Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
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O PSTU e a homossexualidade

Introdução

Um breve Histórico

Cem anos de Luta

O movimento no Brasil

Dispersão e Momento Atual

O movimento revolucionário e a homossexualidade

Por que um programa específico?

Organização é a única saída

Um esboço de programa
Baixe a íntegra deste texto (.pdf)


INTRODUÇÃO


Primeiramente seria necessário afirmar que este texto foi produzido, essencialmente, com a intenção de abrirmos uma discussão entre os militantes simpatizantes do Partido Socialista do Trabalhadores-Unificado, o PSTU. Ou seja, este não é um texto acabado, nem uma versão final de um programa para a "questão" homossexual no Brasil. Estamos longe disso e acreditamos que este "esboço" seja apenas um primeiro passo no sentido de superar as enormes dificuldades com as quais nos deparamos.

Com ele queremos abrir uma discussão ampla, franca e profunda não só com aqueles que se idenficam com o PSTU, mas também com o conjunto da sociedade e, principalmente, com um número cada vez maior de gays e lésbicas que, compreendendo que a única forma de conquistar nossos direitos é a organização e a luta, têm se dedicado de forma constante à essa batalha.

No texto, homossexuais masculinos e femininos, serão denominados gays e lésbicas respectivamente, já que essa é a terminologia que vem sendo empregada com mais frequência dentro do movimento homossexual, não só brasileiro como mundial. No mesmo sentido, homossexuais (como mulheres e negros) são designados como "setores oprimidos" da sociedade e não "minorias", como (com um certo teor discriminatório) se convencionou na década de 70.

Enquanto militantes do PSTU reconhecemos que, lamentavelmente, e há muito tempo, a esquerda em geral, e os revolucionários em particular, têm menosprezado a discussão sobre o tema. Essa falta de discussão, obviamente denota que essas organizações não são imunes ao enorme preconceito existente na sociedade. Desconhecimento, mitos e pura resistência imperam no que diz respeito aos homossexuais. E também por isso acreditamos que seja nosso dever, a partir do momento que nos postulamos com uma nova alternativa no movimento revolucionário brasileiro, erradicar esses obstáculos, dando a devida atenção a uma questão que afeta a vida diária de algo entre 5% e 10% da população.

Hoje, diferentemente do que ocorria há anos atrás, a esquerda revolucionária já não pode se omitir diante desta responsabilidade, seja nas fábricas, nos escritórios ou nas escolas.

Exatamente pela falta de tradição na discussão da homossexualidade dentro das organizações de esquerda, optamos por, primeiramente, apresentar alguns aspectos históricos que possam servir para a discussão. Depois disso, apresentamos alguns aspectos do preconceito e da opressão que vitima gays e lésbicas e, ao final, um esboço de programa.

Por último é importante ressaltar que este texto está baseado na pouca elaboração que temos acumulada. Principalmente no material produzido durante o início da década 80 quando pela primeira vez um movimento homossexual organizado ganhou as ruas e exigiu respostas por parte dos setores organizados da sociedade. Neste sentido, há uma predominância, no texto, da elaboração realizada dentro da Convergência Socialista, a qual temos procurado enriquecer com a colaboração dos demais grupos e setores que deram origem ao PSTU.




UM BREVE HISTÓRICO


O homo e o heterossexualismo são diferentes orientações sexuais que convivem lado a lado desde os primórdios da humanidade. Estudos antropológicos realizados em todo o mundo demonstram inclusive que em grande parte das sociedade primitivas, os homossexuais exerciam um papel de importante destaque, sendo respeitados como conselheiros, curandeiros ou em outras tarefas.

Estes mesmos estudos nos levam a crer que a opressão ao homossexual pode, em parte, ser explicada no mesmo contexto em que se originou a discriminação e a opressão contra as mulheres. A introdução da propriedade privada e a transformação das antigas sociedades matriarcais em patriarcais, como foi analisado por Engels, em a Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, por exemplo, provocou profundas alterações nas relações sociais e sexuais. A necessidade de se determinar quem era o herdeiro das propriedades acumuladas, acorrentou as mulheres ao domínio masculino e deu início à nefasta discriminação em relação à toda atividade sexual que não tivesse na reprodução "controlada" seu objetivo.

Esse processo, obviamente, teve ritmos próprios nas diferentes sociedades do mundo antigo. Em civilizações como a romana, e principalmente a grega, a homossexualidade seguiu sendo respeitada quando ligada aos rituais sagrados, na iniciação dos adolescentes na vida adulta, e mesmo ao aparato militar (como no famoso "bando sagrado de Tebas", um exército formado exclusivamente por amantes homossexuais).

Com o desenvolvimento e a expansão do cristianismo como religião dominante, a discriminação contra os homossexuais adquiriu formas elaboradas, e a prática da homossexualidade começou a ser não somente condenada pela sociedade, como também punida de forma exemplar.

