Setembro: Bolcheviques ganham a maioria da classe operária

No fim de agosto, após a derrota da tentativa de golpe militar liderada pelo general Kornilov (leia no Opinião Socialista 541), a situação política na Rússia mudou completamente. A mobilização dos operários e soldados para enfrentar o golpe recuperou as forças dos sovietes, que voltaram a ser os autênticos órgãos de luta e se tornaram, de novo, o poder real na Rússia. Embora a esquerda conciliadora, mencheviques e Socialistas Revolucionários, continuasse à frente dos conselhos, seu tempo estava acabando rapidamente.

Do outro lado, a firmeza e a capacidade dos bolcheviques em liderar os operários no enfrentamento contra Kornilov fez com que o partido ganhasse um imenso prestígio entre as massas. A campanha de calúnias da imprensa burguesa e do Governo Provisório, que associavam os bolcheviques ao governo alemão, inimigo da Rússia na Primeira Guerra Mundial, não colava mais. O partido de Lenin provou que era a única organização da esquerda russa a combater de fato a contrarrevolução.

As massas mobilizadas, lutando ombro a ombro com os militantes bolcheviques, aderiam às suas palavras de ordem. Quebravam-se os preconceitos e desconfianças e rompia-se o isolamento que foi imposto ao partido de Lenin após as Jornadas de Julho. Quando um soldado bolchevique chegava à frente de combate, imediatamente os soldados pediam que ele lhes falasse o que pensava sobre a revolução, a paz, Kerensky, a distribuição das terras etc.

Naqueles dias, a classe trabalhadora russa também aprendeu que o Governo Provisório era seu inimigo, e que a única forma de conquistar suas reivindicações era conquistando o poder pelos sovietes. É importante recordar que a burguesia e seu principal partido, os Cadetes, tinham demonstrado sua verdadeira face ante a tentativa de golpe. Os ministros desse partido chegaram a abandonar o governo e torceram para uma vitória de Kornilov que liquidasse os sovietes e a revolução.

A nova situação aberta depois da tentativa de golpe é explicada por Lenin: “Toda revolução significa uma brusca virada na vida das grandes massas populares (…). Durante a revolução, milhões e milhões de homens aprendem em uma semana muito mais do que em um ano de vida rotineira e monótona. É nestas bruscas viradas da vida de todo um povo que se percebe com especial clareza os fins que perseguem as distintas classes sociais, de que forças dispõe e com que meios atuam”.

Em nenhum outro momento da revolução, as ideias e o programa dos bolcheviques foram tão compreendidos e aceito pelas massas. Os lemas “Pão, paz e terra” e “Todo poder aos Sovietes!” eram abraçadas pela maioria da classe operária e ajudaram o povo pobre a entender que o Governo Provisório não conseguia resolver os principais problemas das massas.

Armadilha no meio do caminho
Apesar do novo fortalecimento dos sovietes e do crescente prestígio dos bolcheviques, havia ainda muitas armadilhas políticas a serem superadas. Desgastados, mencheviques e Socialistas Revolucionários tentaram recuperar o terreno perdido para os bolcheviques e, por isso, promoveram, em 14 de setembro, um evento denominado Conferência Democrática. A esse evento, compareceram as cúpulas das correntes, delegados das cooperativas rurais e de outras organizações, como as das administrações locais, chamadas zemstvos.

Eles queriam, na verdade, construir outra base política para absorver e destruir os sovietes. Como se negavam a tomar o poder, os conciliadores perdiam influência nos sovietes de todo o país. Sua aposta, agora, era institucionalizar a revolução pela via da democracia burguesa e, assim, barrar a luta pelo poder.

Por isso, no fim da conferência, os conciliadores aprovaram que a mesma deveria colaborar com a criação de um novo poder, um pré-parlamento, como foi chamado. Esse organismo apoiaria o governo de Kerensky, funcionando como uma espécie de conselho de Estado. Participariam do pré-parlamento representações indicadas pelos partidos e respeitariam o peso das forças políticas presentes à conferência. Ou seja, a maioria seria formada pelos mencheviques e Socialistas Revolucionários, além de representantes da burguesia.

