A greve dos operários da General Motors em São José dos Campos (SP) durou sete dias e pôs em xeque a política econômica do governo Lula. Reproduzimos abaixo a reportagem publicada no jornal Financial Times.

Para saber mais sobre a greve, leia a matéria do Opinião Socialista 149:
Greve da GM colocou em xeque a política econômica


Greve de trabalhadores da indústria automobilística foi sinal de alerta para Lula

Jonathan Wheatley e Jeremy Grant
do Financial Times

Quando dez mil trabalhadores da unidade brasileira de fabricação de veículos da General Motors, retornaram ao trabalho na semana passada, o alívio da tensão em meio aos executivos da indústria era quase audível. “Estamos convencidos de que a greve foi política“, afirma Ricardo Carvalho, presidente da Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos brasileiros, e diretor da Volkswagen.

Assim como a fábrica da General Motors, próxima a São Paulo, a greve atingiu também as instalações da Renault e da Volvo, no Sul do Brasil, e a nova fábrica da Ford na Bahia, no Nordeste do país.

Os sindicatos insistem em dizer que a greve foi de natureza econômica. Os trabalhadores no Sul exigiram – e a maioria conseguiu – uma compensação pela inflação de 14,6% desde o seu último reajuste salarial, em setembro do ano passado.

Mas a greve também evidenciou tensões que poderiam vir a representar problemas para o setor e para o novo governo de esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente é um ex-metalúrgico e fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a organização à qual é filiada a maioria dos sindicatos das montadoras de veículos.

“Lula foi eleito com a promessa de mudança e isso não ocorreu“, afirma Luiz Carlos Prates, líder da greve da General Motors. “Queremos proteção contra a inflação mas o governo é contrário a isso. Ele está se colocando acima dos trabalhadores.“

As relações trabalhistas na indústria automobilística melhoraram desde as décadas de 80 e 90, que foram marcadas por greves. Mas a demanda dos sindicatos por aumentos de salários automáticos que reponham as perdas sofridas com a inflação são um alerta para o governo, determinado a evitar a indexação automática de salários que alimentou a inflação no passado.

Desde 1995, quando a inflação ficou sob controle e a economia crescia a uma taxa de 4% ao ano, as montadoras de veículos investiram quase US$ 30 bilhões no Brasil, construindo no país algumas das fábricas mais avançadas do mundo. O país possui atualmente 51 fábricas que produzem 25 marcas de veículos. Mas a esperança de que o Brasil e os seus vizinhos viessem a se transformar no próximo mercado de impacto foi frustrada por uma série de crises e desvalorizações da moeda.

O crescimento econômico está estacionado em uma média anual de 1,6% desde 1997. No mesmo período, as vendas de veículos diminuíram em quase 25%. A capacidade média de utilização da indústria chegou a cair para um patamar de 56%. E há pouca indicação de que tais vendas aumentarão em curto prazo.

Jaime Ardila, diretor financeiro da General Motors para a América Latina, África e Oriente Médio, admite ser improvável que haja crescimento significativo nos próximos dois anos, mas afirma que o mercado também não deve encolher. “Há bastante demanda reprimida no Brasil. Neste momento estamos menos otimistas do que estávamos em meados dos anos 90, mas o mercado poderia atingir as duas milhões de unidades dentro de cinco anos.“

Nesse ínterim, os fabricantes estão sendo forçados a buscar outros mercados. O Brasil vai exportar veículos para mais de 80 países neste ano, a maioria para o México, Estados Unidos e para o resto da América do Sul. Os ganhos advindos da exportação devem chegar aos US$ 4,8 bilhões neste ano, contra os US$ 4 bilhões do ano passado. A Ford vai utilizar a sua nova fábrica para a exportação. Segundo a Ford, “A fábrica na Bahia foi elaborada para equilibrar a volatilidade na economia doméstica, mas trata-se também de uma fonte de exportação de baixo custo“.

A Ford está avaliando o lançamento de um novo veículo popular compacto para a Europa, Ásia e América do Sul, que poderia ser produzido simultaneamente em todas as três regiões. Poucos fabricantes investiriam no Brasil para exportar para áreas além da região adjacente ao país. Os custos de mão-de-obra são mais altos no país do que na Ásia.

No entanto, graças aos altos investimentos, a indústria automobilística brasileira é considerada eficiente segundo os padrões internacionais. E ela agora está aprendendo novas estratégias para a promoção de exportações. Enquanto os acordos de comércio multilateral, como a proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) continuam estagnados, a indústria automotiva tem se esforçado para promover acordos bilaterais. Um acordo firmado com o México vai permitir o livre comércio de veículos entre os dois países a partir de 2006. O Brasil possui parceria similar com o Chile.

Tais acordos e as negociações em andamento com parceiros em potencial,incluindo a África do Sul, a União Européia e a China, têm sido promovidos por delegações de indústrias.

As exportações provavelmente vão responder por 25% da produção de automóveis brasileira neste ano, em relação aos 20% registrados no ano passado. Mas o que os fabricantes de automóveis realmente desejam é uma recuperação do mercado interno. Para que isso aconteça, Lula terá que promover rapidamente o crescimento econômico – e manter os sindicatos satisfeitos.

Tradução: Danilo Fonseca

Para saber mais sobre a greve, leia a matéria do Opinião Socialista 149:
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