Em seu período de maior poder, na Idade Média, a partir do século XI, a Igreja desenvolveu uma caça contra os homossexuais e todos aqueles que se levantavam contra a restrita e tacanha moral católica. Além das centenas de lésbicas que foram queimadas como bruxas, homossexuais em geral, eram usados como "lenha" para as fogueiras purificadoras da santa igreja. Somente no século XIX, contudo, surgiu o termo "homossexualismo" para denominar as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. O termo foi rapidamente vinculado a uma "doença", que deveria ser tratada. Essa concepção que vigorou em grande parte do mundo até a década passada, quando a Organização Mundial de Saúde, em 1985, finalmente se curvou diante do movimento homossexual internacional tirando o "homossexualismo" da lista das fatalidades patológicas, justificou todo e qualquer tipo de discriminação e violência contra gays e lésbicas.

Um dos mais sangrentos exemplos dessa violência foi dado pelo nazismo, durante a II Guerra Mundial, que enviou centenas de milhares de homossexuais para a morte, depois de marcá-los, nos campos de concentração, com o triângulo rosa, que anos mais tarde se tornaria um dos principais símbolos da luta contra a opressão homossexual.




CEM ANOS DE LUTAS


Um dos primeiros escritos que se conhece contra a discriminação aos homossexuais data de 1869. Neste ano um médico húngaro, Karóly Benkert, escreveu um furiosa carta ao Ministério da Justiça alemão condenando o novo código penal que em seu artigo 175 declarava que os atos sexuais entre homens eram delito. Foi nesta carta, também, que Benkert utilizou pela primeira vez o termo homossexual para denominar estes atos.

A luta contra o artigo 175 fez florescer na Alemanha os primeiros movimentos em defesa da liberação homossexual. Em 1897 surgia o Comitê Científico e Humanitário (CCH), que promoveu diversas atividades até 1933, quando foi duramente vitimado pela violenta perseguição do nazismo que recém chegava ao poder.

Durante sua existência o CCH lançou as bases daquilo que seria o movimento homossexual no decorrer do século. Abaixo-assinados, palestras, e atividades públicas foram intensamente utilizados numa tentativa de por fim à discriminação contra os homossexuais. O grau de atividade e "modernidade" do Comitê pode ser, inclusive, exemplicado pela participação de Hirschfeld em inúmeras produções cinetográficas que discutiam o tema. Na mais famosa delas, intitulada "Diferente dos Outros", de 1919 (ou seja, menos de 20 anos depois do surgimento do cinema), Hirschfeld não participou como ator (um médico que procura convencer a sociedade de que a homossexualidade não é crime nem doença), como também inseriu um poderoso discurso no final do filme, válido até hoje:

"Nós devemos assegurar que brevemente chegará um tempo em que tragédias como esta [o suicídio do principal personagem gay] serão impossíveis de acontecer, porque o conhecimento irá superar o preconceito, a verdade irá superar as mentiras e o amor conquistará o ódio"

Como bem sabemos, a profecia de Hirschfeld infelizmente não se cumpriu até hoje, apesar do movimento de gays e lésbicas nunca ter cessado desde então. Os anos 30 e 40 foram marcados por enormes retrocessos e derrotas causados pelo fascimo e a guerra. Contudo, nos anos 50, o movimento homossexual internacional ganhou novo fôlego com a luta dos homossexuais norte-americanos contra a "caça às bruxas" promovido pelo senador ultra-conservador McCarthy. Mas, os pequenos grupos que surgiram na época, apenas anunciavam o poderoso movimento homossexual que iria surgir naquele país duas década depois. A década de sessenta foi marcada pela revolução nos costumes e no comportamento de amplos setores da sociedade em vários países capitalistas. 68 entrou para história como o ano da rebeldia estudantil. Já 1969 é uma marco para a luta pelos direitos dos homossexuais. Em 28 de junho daquele ano, a polícia de Nova York promoveu uma de suas costumeiras batidas em um bar frequentado por homossexuais, o Stonewall, em Greenwich Village. Mas, desta vez a história foi bastante diferente das anteriores. Cansados das humilhações e perseguições, os homossexuais que estavam no bar, liderados por travestis resistiram à polícia, trancando-os dentro do bar e ateando fogo ao recinto. A batalha, que tinha pedras e garrafas como armas, e envolveu milhares de pessoas, se prolongou durante toda a madrugada do dia 28 e nas 4 noites posteriores. No primeiro aniversário da rebelião, 10 mil homossexuais, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam sobre as ruas de Nova York, demonstrando que estavam dispostos a seguir lutando por seus direitos. Desde então, "28 de junho" é considerado o Dia Internacional do Orgulho Homossexual.

Como resultado direto desta mobilização, durante os anos 70 surgiram centenas de organizações de gays e lésbicas. Estas organizações obtiveram importante conquistas como as seguintes: 1. forçou a Associação Nacional de Psiquiatria a rediscutir a classificação dos homossexuais como doentes; 2. impôs o fim à proibição de homossexuais nos serviços públicos em diversas cidades e estados; 3. dezoito estados dos EUA anularam as leis que puniam criminalmente a sodomia; 4. em várias cidades foram aprovadas leis proibindo a discriminação nos locais de trabalho e moradia.

