Sobre faixas amarelas, amarelas e pretas e sobre como eu entrei pras estatísticas de violência doméstica

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O texto abaixo é um relato real, vivo, pesado e carregado de coragem. À nossa companheira Cinara, toda a solidariedade, apoio e gratidão por compartilhar sua história e, com ela, romper o silêncio de milhares de mulheres na luta contra o machismo. Chega de violência!

 
Eu quero presentear
A minha linda donzela
Não é prata nem é ouro
É uma coisa bem singela
Vou comprar uma faixa amarela
Bordada com o nome dela
E vou mandar pendurar
Na entrada da favela
(…)
Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela
Vou lhe dar uma banda de frente
Quebrar cinco dentes e quatro costelas
Vou pegar a tal faixa amarela
Gravada com o nome dela
E mandar incendiar
Na entrada da favela

(Zeca Pagodinho, Faixa Amarela)

 
 
Pois então, difícil começar. No fim de janeiro de 2016, comecei a me relacionar com um cara que já conhecia de vista e de conversar da Cidade Baixa (bairro boêmio de Porto Alegre). Achei uma pessoa legal e agradável. Começamos a nos encontrar todos os dias e em pouco tempo ele ficava mais na minha casa do que na dele. Dois meses aproximadamente foi a duração dessa relação. Ele passou a fazer a maior parte das tarefas domésticas, já que eu passava mais tempo que ele fora de casa por causa do trabalho. Passamos a conversar sobre muitas coisas, entre elas, sobre política, sindicalismo e feminismo, pois participo de movimentos sociais e políticos. Ele começou a me acompanhar em vários eventos políticos, reuniões, passeatas, inclusive na marcha do 8 de março.

Dia 22 de março, eu na última semana de férias, resolvemos sair para beber. Fomos em mais de um bar e chegamos em casa por volta das 3h30min. Tivemos um desentendimento após ele ter tido uma crise de ciúmes, referindo-se a amigos meus que encontramos pelo caminho e cumprimentávamos. Após eu criticar esse comportamento, ele começou a arrumar a mochila para ir embora, já aumentando o nervosismo. Ele disse: “Abra a porta pra mim que vou embora, perdi tempo da minha vida contigo”. Eu disse: “Tranquilo, quer ir embora, abro a porta sim”.  Mal sabia eu que a porta seria o problema, que ele estava no fundo inconformado em ir embora de verdade.

Começou a atirar as coisas na parede, quebrou um copo jogando no chão, deu socos e chutes em vários objetos da minha casa. Até aí violência material. Acontece que, quando chegamos até a porta, o terror se estabeleceu. Fui girar a chave e ele começou a dar chutes na porta e a gritar que eu abrisse logo. Foi quando veio a primeira violência física: um tapa na cara. Depois outro e outro e outro… Fiquei me defendendo com as mãos. Foi então que ele mandou novamente que abrisse logo, voltando a chutar a porta e a me chamar de vagabunda, vadia, etc. e falou com todas as letras: “Vou te matar, sua vagabunda”. Mais de uma vez. Aí vi que era pior do que eu pensava. Como num filme de terror e suspense, comecei a ficar em pânico sobre qual seria o desfecho, já que não adiantava abrir a porta. Ele me batia se eu não abrisse e também se eu tentasse abrir.  Estava descontrolado, face desfigurada, babando (de verdade) e urrando de raiva. Desviei meu corpo de alguns chutes e consegui livrar meu rosto pra trás de uma cabeçada que ele tentou dar. Mas não escapei de algo mais violento.

No meio dos tapas, ele pegou minha cabeça com muita força e bateu contra a parede. Senti um choque, como uma luz de um relâmpago, que depois foi se desfazendo, até eu ficar temporariamente tonta e sem visão. Fui indo até o quarto me segurando pelas paredes. Juro que pensei que ele se assustaria e, sei lá, daria uma trégua (até pelo estado da minha cabeça). Foi então que ele disse: “Tá tontinha, é? Quer, eu te boto pra dormir.” E senti mais um soco por trás no ouvido direito. Foi então que eu pensei que se eu “dormisse”, ele estaria disposto a acabar o que começou. Fiz esforço pra voltar. E voltei a enxergar. Fiquei sentada na cama, que fica ao lado da janela. Começou o segundo capítulo do filme de terror.

