Basta de racismo! Não às punições pós-escravidão que escravizam nosso povo

Guilherme Zé, militante do Rebeldia e do Quilombo Raça e Classe/RN, de Natal

O ano de 2019 tem sido marcado pela violência contra mulheres, negros e LGTBs. Não precisamos ter uma boa memória para lembrar o caso do jovem Pedro Gonzaga, assassinado pelo segurança do hipermercado Extra no Rio de Janeiro. Recentemente, houve a agressão contra uma militante trans do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, que foi sequestrada e torturada por apoiadores de Bolsonaro, inclusive com ameaças de morte. Agora, um jovem negro de 17 anos e em situação de rua foi torturado a base de chicotadas, durante 40 minutos, por dois seguranças de um supermercado no extremo sul de São Paulo.

Não foi a primeira vez que este jovem foi agredido neste mesmo estabelecimento e pelos mesmos seguranças. Houve mais duas agressões anteriormente. O adolescente relatou que foi levado para um quarto no estabelecimento e foi lá onde aconteceram as agressões. Mesmo sendo autores das agressões anteriores, somente agora os seguranças foram afastados pelo supermercado. No vídeo que os agressores fizeram questão de veicular nas mídias sociais, dá para ver a forma como eles agrediram o adolescente. A cena revoltante remonta ao período da escravidão.

Este caso levanta vários questionamentos acerca da violência racista, principalmente contra jovens negros nas periferias do Brasil, país que tem mais negros fora do continente africano. Não foi apenas este caso que retratou formas de tortura aplicadas contra a população negra. Outros exemplos são os métodos violentos promovidos pelo Estado através de instituições de segurança (polícias e guardas municipais) nas periferias das cidades, nos grandes centros comerciais, principalmente contra a população em situação de rua.

Práticas como esta serão cada vez mais constantes no governo Bolsonaro. O pacote anticrime do ministro Sérgio Moro dá carta branca para aumentar ainda mais a violência por parte do Estado. O projeto de liberação de armas que o governo propõe só contribuirá para o aumento da violência contra a juventude negra e pobre, pois é contra esses que é dirigido o discurso de ódio e o estereótipo do perfil criminal.

Devemos exigir que o estabelecimento, a empresa de segurança privada e os agressores sejam responsabilizados e devidamente punidos pelo caso em questão e pelos outros casos de agressões promovidos por eles.

Juventude sem futuro: direitos negados ao nosso povo
Historicamente, nossos direitos têm sido negados. Desde o crime histórico de sequestro de nossos ancestrais, tirados a força de nossa mãe África, temos direitos básico negados, como saúde, educação, segurança, moradia, transporte etc. Estes direitos garantidos por lei nos são tirados e quando lutamos por eles as mesmas leis funcionam para nos punir. Desde os governos do PT, há uma crescente em relação ao genocídio da juventude negra e pobre. Como se não bastasse isso, a falta de investimentos em educação e os cortes de verbas destinadas a esta pasta colocam jovens negros em um beco sem saída, causando o sucateamento das escolas e instituições de ensino superior.

Nossa juventude está no topo dos índices de desemprego, restando o trabalho informal e precarizado. Muitos acabam indo para o crime organizado, encontrando apenas neste um meio de “sobrevivência”. Como se não bastasse a falta de emprego, agora está em jogo o direito à aposentadoria. Esta mesma juventude que tem que trabalhar 50 anos para se aposentar, tem “prazo de validade” no capitalismo, tendo como expectativa de vida os 30 anos de idade. Como bem expressa a música do grupo de Rap maranhense Gíria Vermelha: “Vocês me tiraram o feijão com arroz, vocês me deram uma arma depois”. Estas são as condições que o capitalismo dá para a juventude.

131 anos de abolição: Da escravidão bárbara à moderna
Recentemente, o presidente da República, Jair Bolsonaro, fez declarações nas quais defendia o trabalho infantil. O questionamento que devemos fazer é: onde devem estar as crianças e adolescentes? Quais condições de trabalho estão colocadas para a informalidade? O presidente também declarou que não há como garantir emprego e direitos, temos que escolher entre e outro. Pois bem, sabemos que no período da escravidão os negros que foram sequestrados para serem escravizados tinham “emprego”, porém nenhum direito garantido.

O que o governo quer é retomar modos de trabalho nos quais direitos sejam negados. Mas estes métodos estão cada vez mais extremos se formos analisar em relação à atualidade. Violência, tortura, chicotadas e morte. Estas práticas ainda existentes nos dias de hoje nos fazem questionar qual a abolição que se comemora no dia 31 de maio, tendo em vista que as coisas estão se repetindo, não nas proporções do crime histórico contra os povos africanos, mas tais práticas são absurdas e devem ser punidas.

Como acabar com o racismo?
Nossa luta contra o racismo e todo tipo de opressão e exploração é constante. O capitalismo teve sangue negro derramado para chegar aonde chegou. Malcolm X já dizia que não existe capitalismo sem racismo. O racismo divide a nossa classe e fortalece os patrões. A luta contra o racismo não tem como ser separada da luta anticapitalista. Chega a ser contraditório pensar em fazer esta luta separada uma da outra. Devemos nos organizar nos locais de moradia, trabalho, estudo, seja onde for, para acabar com este sistema que só oprime a nossa classe. Somos milhões de trabalhadores e jovens explorados e oprimidos diariamente. Apenas organizando os de baixo para derrubar os de cima através de uma revolução socialista é que teremos nossos direitos garantidos.