Porém os avanços conquistados no início da década foram sistematicamente atacados durante o decorrer da 70 e 80. O aprofundamento da crise econômica mundial abriu espaço para um discurso conservador que fez com que muitas das leis anti-discriminatórias fossem revogadas apesar da resistência dos grupos organizados e da comunidade homossexual em geral. Um dos exemplos mais importantes desse embate se deu em Miami, na Florida, em 1977. A derrota de uma lei em defesa dos direitos homossexuais levou centenas de milhares de pessoas às ruas. Já em San Francisco, 250.000 pessoas saíram às ruas em protesto contra os ataques aos direitos homossexuais e para repudiar o assassinato de um membro da comunidade por 3 adolescentes. Na medida em que a onda conservadora avançava e os direitos legais eram retirados, aumentavam também os ataques físicos aos homossexuais. O caso mais famoso foi sem dúvida o assassinato de Harvey Milk, em San Francisco, o primeiro vereador assumidamente gay eleito nos Estados Unidos. Em novembro de 1978, um ex-policial e vereador, Dan White, assassinou Milk juntamente com o prefeito da cidade dentro da própria prefeitura. O assassinato provocou uma onda de manifestações à nível nacional e internacional, que teve seu ápice em maio do ano seguinte, quando White, apesar de todas as evidências, recebeu a sentença mínima (8 anos, com direito à liberdade condicional depois de 5).

Diante deste resultado 10 mil pessoas se concentraram na frente da prefeitura para protestar. A manifestação evolui rapidamente em um violento confronto com a polícia que teve como saldo 119 feridos (59 deles eram policiais), danos generalizados no prédio da Prefeitura e vários carros queimados. Estima-se que ao todo, os prejuízos chegaram à um milhão de dólares. A revolta dos manifestantes foi ainda maior diante dos policias que os atacavam aos berros dizendo que era chegada de "limpar a cidade" e retomá-la das mãos dos "veados".

Outros inúmeros exemplos poderiam ser dado sobre o movimento homossexual nos EUA, mas o mais importante é ressaltar que seu caráter militante serviu como exemplo e modelo para os diversos grupos de gays e lésbicas que surgiram nos mais diversos países do mundo. Este também foi o caso do Brasil.




O MOVIMENTO NO BRASIL


Em 1977, os estudantes tomavam as ruas para exigir a anistia dos presos e exilados políticos. Era o começo do fim da ditadura. A retomada do ascenso fez com que diversos setores da sociedade buscassem se organizar. A imprensa "alternativa" se multiplicou rapidamente. E os setores oprimidos e explorados da sociedade exigiam seu espaço. Em meio à este processo surgiu o jornal Lampião de Esquina, com o objetivo de enfocar a luta de todos os chamados "setores oprimidos" (mulheres, negros, índios e homossexuais) mas que, na prática, era quase que totalmente voltado para a comunidade homossexual. A idéia inicial de lançamento do jornal "nasceu" com a visita de um jornalista gay norte-americano, Winston Leyland, que veio à América Latina, no final de 1977, para recolher material para escrever uma antologia sobre a produção literária de autores homossexuais. Sua visita acabou desencadeando a reunião de um grupo de jornalistas, escritores e intelectuais responsável pelo lançamento do número zero do jornal em abril de 1978.

Além do surgimento do Lampião, outros fatores iriam contribuir para a formação do primeiro movimento homossexual brasileiro. Também em abril de 78, entre os dias 24 e 30, a revista Versus promoveu um ciclo de debates denominado "Semana do Movimento da Convergência Socialista", cujo o objetivo era elaborar a plataforma política de um futuro Partido Socialista Brasileiro. Durante estes debates um "incidente" provocado pela não convocação do Lampião, acabou resultando em uma intensa discussão sobre o relacionamento entre a esquerda e os homossexuais. A grande importância desde debate foi que ali se deu a primeira discussão pública sobre a homossexualidade e seus aspectos políticos.

Após este debate um grupo integrado por dois editores do Lampião, e outro homossexuais fundaram o Núcleo de Ação pelos Direitos Homossexuais, que apareceu à público pela primeira vez para denunciar a forma preconceituosa como o jornal Notícias Populares tratava os homossexuais. Em dezembro de 78, o grupo passa a adotar o nome de SOMOS - Grupo de Afirmação Homossexual. E em fevereiro de 1979, após a participação em um ciclo de debates na Universidade de São Paulo, o SOMOS cresceu significativamente, reunindo cerca de 100 homossexuais (aproximadamente 80 homens e 20 mulheres).

Desde sua fundação, um setor do SOMOS havia privilegiado uma atuação estreitamente ligada aos setores oprimidos da sociedade, as mulheres e os negros (apesar de que nem sempre tenha havido reciprocidade nesta tentativa). A primeira aparição pública do SOMOS, em uma mobilização, se deu no dia 20 de novembro de 1979 (Dia de Zumbi dos Palmares, ou Dia Nacional da Consciência Negra), em uma passeata convocada pelo Movimento Negro Unificado. Nesta passeata os ativistas do SOMOS portavam uma faixa onde se lia "Pelo fim da discriminação racial - SOMOS - Grupo de Afirmação Homossexual.

