Sobre Síria, fascismo e stalinismo

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No último dia 20 de janeiro, data da posse de Donald Trump na Presidência dos EUA, a Juventude do PSTU realizou uma intervenção na Universidade Federal de Sergipe (UFS), pendurando uma faixa no Restaurante Universitário com a inscrição “Síria livre: Fora Assad e ISIS! Fora Trump e Putin!”. O ato incomodou um pequeno grupo local de jovens de direita, que arrancou a faixa uma semana depois e publicou uma mensagem, em sua página no Facebook, atacando a nossa organização. Para entender esse caso, é preciso lembrar o que se passa na Síria.

Em março de 2011, uma revolução popular estourou no país contra a ditadura de Bashar al-Assad, que já está no poder desde o ano 2000 (sucedendo o pai Hafez al-Assad, que governou durante 29 anos). A repressão violenta do governo a protestos pacíficos por liberdades democráticas e direitos sociais, e contra o desemprego galopante, levou à formação de grupos rebeldes armados e à divisão das forças armadas, cujos desertores formaram o chamado Exército Livre da Síria e passaram a apoiar a revolução.

Desde então, a Revolução Síria enfrentou todo tipo de desafios. A intervenção de grupos fundamentalistas como a al-Nusra (ex al-Qaeda) e o Daesh (Estado Islâmico – ISIS), com a colaboração do governo Assad, que libertou centenas desses terroristas das suas prisões ainda em 2011, levaram à fragmentação dos grupos rebeldes e do Exército Livre da Síria, transformando parte dos conflitos armados no país em uma guerra de seitas fundamentalistas. A intervenção estrangeira também atuou contra a revolução, seja pelo imperialismo russo, que bombardeou diretamente as cidades controladas pelos rebeldes, seja pelo estadunidense, que por trás de uma falsa solidariedade ao povo sírio, abandonou a revolução a própria sorte e atuou apenas para tentar estabilizar a região ao seu favor.

Apesar disso, o discurso do governo Assad e do seu principal aliado internacional, Vladimir Putin, é de que a Revolução Síria não passa de uma trama dos EUA para tirá-lo do poder e que todos os opositores do governo são terroristas. Essa falácia é compartilhada naturalmente por grupos conservadores e fascistas, defensores de uma ideologia totalitária disfarçada de nacionalismo anti-imperialista. Absurdamente, ela também é defendida por organizações de esquerda, em especial aquelas que reivindicam de forma aberta ou envergonhada a tradição política de Josef Stalin, também baseada no autoritarismo mascarado de defesa nacional.

A verdade é que nem Assad, nem Stalin foram jamais inimigos do imperialismo. Assad apoiou o domínio do Estado de Israel na região, inclusive bombardeando refugiados palestinos, apoiou a invasão do Afeganistão pelos EUA e, agora, com a eleição de Trump, já o considera um “aliado natural” do seu governo, na busca por restabelecer essas alianças. Stalin condenou a revolução socialista ao retrocesso com a sua teoria do socialismo num só país e da convivência pacífica com o imperialismo, que o levou a assinar acordos até com a Alemanha nazista e quase entregar a Rússia às mãos de Hitler quando este o surpreendeu com uma invasão militar. Essa política, sustentada na perseguição, prisão e morte dos próprios soviéticos, a exemplo dos mais de 600 mil executados no “Grande Expurgo”, seria continuada após a sua morte e futuramente levaria à restauração do capitalismo na Rússia.

À juventude conservadora deixamos apenas nosso repúdio aos seus ideais fascistas, às suas mentiras ao igualarem a Revolução Síria às invasões do Iraque e do Afeganistão pelos EUA, às quais sempre fomos contra, e às suas atitudes de provocação infantil. Às organizações de esquerda que têm se colocado em defesa do governo Assad e aos ativistas que ainda têm dúvidas sobre qual política devemos defender para a Síria, deixamos um questionamento: devemos, assim como os fascistas, apoiar um governo que massacra o seu próprio povo em nome de uma falsa luta contra o imperialismo, ou apoiar a luta desse povo, sem deixar de dizer a ele que não deve ter ilusões em qualquer governo imperialista?

Por PSTU-SE