Um balanço necessário: Greve dos Garis derrota Eduardo Paes e anuncia novas lutas

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Garis comemoram a vitória nas ruas do Rio
(Foto: Mídia Ninja)

A unidade da categoria e o apoio da população forçam o governo a recuar

O carnaval é um dos eventos culturais mais importantes de nosso país. Durante este curto período, milhões de trabalhadores ocupam as praças e avenidas do Brasil em busca de lazer e diversão. No entanto, para muitos trabalhadores, o carnaval é um principalmente um período de maior exploração.
 
Este é o caso dos trabalhadores da limpeza urbana. Durante os festejos momescos, os garis trabalham ainda mais duro para garantir uma cidade limpa para os foliões. Segundo alguns trabalhadores, muitos trabalham além de sua jornada sem receber nada mais por isso. O piso salarial da categoria, que era de R$ 803,00 demonstra o desprezo da prefeitura por este duro trabalho. Apesar desta realidade, a mídia e a prefeitura do Rio sempre retrataram o gari carioca como uma figura folclórica, como um símbolo do carnaval, sempre alegre e feliz por seu trabalho.
 
As lições de uma Greve vitoriosa
A greve dos garis foi o grande evento deste carnaval no Rio de Janeiro. Ao invés do gari feliz por ser explorado pintado pela mídia e pela prefeitura, o que se viu foram garis felizes por lutar, firmes em uma batalha em que tiveram de enfrentar muitos adversários.
 
A greve, iniciada no dia 1º de março, tinha como principais pautas o aumento do piso da categoria de R$ 803,00 para R$ 1.200,00 (37%) e o aumento do tíquete alimentação de R$ 12,00 para R$ 20,00. Ao final dos 8 dias de greve, a categoria arrancou um acordo que reajusta o piso para R$ 1.100,00 e o o tíquete para R$ 20,00. Uma enorme vitória diante da repressão e da intransigência do prefeito Eduardo Paes (PMDB).
 
Durante o período de greve, os trabalhadores tiveram que dobrar a direção do sindicato (SEEACMRJ), ligada à central sindical pelega CGTB. Depois de cancelar sem maiores explicações a paralisação marcada para o dia 28/02, o sindicato foi atropelado pela categoria que deflagrou a greve no dia 1º de março. Dois dias depois, o sindicato fecha um acordo com reajuste de 9% no salário e aumento do tíquete para R$16,00 junto à Companhia Municipal de Limpeza Urbana (CONLURB). Em comunicado distribuído à categoria, o sindicato dizia: “Como toda categoria testemunhou, o Sindicato não foi o responsável pela deflagração da greve”. O objetivo claro era desmontar o movimento que corria por fora de seu controle e que tinha ampla adesão da categoria.
 
Com o aval da direção do  sindicato, que deslegitimava o movimento grevista, a COMLURB anunciou no dia 4 de março a demissão arbitrária de 300 trabalhadores que estavam em greve. Intransigentes em não reconhecer o movimento grevista, Eduardo Paes e o presidente da COMLURB Vinicius Roriz classificaram os grevistas como “marginais”, “delinquentes” e de “grupos isolados que discordam do sindicato”. Com medo das represálias, uma parte da categoria passou a ir ao trabalho para bater o ponto, mas se recusava a sair às ruas para fazer a limpeza. Diante disso, Eduardo Paes mobilizou a Guarda Municipal, a polícia Militar e até empresas de segurança privadas para obrigar os garis a fazerem a limpeza das ruas.
 
A unidade da categoria e o apoio da população forçam o governo a recuar
A campanha da prefeitura para desacreditar os grevistas e a propaganda da imprensa sobre o caos da limpeza durante o carnaval do Rio não foram suficientes para desmobilizar a categoria nem para diminuir a solidariedade de trabalhadores de outras categorias com a greve.
 
Durante o carnaval, surgiram muitas paródias em apoio à greve. Nos atos, houve importante presença de trabalhadores de outras categorias e de sindicatos combativos como o SEPE e, nas redes sociais, trasbordaram de apoio à luta dos garis. O gari Renato Sorriso, símbolo do carnaval carioca, tantas vezes utilizado pela mídia como modelo de trabalhador explorado e feliz, declarou seu apoio à greve e participou das manifestações: “Sou gari mas não só pra sorrir. Estou aqui porque acima de tudo sou gari e sou trabalhador”. Um vídeo de Eduardo Paes jogando lixo no chão virou febre na internet e ajudou a desmoralizar ainda mais o prefeito. Este amplo apoio e solidariedade dos trabalhadores ajudou a fortalecer o movimento grevista e deixou claro para Paes que a batalha estava perdida.
 
 
Uma vitória que anuncia novas lutas
As imagens de Eduardo Paes anunciando o acordo no dia 8 de março mostram um prefeito derrotado, inventando desculpas para dizer porque não havia negociado com os grevistas antes.
 
A vitória da categoria deve ser compreendida como parte da ofensiva de lutas que se abriu em junho do ano passado e que derrotou governos e prefeituras, revogando o aumento da tarifa dos transportes.
 
Desde junho vemos uma maior disposição da classe trabalhadora em lutar. Há um maior apoio da população às greves, manifestações, e uma maior indignação diante da repressão e das injustiças. No ano passado, a greve dos professores do RJ colocou em xeque a política educacional de Paes e Cabral e jogou a popularidade destes governantes pra baixo. Em 2014, a luta contra o aumento dos transportes, a greve da saúde e do Comperj (que já dura mais de um mês) e, principalmente, a greve dos garis anunciam um ano de muitas lutas.
 
É preciso se apoiar no exemplo vitorioso dos garis cariocas e avançar na preparação das mobilizações de 2014. Os servidores públicos federais já preparam atividades de sua campanha salarial para a próxima semana, apontando uma forte greve nacional unificada. Além disso, o Encontro Nacional do Espaço Unidade de Ação, marcado para o dia 22 de março, vai reunir ativistas do Brasil inteiro para debater e organizar as mobilizações em nível nacional.