No início da década de 80, já existiam diversos grupos formados, além do SOMOS em diversos estados do país. E a necessidade se discutir, à nível nacional, as diferentes experiências de cada um dos grupos e a possibilidade de se coordenar atividades conjuntas fez com que fosse convocado o I Encontro Brasileiro de Homossexuais e o I Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais Organizados, realizado na Semana Santa de 1980, no Rio de Janeiro. Os dois primeiros dias do Encontro foram fechados aos representantes dos grupos, e a plenária final, da qual participaram 800 pessoas foi aberta. Entre os grupos que estiveram presentes poderíamos citar: Facção Homossexual da Convergência Socialista, Eros (SP), SOMOS/Sorocaba, SOMOS/RJ, Beijo Livre (Brasília), Libertos (Guarulhos) e Grupo de Ação Lésbico-Feminista. Além disso houve a participação de representantes de diversos outros estados.

Assim como durante a discussão entre os grupos, a plenária foi polarizada pela discussão em relação a como o movimento homossexual deveria se relacionar com os demais setores oprimidos e explorados da sociedade. Essa discussão se concretizava em como o movimento homossexual participaria da comemoração do 1º de maio no ABC paulista, onde acontecia, naquele momento, uma poderosa greve. A plenária se dividiu ao meio, e a posição de participar organizadamente do ato perdeu por apenas um voto.

Essa discussão significou praticamente um divisor de águas dentro do movimento homossexual. De um lado estavam aqueles que viam a possibilidade de conquistar a emancipação homossexual dentro dos limites da discussão da sexualidade em si, do outro ficaram os que acreditavam que a emancipação só seria possível caso fosse batalhada conjuntamente com os demais setores oprimidos e explorados da sociedade.

Os adeptos da segunda posição, decidiram que participariam do ato de qualquer forma (mesmo temendo uma possível reação negativa por parte dos operários) e para tal organizaram a "Comissão de Homossexuais pró-1º de Maio" que reuniu um grupo de 50 homossexuais para participarem do ato. O grupo entrou no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo com duas faixas - Contra a Intervenção nos Sindicatos e Contra a Discriminação do Trabalhador(a) Homossexual - e, para sua própria surpresa, foi entusiasticamente aplaudido e de forma alguma molestado.

O grau de diferenciação entre as duas posições em relação à participação no 1º de maio, pode ser breve e folcloricamente ilustrado pela atividade realizada pelo setor contrário à participação. Enquanto o ato acontecia em Vila Euclides, os editores de Lampião e aqueles que concordavam com sua postula, realizavam um piquenique no zoológico.

No período imediatamente posterior ao 1º de Maio se deu um inevitável distanciamento entre os dois setores e as páginas do Lampião se transformaram em porta-voz de inúmeros ataques ao chamado setor de "esquerda", principalmente à Facção Homossexual da CS.

Essa polarização só conseguiu ser superada, temporariamente, devido uma violenta onda de repressão, desencadeada pelo delegado Wilson Richetti, contra o gueto gay de São Paulo no final de maio.

Desde de seu surgimento o movimento já enfrentava a repressão policial. Por exemplo, entre abril e julho de 79, a polícia federal fez uma série de investidas contra o jornal Lampião e, esporadicamente, grupos de todo o país recebiam cartas ameaçadoras de "comandos de caças aos gays". Mas Richetti estava dispostos a "limpar" as ruas. E com este intuito organizou a operação "Rondão" a qual, durante dias, espancou e prendeu dezenas de homossexuais, travestis e prostitutas do centro de São Paulo.

A tremenda violência da operação vez com que amplos setores da sociedade se levantassem contra ela e uma passeata convocada pelo movimento homossexual, grupos feministas e o Movimento Negro Unificado, no dia 13 de junho, reuniu aproximadamente 1.000 pessoas, entrando para a história como a maior mobilização de homossexuais que este país já conheceu.




DISPERSÃO E O MOMENTO ATUAL


Em 1981 deveria ocorrer O II Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais, mas o grau de atrito e entre os diferentes grupos fez com que apenas acontecessem dois reduzidos encontros Regionais, um no Nordeste e outro em São Paulo.

Apesar da visível dispersão que estava ocorrendo, o SOMOS ainda chegou a alugar uma sede para as suas atividades (a primeira com este caráter no Brasil), mas problemas financeiros, aliados com os problemas políticos, fizeram com que o grupo se dispersasse definitivamente em 1983. Um ano mais tarde, o grupo Outra Coisa, formado pela dissidência do SOMOS e editores do Lampião também encerrou suas atividades. Dos principais grupos surgidos no início da década, somente o Grupo Gay da Bahia e a Ação Lésbico-Feminista conseguiram se manter ativos durante os anos 80.

Pode-se dizer que, além da polarização que surgiu dentro do movimento, diversos outros fatores contribuíram para a sua dispersão. Apesar de ser praticamente impossível determinar com exatidão as causas deste processo, é possível apontar algumas "pistas":

* os setores de classe-média da sociedade, como estudantes e profissionais liberais (entre os quais se encontrava a maioria dos integrantes do movimento) que cumpriram um papel determinante na luta contra a ditadura entre 1977 e o início da década de 80 assumiram um outro caráter a partir do poderoso ascenso operário. Os setores mais militantes do movimento, que, corretamente, viam no movimento operário a resposta estrutural para as questões relacionadas às liberdades democráticas, não souberam como combinar sua militância em torno de suas reivindicações específicas com as demais atividades. Isso acabou criando um certo "mito" de que somente "após a revolução" negros, indíos, mulheres e homossexuais poderiam conquistar o espaço que lhes cabia.