Lev Kamenev: defendia a participação dos bolcheviques no pré-parlamento russo)

Polêmica entre os bolcheviques
Os bolcheviques estiveram presentes à conferência, mas eram minoria. Naturalmente, o partido se opôs à resolução de transformar aquilo num conselho do governo. Entretanto, diante da aprovação dessa decisão, tiveram de definir se participariam ou não do pré-parlamento.

Mais uma vez, uma grande polêmica se abriu dentro do partido. De um lado, Lenin, Sverdlov e Trotsky defendiam o boicote ao pré-parlamento. De outro, Kamenev, Rikov e Riazanov defendiam que os bolcheviques deveriam participar.

A questão foi submetida ao Comitê Central do partido em 20 de setembro, e houve um empate. Uma conferência partidária foi convocada para resolver a divergência. A conferência aprovou a participação no pré-parlamento em 22 de setembro. Kamenev, argumentando pela participação no pré-parlamento, falou: “O boicote ao pré-parlamento é, em resumo, um apelo à insurreição, quer dizer, à repetição das Jornadas de Julho. Só porque se chama pré-parlamento, ninguém ousaria boicotar tal instituição”.

Lenin, que estava na clandestinidade, só pôde participar do debate com atraso, em 23 de setembro. Por carta, apoiou a posição de Trotsky.

Trotsky era pelo boicote. Bravo, camarada Trotsky! Viva o boicote! Não podemos nem devemos, em caso algum, aceitar a participação. A fração de uma das conferências não é o órgão supremo do partido, e mesmo as decisões dos órgãos supremos estão sujeitas a uma revisão na base da experiência da vida. É preciso, a todo o custo, conseguir a decisão da questão do boicote tanto por um plenário do Comitê Executivo como por um congresso extraordinário do partido. É preciso tomar agora a questão do boicote como plataforma para as eleições para o congresso e para todas as eleições dentro do partido. É preciso levar as massas a discutir a questão. É preciso que os operários conscientes tomem o assunto nas suas mãos, conduzindo essa discussão e fazendo pressão sobre as ‘cúpulas”’, escreveu Lenin.

Felizmente, os bolcheviques sequer chegaram a se sentar nas poltronas do pré-parlamento. Sem perder tempo, os organismos de base do partido passaram a votar massivamente contra a participação no mesmo. A base operária do partido corrigiu o erro oportunista da direção, e o boicote foi aprovado pela maioria do Comitê Central numa reunião em 5 de outubro. Dois dias depois, Trotsky discursava na abertura do pré-parlamento e informava que os bolcheviques não participariam daquela instituição, pois defendiam que o poder deveria passar aos sovietes.

SAIBA MAIS: Governo provisório
Foi o governo que se estabeleceu na Rússia após a queda do tzar Nicolau II em fevereiro de 1917. Com o populista de esquerda Kerensky à frente, era composto por partidos burgueses e, depois de maio, pelas maiores correntes de esquerda, como os mencheviques e os Socialistas Revolucionários. Sua função seria a de governar até a convocação de uma assembleia constituinte para a composição de um Estado burguês no país. Porém o poder de fato estava já nas mãos dos sovietes, que controlavam fábricas, estradas, ferrovias etc.

 

SAIBA MAIS: Jornadas de Julho
Série de manifestações ocorridas contra o Governo Provisório em que grande parte dos soldados e operários da capital Petrogrado, incluindo setores importantes dos bolcheviques, defendiam uma insurreição armada. Lenin e Trotsky alertaram que a medida seria prematura, já que as massas do país, sobretudo nas províncias, ainda não tinham rompido com o governo. As manifestações foram duramente reprimidas pelo Governo Provisório, mas o movimento e os bolcheviques não saíram derrotados.