“As ‘forças de paz´ são forças da paz dos cemitérios”

Em visita ao Brasil, Didier Dominique, professor e sindicalista haitiano do Movimento Batay Ouvriye (Batalha Operária), esteve no Rio de Janeiro no último dia 8. Didier visitou o país junto com Rachel Beauvoir Dominique, antropóloga e professora da Universidade do Haiti. Ambos participaram de uma série de eventos organizados pela Rede Jubileu Sul, como parte da Campanha Internacional de Solidariedade ao Haiti, lançada em 2006. A visita dos companheiros haitianos ocorreu no mesmo período que Bush esteve em São Paulo, o que serviu para reforçar a denúncia da ocupação do Haiti pelas tropas da ONU. A luta do povo haitiano contra a ocupação ecoou nos protestos contra a presença de Bush no Brasil, onde ativistas entoaram o “Fora Bush do Iraque! Fora Lula do Haiti!”Leia abaixo a entrevista que Didier concedeu ao Opinião Socialista . No Portal do PSTU o leitor poderá conferir também a entrevista com Rachel Dominique.

Opinião Socialista – Qual a situação do Haiti após quase três anos de ocupação pelas Tropas da ONU?

Didier Dominique – A situação do Haiti militar é caótica, pior do que antes devido aos massacres, à desilusão e às mentiras. Na realidade, as Forças da ONU, precisamente do Brasil, mas também da Argentina, Uruguai e todos os demais países, estão apoiando a implementação de um projeto burguês e imperialista planejado há tempos. Desde os anos 80, o Plano Reagan previa que o Caribe devia ser uma zona de mão-de-obra barata e se iniciou uma destruição das economias locais.

Naquela época, o Haiti também exportava muito açúcar, hoje importa 100% do açúcar que consome. Assim, pouco a pouco foi sendo encaminhado por todos os governos que passaram, seja militar ou eleito, esse plano, até chegar à situação atual, onde nosso país possui a mão-de-obra mais barata das américas e uma das mais baratas do mundo. As indústrias têxteis vêm se aproveitando desta situação. Os salários são miseráveis e os operários já não comem ao meio-dia, pois não dá para comida.

Os norte-americanos recentemente declararam que vão dominar o mundo. Isso é muito importante porque atinge a todos nós, seja abertamente como foi no caso do Iraque, ou disfarçadamente, como estão fazendo no Haiti.

O capitalismo chegou em seu momento mais odioso, que nunca existiu na humanidade. Porém, este momento coincide com um refluxo significativo das esquerdas, não somente em sua dispersão, não somente em sua debilidade global e estrutural, mas também por sua participação sem críticas profundas, sem objetivos maiores, ou seja, como um fim muitas vezes na tão chamada “democracia”.

Como o povo vê a Minustah e a participação das tropas brasileiras na ocupação?

Didier – Devido à grande decomposição da economia do Haiti, inicialmente, as forças da ONU davam a impressão de que queriam ajudar, mas pouco a pouco o povo está se dando conta da realidade, porque sofre a dominação e a repressão e está rechaçando cada vez mais agora esta ocupação, que serve para proteger os interesses da burguesia e das multinacionais.

Para manter essa situação de miséria há uma repressão anti-sindical muito forte e sobre o povo de conjunto. Bandos armados ou forças da ONU são a mesma coisa: impossibilidade de organização e protestos. Esta situação é insuportável já que o povo que deseja se mobilizar para defender seus interesses está agora sistematicamente reprimido. Então, a situação está pior, mas por outro lado está mais clara porque antes havia uma confusão.

Está mais claro que na verdade as “forças de paz” são forças da “paz dos cemitérios”, da “paz burguesa”, da “paz imperialista”. Há uma situação contraditória em relação às Forças Armadas brasileiras, já que é um “país irmão” e está fazendo este trabalho sujo, principalmente com um governante que foi operário.

Há uma palavra de ordem, que expressa bem hoje o sentimento em relação às forças brasileiras: “Viva Adriano, Abaixo Ribeiro!”. Os haitianos são aficcionados pelo futebol brasileiro e seus craques, como Adriano, e sempre saem às ruas para comemorar suas vitórias, como a do Internacional no Mundial de Clubes. Ribeiro é o general brasileiro, Heleno Ribeiro, comandante da Minustah.

De que forma os trabalhadores brasileiros podem ajudar a luta do povo haitiano?

Didier – Os trabalhadores brasileiros não têm que nos ajudar, têm que se unir ao povo haitiano, o que é outra coisa. É uma luta comum, porque o mesmo capital internacional que está no Brasil, como no caso do etanol, por exemplo, que Bush vem negociar aqui.

Os operários e camponeses brasileiros são irmãos e juntos com os operários e camponeses do Haiti devem buscar os pontos comuns para se aproximar mais e lutar juntos contra todas as forças armadas, porque as forças armadas brasileiras que reprimem agora no Haiti, são as mesmas que reprimem no Rio de Janeiro. Dizem que enviaram os soldados pra lá para treinar, então quer dizer que amanhã terão o povo e os trabalhadores brasileiros para reprimir.

Achamos que é preciso se mobilizar aqui para denunciar esta situação, porque nós denunciamos também no Haiti. E preservar a autonomia, não acreditando na democracia e nos governantes que supostamente estão ao nosso lado. Devemos denunciar isto de forma autônoma, construindo o campo do povo, com os trabalhadores no comando central, com a direção da classe operária, oposta ao capital, para sairmos vitoriosos e ter a nossa vitória e a satisfação das nossas reivindicações sociais, econômicas e culturais.

Esta é a estratégia de Batay Ouvriye ?
Didier – É o que estamos também tratando de desenvolver e implementar no Haiti agora. A única coisa que eu sei nesta realidade global que se esta passando na esquerda agora, é que devemos retornar à autonomia da organização dos trabalhadores, fora de qualquer crença na democracia burguesa ou o que seja, para ter um pólo construído com respeito aos interesses reais dos trabalhadores, dos camponeses e, sobretudo, dos operários, não só por seus interesses, mas contra os interesses do capital.

O que é Batay Ouvriye ?
Didier – Batay Ouvriye é um movimento que abrange operários, trabalhadores em geral, camponeses, associações de bairros, estudantes, como a Conlutas. Sabemos teoricamente, e também pela experiência, que o principal responsável por toda a situação de exploração e opressão é o capital internacional industrial e financeiro. Assim nosso movimento se relaciona com todos os setores populares tendo como direção a classe operária.

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