* o gradativo enfraquecimento da ditadura, e sua derrocada final em 1984, criou gigantescas ilusões democráticas entre amplos setores dos chamados setores oprimidos. Já, em 1982, a possibilidade de se apresentar pela primeira vez um candidato abertamente homossexual às eleições (pelo PT) fez com que muitos pensassem que a sociedade estava pronta para assimilar (ou no mínimo começar a dialogar com) a homossexualidade. Particularmente depois de 84, a burguesia liberal adotou uma política de "concessões" em relação aos setores oprimidos. Secretarias "especiais" de mulheres e negros surgiram em vários estados, numa tentativa de institucionalizar o movimento. Mesmo entre os homossexuais, que por razões óbvias, não receberam o mesmo tratamento, se criou a expectativa de que era possível se conquistar um espaço.

* o surgimento dos primeiros casos de Aids (denominada inicialmente de "peste gay" pela imprensa e setores conservadores) em meados da década, apesar de ter servido como estímulo para a organização de diversos pequenos grupos homossexuais, acirrou ainda mais o preconceito, deixando os homossexuais em uma situação ainda mais vulnerável.

* houve um retrocesso generalizado, mundial e contraditório, em relação aos padrões de comportamento estabelecidos "pós-68" e consolidados no Brasil no princípio da década de 1980. A geração "yuppie", símbolo da Era Reagan, nos Estados Unidos, foi emblemática neste sentido, servindo como "modelo" mundial. Esse "retrocesso" não atingiu somente os homossexuais como também marcou de forma profunda as poucas conquistas que as mulheres e a juventude em geral haviam alcançado.

Enfim, quaisquer que tenham sido as causas, o fato é que os poucos grupos que sobreviveram à década de 80, o fizeram de forma dispersa e atomizada.

Em 1993, quando da realização do 7º Encontro Nacional de Lésbicas e Homossexuais se constatou que existem aproximadamente 43 grupos atuando no país, destes 19 estiveram presentes no encontro.

Hoje, um dos grupos que possui maior projeção (nacional e internacionalmente) é o Grupo Gay da Bahia. Além do GGB, poderíamos destacar- o Coletivo de Lésbicas Feministas (SP), o Grupo de Homossexuais do PT; o Triângulo Rosa e o Atobá, 28 de junho, Auê e Agani (RJ); Amhor (PE); Dignidade (PR) e diversos outros grupos regionais, como exemplos da existência de uma atividade dispersa mas permanente.

O 7º também demonstrou que existe enormes diferenças entre estes grupos. Dois exemplos: 1. houve uma intensa polêmica para que o termo "lésbicas" pudesse ser acrescentado no nome do encontro, já que um setor se recusa a admitir que as lésbicas são duplamente oprimidas, como mulheres e homossexuais, e têm o direito de ter um tratamento diferenciado dentro do movimento; 2. durante o Encontro, uma das principais polêmicas se deu em torno da defesa ou não da "revisão constitucional". Enquanto um setor reivindicava uma campanha para incluir uma cláusula na Constituição contra a discriminação devido à orientação sexual, a maioria dos demais participantes rechaçava qualquer iniciativa dentro do processo de "revisão" por não considerá-lo legítimo.

Por outro lado, o Encontro demonstrou a existência de "vontade política" para se organizar nacionalmente. Movidos pela pressão e pelos efeitos concretos da discriminação (ver dados abaixo), gays e lésbicas de todo o país sentem que organizar-se não é apenas necessário, como também essencial.

Caberia ainda ressaltar que, em outros países, também ocorrem processos bastante semelhantes. Hoje existem grupos e organizações homossexuais em todos os países da América Latina (o que há anos atrás, seja devido o machismo mais atrasado, seja pela existência de ditaduras sangrentas e ultra-conservadoras era praticamente impossível). Nos Estados Unidos, onde o movimento homossexual continua sendo o mais organizado do planeta, há um processo extremamente contraditório. Lésbicas e Gays norte-americanos deram uma gigantesca demonstração de força realizando a maior manifestação homossexual que se têm notícia (uma passeata como aproximadamente 1 milhão de pessoas no ano passado). Mas, imediatamente depois, jogaram todas suas forças para a eleição de Bill Clinton (o primeiro candidato a presidência a buscar abertamente o apoio da comunidade homossexual), esperando profunda reformas no que diz respeito à discriminação. Ao chegar ao poder, Clinton não cumpriu sua promessa de acabar com a discriminação aos homossexuais nas Forças Armadas (responsável pela expulsão sumária de milhares de gays e lésbicas). O apoio irrestrito se transformou, em um amplo setor da comunidade, em repúdio rapidamente e diversos grupos têm radicalizado seu discurso.




