Trabalhadores sentem aumento no custo de vida no Pará

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É só andar pelas feiras e supermercados para ver que os alimentos estão caros, afirma Cátia
Foto: Andréa Neves


Enquanto lava a louça do café, Cátia canta sua versão de “Maneiras”, música eternizada pela voz de Zeca Pagodinho. Quando chega no trecho “pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego”, se depara com uma realidade: comprar as coisas com o suor de seu emprego está cada vez mais caro. Cátia Ribeiro tem 47 anos, é negra, mora em Vigia (município localizado no nordeste do Pará), trabalha em Belém e faz parte das 6,1 milhões de mulheres que ocupam os serviços domésticos do país. Diferente da música, Cátia não fuma, nem bebe bebidas alcoólicas. Mas tenta dividir o total de seu salário mínimo com as despesas em comida, roupas e na construção da casa em que mora.
 
Apesar das últimas pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontarem uma ligeira queda na inflação, os preços continuam castigando o bolso dos trabalhadores. Pelo menos é o que Cátia sente. “Eu não acredito nessa diminuição [da taxa da inflação]. É só andar pelas feiras e supermercados para ver que os alimentos estão caros. Quer dizer: para quem tem dinheiro, não é caro. Agora, para quem tem pouco, o jeito é economizar”.
 
Assim como ela, 40% dos trabalhadores recebem um salário mínimo, no Pará, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA). Em março deste ano, uma pesquisa realizada pelo mesmo departamento apontava que Belém está entre as dez capitais com a cesta básica mais cara do país. De acordo com o estudo, a capital paraense ocupa a 7ª posição, e o trabalhador teria de desembolsar, em média, R$298,00 para comprar os 12 itens da cesta. Esse valor equivale a espantosos 45% do salário mínimo.
 
“Isso porque eles não consideram o açaí, mas aqui ele é quase parte da cesta básica. Ou pelo menos era”, constata. Nos primeiros quatro meses do ano, o açaí teve alta acumulada em 30%, com preços variando entre R$16 e R$20, na Região Metropolitana de Belém. Cátia também reclama do preço dos peixes, um dos principais acompanhamentos do açaí na região. O pescado continua subindo, principalmente nos supermercados. Durante o primeiro trimestre, por exemplo, a “dourada” sofreu reajuste de 6,98% e 12,23%, quando comercializada inteira e em postas respectivamente.
 
O aumento do custo de vida não é percebido somente na mesa do trabalhador. A diminuição das chuvas e a seca no eixo sul-sudeste já ameaçam as tarifas de energia. A previsão mais provável é que o bolso dos trabalhadores sofra pancadas no próximo período. Pelo menos por enquanto, Cátia afirma que não tem com o que se preocupar. “A minha geladeira pifou, meu botijão de gás acabou e eu passo o dia inteiro fora de casa. Quando chego, mal assisto ao jornal e à novela e durmo para levantar cedo no outro dia”. Quando questionada sobre o conserto, responde de forma natural: “Vou fazer o que sempre faço: pagar uma conta aqui, fazer outra ali, emprestar acolá…”.
 
“Na vida, a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia…”
Ainda que esteja longe de estar de barriga cheia, Cátia sabe que a saída não é chorar. E os trabalhadores em todo o país também parecem saber disso. Enquanto o governo Dilma (PT) prioriza o setor do agronegócio (com incentivos e isenções fiscais), a agricultura familiar – que poderia servir para combater a inflação – padece com a falta de investimentos.
 
Se a aposta dos trabalhadores para conseguir melhores salários e condições de vida digna têm sido a mobilização, para combater a alta dos preços dos alimentos a saída não pode ser diferente. As greves radicalizadas, os fechamentos de ruas e os atos que acontecem provam o quanto é grande o descontentamento dos trabalhadores com os governos que engordam as contas dos empresários, ao mesmo tempo em que relegam migalhas ao povo brasileiro e mostram que o caminho é a luta.