Ruth de Souza, presente!

Elizabete Bernardo e Wagner Damasceno, da Secretaria de Negras, Negros e Indígenas de Florianópolis

Morreu nesta manhã de domingo, 28 de julho, aos 98 anos, a atriz Ruth de Souza, no Rio de Janeiro.

Ruth de Souza foi uma das maiores atrizes brasileiras. Mulher, negra, juntou-se ao Teatro Experimental do Negro fundado por Abdias do Nascimento e Agnaldo Camargo, em 1945. E tornou-se a primeira atriz negra a atuar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, palco da elite branca brasileira, com a peça O imperador Jones.

Nascida no dia 12 de maio de 1921, em Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro. Ruth vinha de uma família negra muito pobre. Seu pai era um lavrador e sua mãe lavadeira e, desde cedo, sonhava em ser atriz.

Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a protagonizar uma novela na Globo, em 1969, a novela “Cabana do Pai Tomás”. Uma novela marcada por polêmicas, como a escolha do ator branco, Sérgio Cardoso, para interpretar o pai Tomás num dos mais icônicos casos de black face na televisão brasileira. Foi marcada ainda por uma revolta de outras atrizes brancas que, inconformadas pelo protagonismo de Ruth de Souza, exigiram que seu nome aparecesse depois das principais atrizes brancas; e por um incêndio que destruiu o estúdio onde se gravava a novela, em São Paulo.

Na televisão e no cinema Ruth atuou em dezenas de novelas e filmes. E, como uma das atrizes negras pioneiras, teve sua trajetória marcada pelo racismo e machismo, que insiste em impor aos negros e negras papéis subalternos e estereotipados nas novelas e filmes.

Parte desta história ela mesma contou, juntamente com outras grandes atrizes negras, no documentário de Joel Zito Araújo, A negação do Brasil de 2000.

Este ano, Ruth de Souza foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz, da Série A do carnaval carioca com um lindo samba-enredo que traz versos como este aqui:

Divina musa, no esplendor se fez atriz
Um sorriso de uma raça não apaga a cicatriz
Voa, senhora mãe da liberdade
Em seu papel, a igualdade
De quem sentiu na pele a dor
Brilham Marias, Carolinas de Jesus
Você foi a resistência
E a resistência hoje é Santa Cruz

Ruth de Souza será velada no Teatro Municipal, nesta segunda-feira de manhã. Sua vida e obra inspiraram gerações de artistas negros e nos coloca a necessidade de lutar contra o racismo e o capitalismo.

PSTU Floripa