O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO E A HOMOSSEXUALIDADE


Acreditamos que seja relevante fazer um breve parênteses para expor a posição dos revolucionários de Outubro de 17, em relação à homossexualidade. A posição dos bolcheviques em relação ao homossexualismo, foi expressa em um panfleto escrito pelo médico Grigori Batrkis, diretor do Instituto Moscovita de Higiene Social. Os revolucionários russos afirmavam: "a atual legislação sexual da União Soviética é obra da Revolução de Outubro. Esta Revolução é importante não somente como fenômeno político que garante o governo político da classe operária, mas também porque as revoluções que emanam desta classe chegam a todos os setores da vida (...) Declara a absoluta não interferência do Estado e da Sociedade nos assuntos sexuais, sempre que não lesem a pessoa alguma e não prejudique os interesses de ninguém (...) A respeito da homossexualidade, sodomia e outras várias formas de gratificação sexual, que na legislação européia são qualificadas de ofensas à moral pública, a legislação soviética as considera exatamente igual a qualquer outra forma da chamada relação "natural" (aspas dele). Qualquer forma de relacionamento sexual é um assunto privado. Somente quando se emprega a força ou coação, e geralmente quando se ferem ou se lesam os direitos de outra pessoas, existe motivo de perseguição criminal".

Obviamente também esta conquista da revolução foi destruída pelo stalinismo. Isto pode ser constatado, por exemplo, na edição de 1971, a Grande Enciclopédia Soviética, onde que lê: "homossexualidade é uma perversão sexual consistente em uma atração antinatural entre pessoas do mesmo sexo. Dá-se em pessoas de ambos sexos. Os estatutos penais da URSS, os países socialistas e inclusive alguns estados burgueses, punem a homossexualidade...".

Esta nefasta posição adotada pelo stalinismo teve reflexos em todo o mundo. O PC's e suas variantes condenaram e, na maioria dos casos ainda condenam, a prática da homossexualidade criando seríssimos problemas no relacionamento entre as organizações do movimento homossexual e a esquerda em geral. Cuba, com o envio sistemático de homossexuais para o trabalho forçado no campo e, mais recentemente, com a criação de verdadeiros campos de concentração para portadores de HIV, se tornou um argumento e um exemplo para que os setores mais conservadores do movimento homossexual atacassem a esquerda como um todo e os revolucionários em particular.

As organizações e partidos stalinistas brasileiras, com variações de grau e intensidade, sempre adotaram as posições clássicas do stalinismo soviético.

No início da década, Hiro Okita, entrevistou várias correntes do movimento para saber quais eram suas posições em relação ao homossexulismo. O resultou não causou surpresa:

* o MR-8, o mais ardoroso defensor de Stalin, caracterizava (e ainda o faz, mas não de forma tão contundente) o homossexualismo como "uma forma de masturbação" ou "uma doença psicológica" típica de "todas as sociedades em decadência" que não permite que o homossexuail "venha a ter uma posição de liderança na sociedade ma sociedade por seus próprios problemas".

* o dirigente do PCB entrevistado na época, apesar de destacar que pessoalmente achava que o homossexualismo era "problema deles" e não saber isso era uma doença ou não ressaltava que na "posição oficial (do partido) havia resistências". E quando questionado se os militantes do PCB que fossem homossexuais teriam o direito a se organizar dentro do partido, sua resposta foi: "O partido não admite. Ele não tem dentro dele o negro, a mulher e o homossexual em separado e sim comunistas" (!?). Obviamente de lá para cá, mesmo que timidamente, estas organizações, como também o PCdoB (que até pouco tinha como exemplo a Albânia, onde a homossexualidade "oficialmente" não existia), foram obrigadas a adaptar sua discriminação aos questionamentos cada vez mais frequentes, principalmente dentro da juventude. Mas nem isso fez com que o preconceito deixasse de ser uma de suas marcas registradas. Quem é homossexual e já militou em alguma categoria em que eles estivessem presentes sabe exatamente o que isto significa.




POR QUE UM PROGRAMA ESPECÍFICO?


Seria desnecessário dizer que um programa para qualquer setor da sociedade capitalista só pode ser pensado como parte integrante da luta pelo socialismo. Este é o primeiro e inquestionável ponto de nosso programa. Mas, da mesma forma que defendemos os sem-teto em suas ocupações, mesmo sabendo que está não será a solução definitiva para o problema de moradia, mas sim uma garantia de que ele não sofrerá ainda mais ficando abandonado ao relento, temos que dar respostas concretas e imediatas à situação dos homossexuais na sociedade.

Centralmente o que queremos é deixar claro, de forma categórica, que não há mais lugar para qualquer discurso que pregue que "negros, bichas e mulheres" terão que se submeter a "podres poderes" até que a revolução seja vitoriosa. É no dia-a-dia que sofremos com a opressão e a discriminação e, por isso, nossa luta também tem que ser cotidiana e constante. Razões para isto não faltam. Vejamos alguns exemplos:

Existência de uma ideologia homofóbica
Gays e lésbicas são constantemente vitimados pela propagação de uma ideologia anti-homossexual nos meios de comunicação. São ridicularizados nas TV's e apresentados como "doentes", "devassos" e "pervertidos" pela imprensa sensacionalista e, inclusive, pela "grande imprensa".

Além disso, instituições fundamentais do regime brasileiro, como a Igreja e o Exército, condenam a homossexualidade veementemente e pregam abertamente a "extirpação" deste "mal".

