Ernesto González: `Que seja um primeiro passo para o reagrupamento do morenismo´

Ernesto González começou a militar com Moreno em 1953, quando este levou o trotskismo argentino para junto dos trabalhadores, rompendo definitivamente com o chamado ‘trotskismo de cafés”, distante dos trabalhadores e com discussões intermináveis. Nessa entrevista ao Portal do PSTU, o companheiro González relata essa experiência e também fala de seu trabalho de recuperação da historia do trotskismo operário argentino.

Como foi seus primeiros anos de convivência com Moreno?
Ernesto González – Foi o início de minha vida dentro do movimento operário. Porque Hugo tomou a iniciativa dentro do trotskismo de levá-lo ao movimento operário. Na época dizíamos que o trotskismo argentino era dos cafés. Havia o Café Totoni – que existe até hoje na avenida de maio (em Buenos Aires) – em cada umas das mesas havia grupos distintos de trotskistas e do pessoal de esquerda, etc.

Moreno viu que o trotskismo tinha problemas de classe e fomos então para o movimento operário. Ele decidiu então a viver em Populadora (bairro pobre de Buenos Aires), ir as fábricas etc. Isso foi no ano 1942 e 43.

Em 1952, essa iniciativa já tinha se concretizado de forma fabulosa. Quando eu entrei no partido a primeira coisa que perguntei foi: em que fábrica entro? Fiquei em uma fábrica da carne que era muito importante e havia participado dos esforços de abastecimento da Segunda Guerra Mundial. Eu entrei no frigorífico. Primeiro em La Blanca, um frigorífico que eu comparo ao matadouro de Cheverria. Depois eu entrei no frigorífico Anglo em 1955.

Houve uma greve nesse frigorífico não?
González – Sim. Houve várias greves nos anos 1945 e 46. Quando eu entrei havia uma grande mobilização, mas houve um retrocesso logo depois. Os grandes frigoríficos foram liquidados. Um dia levei minha filha para conhecer o lugar onde seu pai havia trabalhado e não existia mais nada. Existe ainda a industria da carne, mas não é mais aquela potência daqueles anos de 44 e 45. Foi no setor da carne que se fortaleceu o primeiro grupo inicial (o GOM – Grupo Obrero Marxista).

Esses foram os anos mais felizes de minha vida. Porque conhecemos de verdade um movimento operários dos mais explorado e assim eu e todos os quadros daquela época se desenvolveram politicamente ligados ao movimento operário industrial. Essa foi a minha grande experiência e que está ligada aos primeiros anos do desenvolvimento do verdadeiro trotskismo operário e internacionalista na Argentina.

O que foi marcante na convivência com Moreno?
González – A vida está cheia de fatos extraordinários. Isso foi o primeiro. Todos os outros grupos trotskistas, como o Partido Obrero, de Altamira, copiaram nossa experiência de ir ao Movimento Operário, com os quadros que ganhávamos no movimento estudantil.

Esse é o principal fato e fundamental da história de Moreno. O segundo problema que me causou impacto era como Moreno alentava a todos companheiros para construir uma direção para o movimento operário. Ele explicava que é fundamental trabalhar em equipe e realizar a discussão com a base para começar a instrumentar políticas para o conjunto do movimento operário. Acredito que é isso que foi fundamental e decisivo para nossa vida. Mas desgraçadamente a vida tem seus choques, não há somente pretensões subjetivas de queres se converter num dirigente…

Como o senhor está se sentindo nesse ato?
González – Eu vou fazer uma intervenção reivindicando essa trajetória de Moreno. Foi o meu discurso de despedida quando faleceu Hugo. Este ato eu considero, em primeiro lugar, uma oportunidade para me autocriticar. Eu como velho dirigente, não soube responder o grande problema levantado por Moreno. De como consolidar a fundo a direção. Eu assumo minhas responsabilidades nesses 20 de não ter ajudado a instrumentalizar uma política de recuperação de integração todos os que reivindicam da corrente morenista. Creio que este ato, mesmo que seja minoritário porque somos trotskistas, possa ser um ponta-pé inicial do reagrupamento de todas as correntes morenistas que desgraçadamente se dispersaram pelos fatores objetivos e subjetivos. Veremos se essa minha previsão poderá ser cumprida no futuro. Na minha opinião, há uma via aberta nessa perspectiva. Que seja um primeiro passo para o reagrupamento do morenismo, sob uma firme base programática e ligada como sempre ao movimento operário e a formação de uma direção em consulta permanente a base e aos trabalhadores.

Fale da importância desse trabalho de recuperar a história do trotskismo na Argentina.
González – É decisivo para mim. A crise da burguesia, a crise do imperialismo e da burocracia e dos aparatos contra revolucionários se agudizaram. E também a crise do trotskismo. No momento, recuperar todos os elementos que foram importantes para nosso desenvolvimento histórico é muito importante para ver se conseguimos formar uma organização que não repita velhas formulas, mas que responda as disjuntiva atuais.

Os exemplos daqui, os jovens que vieram pra cá estão buscando uma saída. Estou impressionado pela quantidade de jovens que estão aqui. É porque buscam uma saída. Essa saída só pode oferecer o trotskismo, um trotskismo vibrante, seguro do que tem de fazer e não brigando por besteiras ou coisas secundárias. Mas sim por um programa de verdade que responda essa necessidade que tem a juventude. Se não conquistarmos isso, a humanidade vai ter uma perspectiva bastante obscura.