Romper com a UNE para derrotar Bolsonaro

Jair Bolsonaro venceu as eleições no último dia 28 de outubro e já é, hoje, presidente da república. A vitória, com margem de 10%, veio apesar de uma larga campanha pela virada de votos, vinda principalmente da juventude onde o capitão da reserva encontra seus maiores opositores. Daí vieram as reuniões e comitês contra Bolsonaro, que a Justiça Eleitoral atacou arbitrariamente no segundo turno.

A escolha por parte da classe trabalhadora brasileira no projeto de Bolsonaro deixou em parte no movimento estudantil, outrora polo de resistência à Ditadura Militar, um sentimento de desânimo e medo. Frente o que parece desesperador, é preciso em primeiro lugar entender como chegamos aqui.

A experiência da classe trabalhadora com o PT
O adversário de Bolsonaro era o petista Haddad. Muitos ativistas honestos têm questionado o PSTU sobre se seria agora, frente a Bolsonaro, o momento de criticar o PT. Com paciência explicamos que foram justamente os erros do PT que abriram espaço para que Bolsonaro crescesse.

O Partido dos Trabalhadores, antes seio da resistência dos operários do ABC, secundaristas rebelados e tantos outros ativistas sociais, degenerou-se. Lentamente os setores mais burocráticos e conciliadores, presentes desde a sua fundação, se apossaram deste partido. Tomaram conta de sua direção e seu programa. Assim, o PT se tornou um partido como qualquer outro que pensa apenas em disputar as eleições e em dirigir o Estado burguês. Por isso banqueiros e grandes empresários foram os maiores beneficiados de seus governos.

Foi o próprio Lula que, à serviço do imperialismo, enviou tropas brasileiras para reprimir o povo haitiano, causando milhares de assassinatos e estupros. Foi durante o governo Dilma que as favelas sofreram uma série de intervenções das Forças Armadas. Tampouco o PT tentou abrir os arquivos da Ditadura ou rever a Lei de Anistia, mantendo impunes os responsáveis pelas mortes e torturas de centenas de ativistas, dentre os quais estavam muitos estudantes.

A esquerda foi a parteira quando a Frente Popular dava luz à Bolsonaro
E se hoje o PT denuncia uma suposta “onda conservadora”, nada diz sobre o apoio que recebeu de partidos como o PP de Maluf e do próprio Bolsonaro, na época. Ou então de homens como Marco Feliciano e Eduardo Cunha, inimigos das mulheres e das LGBTs, que ascenderam justamente durante os governos petistas.

Não só o PT, mas também as organizações dirigidas por ele se tornaram burocráticas. A CUT se tornava cada vez mais carguista e a UNE, em episódios clássicos como o apoio ao projeto de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), tornava-se braço estudantil do Estado.

Foi inevitável a queda do governo petista quando ele mesmo assassinou suas maiores forças e quando ele mesmo descumpriu suas promessas. O justo sentimento de revolta contra a crise econômica – o desemprego, a carestia, a corrupção – expressos desde as Jornadas de Junho de 2013, só encontrou refúgio radical nos braços da direita. O PSOL e tantos outros, na contramão da luta de classes, prestaram um apoio escandaloso ao PT. Desde a adesão à tese do golpe quanto ao impeachment, até o desejo de boa noite ao ex-presidente Lula. A narrativa do golpe ecoava nos muros das universidades e dos gabinetes das diretorias sindicais burocráticas. A esquerda foi Romeu, e vendo Julieta fingir a morte, bebeu de uma só vez o frasco de veneno. Com o fracasso do suposto projeto progressista do PT, só restou uma alternativa, a vitória de Jair. Não são bandos fascistas que tomaram o poder de assalto, mas a própria classe trabalhadora que, enganada por um falsificador, deu a ele um voto de confiança. Longe de legitimar o discurso de ódio e a agenda de ataques de Bolsonaro, devemos recusar uma análise apocalíptica, que pode nos desarmar tanto quanto a sua subestimação.

A UNE e a conciliação de classes
É preciso que nos esquivemos das armadilhas petistas. Quebrar o canto da “unidade da esquerda” significa, neste momento, ter muita humildade para exigir a unidade dos trabalhadores, uma verdadeira frente única contra os ataques e a possibilidade de perseguição aos direitos políticos. Ao invés de chamar de fascista aqueles que acreditaram nas mentiras de Bolsonaro, propor taticamente uma agenda de lutas e resistência.