Os efeitos dessa ideologia, para as lésbicas e gays, são terríveis. Uma pesquisa realizada com 2 mil pessoas e publicada pela revista Veja, em sua edição de 12/05/93, demonstra o grau de discriminação que os vitima. Alguns exemplos:

56% mudariam sua conduta com o colega se soubessem que ele é homossexual. Um em cada cinco se afastariam.

36% deixariam de contratar um homossexual para um cargo em sua empresa, mesmo que ele fosse mais qualificado

45% trocariam de médico se descobrissem que ele é gay. O mesmo aconteceria com o dentista, que perderia metade dos clientes.

47% dos entrevistados mudariam seu voto caso fosse revelado que o seu candidato a uma eleição é homossexual.

44% acreditam que os homossexuais provocaram o aparecimento da Aids. Dois terços dos entrevistados com nível universitário discordam.

79% dos entrevistados não aceitariam que seu filho saísse com um amigo gay. No Nordeste a taxa de não aceitação pula para 87%.

Um outra pesquisa realizada recentemente com 250 clínicos gerais em S. Paulo revelou que 30% deles consideram a homossexualidade uma doença, isso quando, desde 1985, a Organização Mundial de Nacional, retirou de seu "código internacional de doenças" o artigo que qualificava o homossexualismo como uma doença.

Repressão policial e violência física

A violência anti-homossexual é pouco discutida fora dos guetos, mas para os homossexuais ela é de tal forma importante que foi um dos principais temas discutidos no 7º Encontro de Lésbicas e Homossexuais. Outro exemplo ilustrativo foi o fato de, recentemente, um homossexual brasileiro ter conseguido asilo político nos Estados Unidos alegando que corria risco de vida no Brasil devido à sua orientação sexual (este foi o primeiro caso de concessão de asilo sob este argumento nos EUA)

Uma das principais razões para que os casos de violência não venham à tona é a própria condição do homossexual. Quando espancados, gays ou lésbicas dificilmente procuram as delegacias policiais para prestar queixa, pois certamente seriam humilhados pelos policias, os quais, frequentemente, promovem violentas "batidas" nos guetos. E, nos casos de assassinatos, familiares e amigos procuram omitir a caráter sexual do crime para "preservar" a imagem da vítima.

Nos últimos anos grupos fascistóides (como os "skinheads") têm visto nos homossexuais um de seus principais alvos (depois dos negros e nordestinos) sendo vários os relatos na imprensa sobre ataques violentos e ameaças de morte (como aconteceu recentemente no Rio).

Discriminação profissional

Não somente diversas empresas se recusam a contratar homossexuais, como também, em diversos locais de trabalho eles são impedidos de ascender profissionalmente (sendo eles "assumidos" ou não). Quando não são demitidos ao decidirem assumir sua sexualidade.

Marginalidade permanente na sociedade

A não aceitação da homossexualidade implica em uma série de problemas que jamais são enfrentados pelos heterossexuais. No campo subjetivo, os homossexuais são praticamente proibidos de exercer sua afetividade de forma plena: relacionamentos "devem" ser omitidos de parentes e amigos, o carinho tem que ser limitado aos guetos e ao espaço privado, etc. A frustração causada por esta situação pode implicar nos mais diversos problemas de ordem emocional e psicológica, não sendo raro os casos de depressão e até mesmo os suicídios.

No terreno prático, a situação é grave. Casais homossexuais, mesmo quando "estáveis" são excluídos dos benefícios civis sociais conquistados pela classe operária (assistência médica para os cônjuges, direito à herança, contratos civis conjuntos, etc) e todas as facilidades que os casais heterossexuais podem obter em seus empregos.

Além disso, para gays e lésbicas a simples busca de moradia pode se tornar uma sucessão irritante de humilhações e dificuldades. E até mesmo a utilização de serviços médicos para casos que estejam diretamente vinculados ao exercício de sua atividade sexual se torna um problema.

Aids e discriminação

Os preconceitos em relação aos portadores do vírus HIV não vê fronteiras: crianças são expulsas das escolas e hostilizadas por seus vizinhos; mulheres e homens heterossexuais são abandonados por familiares e amigos, etc, etc. Mas, indenpendentemente da doença hoje atingir todos os setores da sociedade, a Aids ainda é vista como "peste gay", originada e difundida devido à "promiscuidade" e "perversão" homossexual.

No Brasil, particularmente, o número de portadores que são homossexuais ainda é majoritário. Mas, seguindo uma tendência mundial (onde os homossexuais compõem apenas 15% dos portadores), a Aids têm crescido assombrossamente entre as mulheres: em 1985 para cada 28 homens contaminados havia apenas 1 mulher; em 1994 a razão é de 5 casos entre homens para cada mulher. Isto se deve principalmente ao teor essencialemnte discriminatório e terrorista das campanhas realizadas pelo governo, sob a batuta da Igreja. Em um país onde a bissexualidade é tão difundida quanto omitida, milhares, senão milhões de homens vivem uma "dupla" existência desconhecida por suas esposas que acabam infectadas. Isso para não falar do problema em relação ao uso de drogas injetáveis (onde a Aids mais se expande).

Mas seja qual for a forma de contaminação, o fato é que, por falta de treinamento e preconceito do mais puro, os portadores são constantemente humilhados nos hospitais, condenados à morte por antecedência (já que "pecaram") e nada de concreto é feito para que lhes seja garantido o direito ao estudo, ao trabalho e mesmo à moradia digna, essenciais para que eles continuem a lutar por suas vidas.

