ação racista da Polícia Militar: foram presos acusados de um roubo que ocorreu na região de Pinheiros, na cidade de São Paulo, no último final de semana.

Depois de comer um yakissoba e sacar dinheiro no caixa eletrônico, os dois pegaram um ônibus para voltar à Zona Sul, e sequer passaram pela rua onde o assalto ocorreu. O ônibus em que estavam foi parado pela PM, que os prendeu alegando que suas roupas eram parecidas com a dos suspeitos. A verdade, porém, é que a PM prendeu dois jovens negros inocentes voltando para a periferia de São Paulo. Igo e Felipe são inocentes!

Casos como esses são recorrentes em todo o país, onde milhares de jovens negros são presos e mortos pela PM. A população carcerária no Brasil triplicou nas últimas duas décadas. São quase um milhão de presos, sendo que mais de 40% dos encarcerados sequer foram julgados. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a população negra presa cresceu de 58,4% em 2005 para 66,7% em 2019. Enquanto isso, no mesmo período, a população branca presa foi de 39,8% para 32,3%. O que vemos é o sistema carcerário brasileiro, um dos maiores do planeta, dar continuidade à lógica sustentada pelo capitalismo há séculos: controle social para manter a exploração.

A política de encarceramento em massa obedece a lógica racista de que preto é suspeito padrão, logo, culpado até que se prove o contrário. A polícia, como parte da instituição do Estado burguês, faz isso por atender os interesses dos ricos nesse país, que utilizam do racismo para criar uma falsa justificativa para manter constante vigilância policial contra a população negra e seus bairros.

Justiça racista

O roubo ocorreu em uma rua onde nenhum dos dois passou. A polícia, procurando por suspeitos, encontrou dois negros e realizou uma prisão ilegal, seguindo a cartilha do Governo de São Paulo, de João Doria (PSDB), que odeia preto e pobre.

No país governado por Bolsonaro, onde 79,1% das vítimas de violência policial são negras, Doria disputa com o presidente para ver quem melhor usa o capuz branco do racismo e genocídio contra a classe trabalhadora. E nessa disputa nenhum dos que governaram o país se salvam. A própria Lei Antidrogas, um dos tentáculos para o encarceramento em massa da população negra, foi defendida e aprovada no Governo Lula.

A polícia que prendeu injustamente Igo Ngo e Felipinho, é a mesma que roubou as vidas de noves jovens em Paraisópolis, assassinou Agatha, desapareceu com o Amarildo e arrastou o corpo de Cláudia. Em 2020, 500 jovens foram assassinados por essa corporação criada para matar preto e pobre. Não há como esquecer do caso do músico Luiz Carlos Justino, membro da Orquestra de Cordas da Grota de Niterói, que foi preso injustamente. O curioso é que esses “enganos” da polícia não ocorrem em bairros ricos contra os empresários de alta classe.

O silêncio da Justiça burguesa sobre esse caso não é novidade. Sabemos que a justiça em vigor é a dos ricos, feita para legitimar nossa dor e sofrimento. Muito menos confiamos no parlamento, que aprovou leis como a já citada Antidrogas, como também o Pacote Anticrime proposto por Moro e aplaudida por Freixo.

O capitalismo não tem mais nada a nos oferecer, a não ser fome, desemprego, mortes e sofrimento. E é por isso que o combate ao racismo, para ser eficiente, deve estar colado com a destruição de um sistema que trata os corpos negros como pacotes endereçados para a vala comum. Se é verdade que há mais de 500 anos o Brasil se mantém nas mãos dos mesmos, também é verdade que nos últimos cinco séculos nosso povo sempre se manteve nas trincheiras lutando contra as injustiças, a opressão e exploração.

Exigimos a imediata liberdade de Igo Ngo e Felipinho. Chamamos a todos a se somarem nessa exigência.

Acompanhe a campanha aqui

Coloque o filtro exigindo a libertação de Igo e Felipe

As periferias são incendiadas pela violência e arbitrariedade da polícia, pela fome e o desemprego. Enquanto isso, os ricos ficam mais ricos, às custas das nossas dores. A periferia, os trabalhadores, os jovens negros, todos os explorados e oprimidos precisam, por meio de sua auto-organização cobrar essa conta dos ricos e de seus governos. Fazer de sua organização conselhos populares para governar e na luta contra esse sistema racista e desigual construir a revolução e o socialismo. Liberdade aos irmãos Igo e Felipe!

Conheça um pouco da caminhada de Igo e Felipe

Igo Ngo é rapper, do grupo Resistência du Gueto, percussionista, produtor musical e cineasta na empresa 2as Marias Produções. Um jovem negro que tem dedicado sua vida e sua arte para combater o racismo, defender os povos indígenas e as famílias que não possuem moradias adequadas, através do Movimento Luta Popular.

É atualmente um dos principais dirigentes do Movimento Hip Hop Quilombo Brasil, organização nacional de Hip Hop, que possui grupos filiados de várias regiões do país. Em São Paulo, a organização filiada ao MHMQB chama-se O3 (Ouvir, Ousar, Organizar), movimento que Igo ajudou a fundar e a difundir pelas periferias.

Também é um dos organizadores da Marcha da Periferia em São Paulo, evento de cunho político-cultural que ocorre durante o mês de Novembro em referência a consciência negra e a luta antirracista. Na zona sul, ajudou também a construir o Comitê Mestre Môa do Katendê e constrói trabalhos de mobilização em diversas comunidades, como na favela do Olaria, onde faz cinema para jovens e crianças.

Igo tem uma série de clipes publicados no YouTube, o último do Resistência du Gueto pode ser assistido abaixo

Em 2020, antes da pandemia, coletou imagens e depoimentos de povos indígenas por vários países da América, em particular no Chile, que vivia um dos levantes populares mais importantes da recente história do nosso continente. Durante a pandemia, ajudou a organizar ações de solidariedade em diversas aldeias indígenas, em parceria com diversos sindicatos e com o apoio da CSP Conlutas.

Felipinho também é um ativista social e cultural, participou, pelo Luta Popular, do último Congresso Nacional da CSP-Conlutas, apoia diversas iniciativas nas comunidades onde o movimento atua e participa das produções musicais do Resistência du Gueto. É lutador de artes marciais, campeão de Muay-Thai, professor de lutas como box, e faz desse ofício um caminho para envolver jovens de sua comunidade, tendo ajudado muitos a construírem perspectivas diferentes de futuro. Ele, assim como Igo, é profundamente querido por amigos e familiares e no seu bairro.

Liberdade aos nossos irmãos!