A atualidade da hipótese estratégica marxista

Foto: Raíza Rocha


Esta semana, a corrente interna do PSOL Insurgência respondeu a uma carta de dois ex-militantes seus que ingressaram no PSTU. No texto “A estratégia revolucionária em questão”, Luisa D’Avola e Henrique Iglecio explicam que suas diferenças com a corrente dizem respeito à estratégia socialista.
 
Na polêmica com a Insurgência, há um ponto fundamental que ainda não teve o devido destaque: os companheiros e companheiras opinam que as revoluções estão descartadas por um longo período. Não é o PSTU que afirma isso, mas teóricos do SU como o falecido Daniel Bensaïd. A resultante na construção partidária é esta: não é preciso preparar desde já uma organização para a tomada do poder.
 
Essa perspectiva fundamenta a política de construção de partidos anticapitalistas amplos não simplesmente em sua composição, mas no seu programa, juntando revolucionários e reformistas honestos. Aliás, se estamos de acordo que, a despeito de todas as mudanças sofridas no capitalismo, esse sistema permanece incapaz de permitir reformas sustentáveis que favoreçam os explorados, me pergunto o significado de lutar “honestamente” por reformas. Em todo o caso, se a estratégia está morta tudo é permitido.
 
Guarda-se então a construção de uma alternativa política que leve a classe operária e setores populares a derrubar a burguesia do poder de Estado para os dias de festa em nome da unidade partidária, baseada em acordos mínimos que incluem uma vaga inserção nas lutas populares e a participação eleitoral com um peso fundamental.
 
É a própria Insurgência que afirma ser possível que a classe conquiste o poder pela via eleitoral como está formulado explicitamente na requentada “terceira hipótese estratégica”. Essa é parte fundamental do conteúdo de revolução como “a democratização radical da política no âmbito de toda a sociedade” (p. 32 de À Esquerda). Poderia se alegar que aqui cabem muitos outros conteúdos, mas os exemplos reivindicados, como Allende ou Syriza, não deixam dúvidas de sua conclusão: na impossibilidade da luta imediata pelo poder, procuremos pegar a burguesia de surpresa vencendo-a eleitoralmente. Mas a concepção leninista de partido baseia-se, antes de tudo, no programa de derrubada revolucionária da burguesia, algo que em algumas respostas a nós, convenientemente, esqueceram.
 
Reivindicar a tradição marxista revolucionária hoje está longe de ser dogmatismo. Argumentar assim é o caminho mais fácil e não ajuda a responder uma pergunta básica: se o Estado tem um caráter de classe, é possível “desbordá-lo”, superá-lo, entendendo que “grande parte da luta por direitos passa por disputar” as instituições do Estado burguês (p. 35 de À Esquerda)?
 
Os impasses das revoluções ou levantes a que assistimos no mundo a partir de 2011, para não ir mais longe, mostram que as massas “apropriam-se da política” e até podem derrubar governos. Porém, sem a destruição de instituições como as forças armadas, os esforços mais heroicos encontram um limite intransponível. Essa é uma das principais sínteses da experiência histórica a ser feitas por uma organização revolucionária.
 
Embora nem sempre coerente com seu próprio conselho, o antigo dirigente do SU Ernest Mandel, certa vez, disse que “em 99% das vezes, quando pensais que estais a criar ou a descobrir qualquer coisa de novo, o que estais na realidade a fazer é a voltar a um passado que está ainda mais distante do que o passado do marxismo”.
 
Na legítima busca do “novo”, esquecer as lições básicas do marxismo é se negar (ainda que sem sabê-lo) a levar a tão fora de moda classe trabalhadora à vitória.