Isto não é o que a UNE vem propondo. Para além das traições históricas, a entidade está reduzida aos seus congressos, onde negociam com o PSOL, o PCR e o PCB, seja comprando ou agredindo. Sob a direção da burocrática UJS, a UNE segue o caminho pacífico. Estas direções inconsequentes, as primeiras a alardear o crescimento do fascismo no Brasil, são também as primeiras a rejeitar todo o método radicalizado de luta contra o suposto “fascista” e a dizer que o enfrentamento se dá nas urnas.

Em uma recente reunião convocada (após uma grande pressão do movimento estudantil), o DCE da UFRGS, dirigido por UJS e PT, deu seu recado: Bolsonaro foi eleito democraticamente, e devemos articular nossa “resistência” para 2022. Aliás, o que afirma a direção da UNE é que é preciso articular a “resistência estudantil”. Se depender da burocracia lulista e stalinista, o movimento operário estará sozinho na luta dura contra Bolsonaro.

Para essas direções burocráticas, herdeiras dos métodos stalinistas, pouco importa que os trabalhadores possam deixar de apoiar um governo que se propõe a revogar direitos históricos que foram conquistados com muita luta. De um lado, demonstram o seu sectarismo agudo ao tratar as críticas ao PT como “fascismo”. Do outro, de maneira oportunista, se recusam a lutar contra essa ameaça que eles mesmo apontam. Para eles, não é possível passar por cima da sagrada democracia, a democracia dos ricos.

A ANEL e o classismo revolucionário
Não cair nas armadilhas nem do oportunismo, nem do sectarismo é dizer que respeitamos a posição dos trabalhadores que estão esgotados do petismo. Mas é dizer também que Bolsonaro reproduzirá a mesma lógica corrupta e entreguista. É preciso preparar uma verdadeira rebelião nesse país, com mote de uma greve geral.

Para o movimento estudantil, significa um retorno imediato às bases e aos trabalhadores, e apresentar uma proposta de luta pelo direito à aposentadoria e ao 13º salário, além da gratuidade do ensino superior público. Contra os ataques ao PIBID e pela revogação a reforma trabalhista. Mais do que tudo, iniciar um profundo processo de ruptura com os inimigos disfarçados de aliados, agora também no movimento estudantil, e reconstruir uma direção classista e verdadeiramente anticapitalista.

O PSTU, na contracorrente das organizações da classe trabalhadora, persiste no chamado à ruptura com UNE e a construção de uma entidade estudantil classista e que se faça presente cotidianamente das lutas e nas ruas, e não somente nos períodos congressuais. Esta entidade hoje, mesmo que muito debilitada, é a ANEL, que segue jogando forças na construção da CSP-Conlutas e em um método antiburocrático do sindicalismo e do movimento popular.

O movimento de massas precisa de um partido revolucionário
O movimento estudantil não está sozinho na luta pela reconstrução de uma direção revolucionária. Ao seu lado estão as mulheres, LGBTs e negros e negras, que se viram traídos pela Frente Popular e agora se sentem ameaçados pela ultra-direita.

Todos estes movimentos, que abarcam vários setores da sociedade, foram até agora reféns de direções reformistas e conciliadoras, ou seja, que apostam na possibilidade de consertar e desenvolver o capitalismo através da colaboração entre os trabalhadores e a burguesia. Por isso a UNE se encontra tão fragilizada. Quando o projeto de sua direção política fracassou, se abriu o espaço para o surgimento de novas direções. Não surpreende a iniciativa do MBL em lançar o seu “próprio movimento estudantil”, para acalmar os setores pequeno-burgueses e mesmo burgueses mais conservadores do movimento estudantil.

Por isso segue o chamado da Juventude do PSTU a derrotar Bolsonaro através de comitês de luta, inclusive defendendo o direito à autodefesa da classe trabalhadora e da juventude. Construir uma frente única para evitar o cerceamento das liberdades democráticas do movimento estudantil e operário e a retirada de direitos.

Só a partir da consolidação de um partido revolucionário é que o movimento estudantil terá uma direção à altura das lutas que virão, que seja capaz de organizar a democracia operária até a revolução socialista, tão temida por nossos novos inimigos.