Ele deu início a uma tortura psicológica, dizendo que tinha pensado em me jogar pela janela, que era só cortar com a tesoura a tela de proteção dos gatos. Me chamou de muitas coisas, o xingamento preferido era: “Sua feminista de merda. Mulherzinha, isso que tu é, olha pra ti agora, tu não passa de uma mulherzinha. Cadê a feminista agora?”. Começou a elencar várias maneiras que poderia e já pensou em me matar: quebrando meu pescoço numa rua escura, jogando gasolina e botando fogo, me jogando do quinto andar, passando com um carro por cima de mim. Deu-se início a um período de silêncio da minha parte, pois ele começou a urrar, foi até a cozinha nesse estado e fiquei tentando ouvir o barulho da geladeira ou da torneira. “Quem sabe foi tomar alguma coisa”, torcia eu. Nada. Ele voltou naquele estado e a primeira coisa que eu quis olhar foi suas mãos. Não havia nada. Acontece que ele foi à cozinha e voltou dessa forma umas 20 vezes. Sério. E eu só olhava pras mãos dele e pensava: “Não foi dessa vez. Tenho ainda mais uns 10 minutos”. Pensei depois que ele estava decidindo se pegaria uma tesoura pra cortar a tela e me jogar pela janela, ou uma faca, ou qualquer outra coisa que pudesse me matar. Mantive silêncio. Fumou um cigarro olhando pra mim e pra janela e balançando a cabeça acenando que sim.

Iniciou-se um período de desconstrução da minha personalidade. Uma violência moral. Dizendo que eu não era nada, que tinha um emprego de merda, que meu carro era uma merda, que eu era doente mental, que eu não merecia respeito pois eu não era um ser humano, falou mal de amigos e família e principalmente deixou bem claro: “Não adianta dizer que tu te criou em periferia que eu conheço todo mundo, conheço a Polícia, o Judiciário…” (obs.: quem trabalha no Judiciário sou eu). Insinuou que minha família e amigos corriam risco. E ainda pediu: “Não inventa nenhuma historinha que tu caiu ou coisa assim pra tua família, nem pra ninguém, fala que tu apanhou mesmo. Que eu faço questão de sentar na frente do Juiz e olhar pra essa tua cara toda desfigurada”. É, fiquei um tempo com o rosto desfigurado pela pancada na cabeça e pelos tapas e sentindo muita dor no lado esquerdo da face ao mastigar.

Achei que tivesse terminando quando ele disse que iria embora ao amanhecer. Mas não foi o que aconteceu. Ficou mais dois dias tendo um misto de choro desesperado com tremores, suando e se dizendo arrependido, pedindo perdão. Fui então negociando com ele até que ele aceitou ir pra casa pra me dar “um tempo”, mas me telefonasse à noite. Então desceu comigo. Fui dar uma volta (fugir de casa) e ele foi embora. Não preciso dizer que estou fora da minha casa desde então.

Convencida por amigos e pela solidariedade que senti da parte deles, decidi não só romper o silêncio e denunciar, como também romper a invisibilidade e fazer uma campanha pública. Enfrentar essa questão de forma coletiva, afinal, é uma questão social. Percebi as dificuldades dos sistemas da delegacia da mulher, da lei Maria da Penha e da Justiça. Esperei 5 horas pra registrar ocorrência e sabe o que estava passando na TV da sala de espera? Uma novela. Sabe o que estava se passando na novela? Um marido ou namorado se sentindo traído e espancando uma mulher. Tu vê. Está tão naturalizada a violência contra a mulher que aparece até dentro de delegacia. Naturalizada também para meus vizinhos. Às 4h da manhã, dava pra ouvir tudo, mas nenhum dos vizinhos chamou a Polícia. Pior. Fui multada “devido à transgressão ao horário de silêncio estabelecido na convenção do condomínio”.

Outra coisa: mudei toda minha vida, estou fora do apartamento, escondida, sem poder trabalhar, sem poder sair muito pra rua, sem ir nos lugares que sempre gostei de frequentar. Enquanto ele tem sido visto toda semana na Cidade Baixa, nos mesmos lugares, com a mesma vida.

Por fim, insisto em dizer que não foi lesão corporal, foi tentativa de feminicídio, que só não ocorreu por várias circunstâncias, as principais delas foram o fato de eu não ter apagado e de ter conseguido negociar.

Contar tudo até aqui não me comove mais. Começo a chorar depois que algumas mulheres entraram em contato comigo, quando começamos uma campanha pública, pra contar que viveram situação semelhante que as marcaram até hoje, mas que não tiveram apoio e guardaram essa questão pra si. Nunca é tarde. Vamos lutar juntas. Mas uma coisa é certa: nossos nomes não serão lidos em lista de mulheres vítimas de feminicídio em ato público contra a violência doméstica. Não vai ter faixa amarela, tampouco amarela e preta isolando o local do crime. Vai ter faixa lilás e vai ter luta.

Assinado: Cinara Antunes – Presente!