Wagner Miquéias F. Damasceno, da Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU

Assisti neste final de semana o filme “Amarelo, é tudo pra ontem” do rapper Emicida, na Netflix.

É um filme muito bem feito. Dá pra notar, por exemplo, o grande esmero na pesquisa histórica da música, e das personalidades negras evocadas.

O filme preenche um pouquinho da grande lacuna que há na produção audiovisual brasileira no que se refere a filmes sobre a história dos negros no Brasil. Sim, o cinema brasileiro tem uma dívida histórica conosco.

Não à toa, “Amarelo” mexe com muitos de nós, negros.

Mas, o filme também é um manifesto político do Emicida. Só que um manifesto de conciliação de classes. Por que digo isso?!

Emicida evoca a história de muitos negros e negras do passado dando a impressão de que ele é uma espécie de culminação de todos eles e de suas lutas.

Não por acaso, gasta mais de 40 minutos, do total de 1h e 29 minutos de filme, pra tentar justificar o direito dele fazer um show no palco da elite paulistana: o Teatro Municipal de São Paulo!

Emicida faz algo que me incomoda muito. Propositalmente, ele não faz distinção alguma entre os negros que evoca, como se todos os negros e negras fossem iguais. E não são.

Numa sociedade dividida em classes sociais não existe o negro “em abstrato”.

Não por acaso ele escolheu a dedo os negros para se referenciar…

Emicida fala do conciliador Nelson Mandela, mas não fala de Steve Biko, torturado e morto pelo Apartheid.

Emicida fala de Leci Brandão do traidor PCdoB, mas não fala de Dandara dos Palmares, guerreira, estrategista e símbolo da rebelião negra brasileira e da independência de classe e raça.

Emicida abre o filme com uma imagem de Lula e exalta o Movimento Negro Unificado (MNU), mas não fala da Ocupação Militar no Haiti, liderada pelos governos petistas apoiados pelo MNU. Uma ocupação militar criminosa que matou milhares de irmãos e irmãs negras no Caribe!

Emicida fala de Wilson Simonal, mas não fala de João Cândido, o Almirante Negro que liderou a Revolta da Chibata!

Emicida fala de Luiz Gama, mas não fala de Zumbi! Líder máximo do maior organismo de resistência da América Latina colonial: o Quilombo dos Palmares!!!!

Em suma, Emicida não evoca a memória de nenhum negro revolucionário ou que liderou alguma Rebelião Negra.

É compreensível: como ele defenderia o empreendedorismo negro evocando a memória de negros revolucionários?!

A mensagem política de Emicida é sutil, mas clara o bastante para a classe dominante brasileira entendê-la.

Não à toa, ela concede a Emicida um espaço e uma visibilidade que nenhum rapper negro jamais teve no país. Concede a Emicida um espaço que jamais concedeu, por exemplo, aos Racionais MCs, nos anos 1990.

Afinal, a classe dominante não é tola. Ela sabe quem são os negros que querem queimar a Casa Grande e quem são os negros que só querem um assento à sua mesa.

A classe dominante sabe, também, que diante do ascenso da luta contra o racismo no país, precisa de negros letrados que queiram dialogar e acalmar o ódio dos negros plebeus.

Por isso, ao contrário do Emicida, eu digo que é tudo pra hoje!

A tarefa que nós negros temos é de nos organizarmos hoje pra construir um Quilombo Socialista amanhã.

O ontem serve para aprendermos a identificar e distinguir os negros lutadores, dos conciliadores.