Seis conclusões sobre o caráter da mobilização popular após o 11 de julho

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Dutra é fechada por manifestantes no dia 11 de julho
Foto: Sindmetal/SJC

No dia 11 de julho, milhões de trabalhadores fizeram greve. É difícil contabilizar os números desse dia devido à amplitude desse movimento, mas podemos afirmar que setores econômicos e mesmo cidades inteiras aderiram ao dia de greve nacional convocado pelas centrais sindicais. É o caso de Santos, no litoral paulista, que teve o comércio fechado, estradas bloqueadas e 30 mil trabalhadores dos principais setores mobilizados. É o caso do Vale do Paraíba, onde os executivos das montadoras assistiram suas linhas de produção paradas. É o caso de refinarias em todo o país, da construção civil, dos metalúrgicos, dos servidores públicos. Não há um brasileiro que não tenha sido tocado pelos dedos desse movimento neste dia, seja fazendo greve, paralisando parcialmente seu trabalho ou conhecendo alguém que tenha participado do dia de protesto.

A imprensa quer nos fazer crer que o dia 11 de julho foi um dia em que apenas um punhado de sindicalistas e militantes políticos causaram transtornos que atrapalharam um  pouco a rotina. Não conseguem explicar porque o Jornal Nacional precisou dedicar seu primeiro bloco inteiro para explicar o que acontecia. Não conseguem apagar do Google os milhares de links relacionados às paralisações que ocorreram em todo o território nacional. Se fossem realmente esconder as notícias relacionadas ao número de pessoas que não trabalharam neste dia, teriam que desaparecer com o Facebook, tamanha a quantidade de fotos, comentários e compartilhamentos nesta rede social.

Classe trabalhadora entra em cena
É preciso tirar conclusões sobre o que está acontecendo. A primeira delas é que a classe trabalhadora entrou com muita força no movimento puxado pela juventude. Essa foi uma das maiores greves gerais de nossa história, semelhante às greves da década de 1980.

A segunda conclusão é que as manifestações de rua ganham “novas” ferramentas de apoio, tradicionais do movimento operário: as greves e paralisações. Foi a classe operária em cena, com seus métodos, dando prejuízo de bilhões à burguesia, quem deu o recado no dia 11, contra tudo o que está aí.

A terceira conclusão é que não é só por 20 centavos que os trabalhadores fizeram greve. Aliás, a maioria dos que fizeram greve vai de ônibus fretado ao trabalho, são trabalhadores de empresas multinacionais como as montadoras, tem carteira assinada. A greve foi claramente política. Foi um grito contra todo o sistema político. Foi muito mais uma greve contra a política dos governos, contra os próprios governantes e seus partidos tradicionais, sua corrupção, seu mau-caratismo. Mudou de vez o foco do protesto. Começou com o transporte há um mês atrás, agora é todo o sistema, e quem achar que o movimento reivindica só transporte precisa se convencer do caráter mais geral das reivindicações.

A quarta conclusão que podemos tirar é que o movimento é de esquerda, por suas reivindicações e seus métodos. Greve geral contra o sistema político, contra os governos, por direitos básicos como transporte, saúde e educação, é movimento de esquerda. Não precisa ter um partido de esquerda à frente do movimento para definir seu caráter. A direita está com medo, basta ler os jornais.

A quinta conclusão é que é preciso fortalecer uma alternativa real de mudança. O movimento precisa de estratégia. O Brasil precisa de uma revolução social, precisa acabar com a divisão do povo em classes sociais. Só assim poderemos conquistar e, principalmente, manter as conquistas que arrancamos dos senhores do poder. O movimento tem que lutar pelo socialismo.

Alternativa
No dia da greve assistimos a CUT, a Força Sindical e políticos da burguesia disputando os rumos do movimento. Estas centrais e estes políticos, em sua maioria, foram a sustentação deste governo que enfrentamos. São as bases das categorias que pressionam a CUT e a Força Sindical para fazerem greve mas, contraditoriamente, são justamente estas centrais que elegeram Lula e Dilma. A greve acontece apesar destas centrais e não devido a elas. Estas direções não querem mudar radicalmente a política no país, querem apenas manter o controle dos sindicatos e barganhar privilégios políticos. Sua estratégia é capitalista. Temos que nos aproveitar desta contradição para dialogar com as bases, apesar de suas direções. Por isso devemos fortalecer a CSP-Conlutas, que é a única central independente deste país.

É preciso ter claro que os ricos deste país não vão entregar seus privilégios facilmente. A democracia das ruas já está enfrentando a ditadura das armas. O século XX é o século das grandes revoltas populares que sacudiram a humanidade e mesmo assim o mundo continua capitalista. O socialismo é atual e única saída. O socialismo é poder econômico na mão do trabalhador, é a democracia da maioria. O socialismo é a educação pública que o povo pede hoje nas ruas, é a saúde de qualidade que nós pintamos nos cartazes, é o transporte gratuito que tanto que queremos, é a política honesta porque seu interesse não é o dinheiro, é o fim da inflação, da fome e concentração da riqueza nas mãos de poucos. Temos que ir até o final na tarefa de construir o socialismo, temos que expropriar, coletivizar e socializar a riqueza.

Nós temos que construir uma ferramenta de luta que reúna o que existe de mais necessário ao nosso movimento hoje: uma estratégia socialista e uma organização adequada à necessidade de combater a burguesia. Só com estratégia clara e disciplina férrea vamos conseguir isso. Só com um partido político revolucionário, que agrupe operários, camponeses e estudantes vamos fazer o socialismo. Esse partido que precisamos não é igual aos outros e esta é a sexta conclusão. Os partidos não são todos iguais. O PSTU é diferente. Enfrentou a polícia nos atos de rua lado a lado com o povo, por isso é diferente. Propôs e organizou a greve geral do dia 11 de julho, por isso é diferente. Enfrentou a desconfiança do povo com os partidos para provar que nem todo partido é corrupto e inimigo do povo, por isso é diferente.

O PT, por meio da CUT, quis boicotar ou desviar os motivos da greve para apoiar Dilma. O PSDB não se moveu neste dia, assim como os demais partidos burgueses. O PSOL não acreditou na força do movimento e se absteve na votação da greve do metrô de São Paulo, o que impediu a paralisação do principal meio de transporte da capital econômica do país. A organização política LER-QI, de maneira lamentável, foi além do peleguismo e seus militantes defenderam contra a greve do metrô. Trabalharam orgulhosamente neste dia para trair o movimento nacional dos trabalhadores.

Na greve geral os trabalhadores do PSTU organizaram por dentro das empresas as paralisações. Nossa juventude foi para a porta das fábricas apoiar os trabalhadores e fez um chamado a todos os ativistas para organizarem a paralisação. Mais do que nunca, é preciso saber diferenciar os partidos políticos e reafirmar o formato de organização do nosso partido. Todas as nossas atividades foram discutidas e decididas em reuniões, coletivamente. E depois atuamos juntos nas mesmas atividades, golpeando a burguesia com um punho só, sem divisões. Nenhum parlamentar ou figurão falou em nome de nosso partido sem antes ter se submetido ao coletivo partidário. Isso é democracia. Só com um partido com a mais férrea disciplina e democracia interna a serviço de uma estratégia socialista podemos fazer uma revolução social. Está na hora de fortalecer esta alternativa.