Star Wars: Uma nova geração com a força

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O lançamento do novo Star Wars (O Despertar da Força) foi um sucesso estrondoso. Depois da espera entusiasmada de alguns e do ceticismo de outros, a série conseguiu agradar tanto novos fãs, principalmente da geração atual, quanto aficionados de longa data.

Com três trilogias, cada uma lançada em uma geração, com grandes momentos em seus filmes individuais, a série traz, em si, construções narrativas e simbologias que dizem respeito a valores e concepções elementares da sociedade mundial contemporânea. Soma-se a isso um enredo com conflitos que permanecem dialogando com a atualidade, e tem-se uma franquia que atravessa décadas e agregando grandes comunidades de fãs.

O conflito entre o bem e o mal, as provações pelo qual os heróis tem que passar para não sucumbir aos seus impulsos mais agressivos e desejos mais egoístas e a ação da individualidade como fator decisivo no desenrolar dos acontecimentos são elementos da tradição ocidental, hoje globalizados, que dão a tônica para os acontecimentos da saga.

Em todos os filmes, esse conflito tem como contexto a luta de forças republicanas contra regimes ditatoriais ou a ameaça de forças totalitárias que pretendem tomar o poder para si em um universo geopolítico intergaláctico. Na nova trilogia, essas forças são encarnadas pela chamada Primeira Ordem.

Mas esse apelo das “forças democráticas” da República contra um inimigo que representava um império ditatorial trazido pela série não foi algo jogado ao acaso. Mas, iniciada no final dos anos 1970, coincide justamente com a chamada “reação democrática” imposto pelo imperialismo norte-americano após a derrota do Vietnã. Significava substituir sua tática de intervenções militares pela dominação através de regimes burgueses dito democráticos. Daí o apelo à “democracia” contra as “forças ditatoriais” e obscuras, que também eram associados à já decadente URSS e aos países do Leste Europeu.

Mas não é isso que explica a grandeza de Star Wars. Seu universo narrativo é repleto de mistérios e surpresas. Quem vivenciou o lançamento do segundo filme, “O Império Contra-ataca”, certamente ficou chocado com a revelação de que o pai de Luke Skywalker não havia morrido, como havia sido dito por seu mestre, Obi-Wan, mas era nada mais do que o grande vilão da série, Darth Vader.

Com um universo cheio de planetas e povos desconhecidos, não explicados nos filmes, Star Wars despertou a imaginação de seus fãs que, através de crônicas, livros, jogos de RPG e outros tipos de produção própria, criaram uma continuação para a saga, o chamado Universo Expandido que, muitas vezes, foi considerado oficial. Vários elementos da segunda trilogia, como a ordem dos Sith, foram concebidos no Universo Expandido.

E então, a força ressurge…
Muitos consideravam que Star Wars seria a narrativa sobre Anakin Skywalker, que se torna, mais tarde, o vilão Darth Vader. Portanto, com a trilogia que mostra o fim do império e a morte de Vader e a segunda trilogia, que mostra a sua infância e como se corrompeu, tornando-se um cavaleiro maligno, o enredo estaria completo.

No entanto, com a compra dos direitos da série pela Disney, surgiu o anúncio de que uma nova trilogia seria produzida. Justificadamente, os fãs ficaram apreensivos, pois a Disney é conhecida por fabricar filmes que banalizam e distorcem contos e histórias clássicas tornando-os enlatados comerciais.

Porém, por diversas pressões de movimentos, a Disney não pode agir da maneira que quis e, foi obrigada a inserir elementos do agrado de segmentos importantes do público. Aficionados de longa data, pertencentes a comunidades nerds de fãs, foram responsáveis por fazer os produtores terem um rigor para que a nova saga não se chocasse nem com as trilogias antigas nem com o universo expandido.

Surgiu com força, além disso, a necessidade de se pensar a construção dos personagens de maneira a romper com o estereótipo discriminatório do protagonismo branco e masculino. No final dos 70 podia-se, com mais conforto, produzir um filme centrado no sujeito branco, com preponderância do masculino. Hoje, graças ao esforço dos movimentos negro e feminista, torna-se uma demanda sensível ao público em geral romper com essa lógica.

Apesar dos protestos de grupos racistas, o personagem Finn foi um tremendo sucesso. Trata-se de um soldado das unidades Stormtrooper que, apesar do severo treinamento militar e da lavagem cerebral, não aceita as ordens do exército totalitário e rompe com a Primeira Ordem. Finn é o personagem mais querido entre os jovens.

A outra personagem que surge para dar um novo rumo à saga é Rey, uma misteriosa habitante de um planeta desértico que, em meio aos conflitos, acaba se juntando a Finn e ao grupo rebelde. A força se manifesta de maneira extremamente intensa em Rey, talvez até, mais fortemente do que no herói da trilogia mais antiga, Luke Skywalker, já que Rey aprendeu a utilizar poderes da força (leitura da mente) e a manejar um sabre de luz muito rapidamente.

Os próximos momentos do enredo deixam alguns intrigantes mistérios no ar para serem resolvidos. Em primeiro, quem é Rey? De onde veio? Quem sãos seus pais? Não menos enigmática é a figura do Líder Supremo Snoke, que comanda a Primeira Ordem e possui domínio sobre a força. Se todos os jedis do lado sombrio foram mortos, de onde surge essa nova ameaça?

Seja o rumo que tomar a trama, a força está com Finn e Rey e ambos merecem um treinamento jedi para se sagrarem heróis nessa nova etapa do universo de Star Wars.