Sou pró-Palestina, não fecho com Freixo

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Soraya Misleh

No dia 12 de setembro, o candidato a prefeito do Rio Marcelo Freixo (PSOL) participou de um encontro na Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj). Na entrevista, Freixo fez o mesmo que seu companheiro de partido, Jean Wyllys: prestou um enorme desserviço à causa palestina.

Assim como Jean Wyllys, Freixo se posiciona na contramão do movimento por boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, principal campanha de solidariedade ao povo palestino, justificando-se pela defesa de “dois Estados para dois povos”. Afirma, categoricamente, ser favorável a acordos e parcerias com Israel – durante a campanha, já havia se posicionado a favor das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas, ao afirmar em entrevista que seriam “uma conquista”. UPPs que contam com treinamento e tecnologia israelenses para criminalizar a pobreza, reprimir e supostamente pacificar para conter revolta contra o apartheid social.
 
O candidato do PSOL à Prefeitura do Rio fala em fortalecer a esquerda judaica que defende o mesmo que ele e coloca-se contra o antissemitismo. Assim, desinforma, ao criar uma similaridade entre judaísmo e sionismo, exatamente o que faz o Estado racista de Israel para justificar seus crimes e sua existência, desde sempre (confira o artigo “Sionismo e limpeza étnica na Palestina”). Enfatiza, ainda, que é preciso separar governo de país, como se a ocupação de terras palestinas fosse devido a uma direita no poder de Israel e não o que é: resultado de um projeto que iniciou ao final do século 19.
 
A “esquerda” sionista não só arquitetou a limpeza étnica do povo palestino em 1948, a nakba (catástrofe), mas também a executou durante a maior parte da criação do Estado de Israel. Dizer que é preciso fortalecer essa “esquerda” e, por essa razão, se posicionar pelo diálogo e contra o boicote a Israel é ser cúmplice da colonização, ocupação e apartheid israelense. O discurso de ser favorável a “dois Estados para dois povos” não isenta Freixo dessa cumplicidade. Hoje essa defesa vem perdendo espaço não só por sua injustiça histórica, mas também pela demonstração de sua total inviabilidade após o fracasso dos malfadados acordos de Oslo, assinados entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel em 1993, e pelo avanço da colonização. Dois Estados para dois povos é injusto desde sempre e não resolveria questões cruciais como o retorno dos milhares de refugiados palestinos às terras de onde foram e continuam a ser expulsos.
 
É preciso reconhecer que Freixo disse a verdade na Fierj: ele sempre defendeu o direito de existir de Israel. A palavra “palestinos” ou “Palestina” sequer foi mencionada durante sua entrevista. 
 
Enquanto alguns preferem o caminho das concessões ao sionismo, outros seguem firmes na solidariedade internacional ao povo palestino. A mesma Fierj que recebe Freixo de braços abertos – e com razão – ameaçou o então candidato a deputado federal Cyro Garcia (PSTU-RJ), em 2014, durante o mais recente genocídio israelense em Gaza, por ele ter se posicionado em solidariedade ao povo palestino no horário eleitoral. A posição afirmada por Cyro – candidato do PSTU à Prefeitura do Rio de Janeiro nas eleições de 2016, é a nossa. Defendemos sim o fim do Estado racista de Israel para dar lugar a uma Palestina laica, livre e democrática, sem qualquer tipo de discriminação, com direitos iguais a todos e todas que queiram viver em paz com os palestinos.
 
Ao lado dos palestinos, atendemos à demanda do movimento BDS para incluir nas eleições a proposta de uma cidade livre de apartheid, em que nenhum convênio seja firmado com Israel. Defendemos, também, cidades brasileiras que não reproduzam modelos de apartheid, a serviço do que estão as UPPs nas favelas cariocas.
 
Propomos aos candidatos do PSOL de São Paulo que façam o mesmo. Estamos abertos ao debate. Propomos ainda que os apoiadores de Freixo e os solidários à causa palestina se posicionem a respeito.
 
A essa luta, dedicamos nossa vida! Sou pró-Palestina, não fecho com Freixo!