Discriminação dentro do movimento sindical e político

Os ativistas sindicais, de esquerda e até mesmo os revolucionários não são imunes aos efeitos da ideologia homofóbica. Ativistas e militantes homossexuais dificilmente vêm espaço para assumir sua homossexualidade entre seus companheiros de militância, temendo que isso dificulte sua atuação, já que na grande maioria dos casos suas organizações ou sindicatos cedem ao atraso de consciência da população e temem que a homossexualidade dos companheiros ou companheiras prejudiquem a "imagem" da organização ou do sindicato.




ORGANIZAÇÃO É A ÚNICA SAÍDA


A tendência, provocada por esse conjunto de problemas, é o isolamento e a omissão sobre a sexualidade diante da sociedade. E para muitos a única forma de amenizar esta situação se dá através da convivência com "iguais". É isto que explica, por exemplo, a existência dos chamados "guetos gays" na maioira das cidades. Mas, se é verdade que pelo menos nestes espaços os homossexuais conseguem se expressar com um pouco mais de liberdade, também é verdade que eles são espaços "ilusórios": são constantemente atacados por policiais e grupos fascitóides, são marginalizados e, geralmente, marcados por relações sociais extremante frágeis.

A experiância histórica do movimento demonstra que não há outra saída para se conquistar um real espaço na sociedade a não ser através da auto-organização de gays e lésbicas. Foi vinculando sua luta aos demais setores oprimidos e explorados da sociedade, que os homossexuais obtiveram, no início da década, algumas poucas conquista e começaram a ser vistos na sociedade de uma forma menos preconceituosa.

Como vimos acima, somente quando os homossexuais se organizaram foi possível combater a discriminação de forma eficaz. É impossível se esperar que uma sociedade permeada de cima a baixo pela ideologia anti-homossexual seja capaz de se libertar de seus preconceitos sem uma ação contudente e organizada daqueles que são vitimados por estes preconceitos. Como também é impossível se imaginar que a discriminação e o preconceito irão acabar simplesmente através da luta específica e isolada de gays e lésbicas.




UM ESBOÇO DE PROGRAMA


1. Considerações Gerais:
O PSTU acredita que as relações sociais sob o capitalismo sempre se darão sob o mais nefasto preconceito e discriminação. Mas, assim como as mulheres e os negros, os homossexuais têm que desde já lutar, sem tréguas, para conquistar seu espaço na sociedade. Para o PSTU a luta contra a opressão homossexual não entra em choque com a luta pelo socialismo. Pelo contrário: é parte dela. Parte de um mesmo combate para construir um mundo onde os preconceitos e as discriminações sejam varridos juntamente com a exploração dos homens e mulheres pela burguesia.

Os verdadeiros revolucionários sabem que este objetivo só será alcançado caso respeitemos os setores oprimidos e suas lutas, como também acreditam que a existência de representantes desses setores em suas fileiras é mais uma garantia de que poderemos construir a sociedade com qual sonhamos e para qual lutamos.

O PSTU também acredita que somente a aliança entre os jovens e operários, como também com os demais setores oprimidos da população (negros e mulheres, por exemplo) poderá levar a cabo, de forma positiva, a luta contra a opressão, a repressão e discriminação ao homossexual. Esta aliança, no nosso entender, exclui qualquer vínculo estratégico com qualquer setor da população que não defenda os interesses da classe trabalhadora e uma saída revolucionária para a sociedade capitalista e suas nefastas formas de dominação. Contudo, em atividades de cunho democrático (como por exemplo denúncias de casos de discriminação, ações concretas contra a repressão, etc), o PSTU defende a mais ampla unidade de ação com todos os setores do movimento popular, estudantil, sindical e político.

2. Instituições, Trabalho e moradia
O PSTU luta pelo fim da discriminação e do preconceito aos homossexuais em todas as instâncias da vida social: locais de trabalho, estudo e moradia, instituições civis ou militares, sindicatos e organizações partidárias. Neste sentido o PSTU lutará:

1. pela inserção, à nível constitucional, de uma lei que se posicione claramente contra a discrimanação de qualquer pessoa devido à sua orientação sexual.

2. pela eliminação de qualquer lei trabalhista que pratique ou incentive a discriminação nos contratos de trabalho, nos regimentos internos e nas normas que orientam a admissão e promoção de profissionais

3. pela proibição de qualquer norma que restrinja o direito de livre escolha de local de moradia

4. pela extinção de normas ou regulamentos internos de qualquer instituicao, particularmente das Forças Armadas, que impeçam o livre ingresso de homossexuais devido a sua orientacao sexual.

5. pela criacão, quando necessário, de leis e normas, em todas as esferas da vida social, que garantam o combate a discriminacao por orientacao sexual e punam aqueles que a praticam.

3. Organização
A. O PSTU defende o direito de organização e expressão dos homossexuais e combaterá todo e qualquer ataque que seja feito pelo governo, seus orgãos de repressão e as instituições que lhe dão sustentação, como a Igreja e o Exército. E neste sentido defende a criação de fóruns municipais, estaduais e nacional de defesa dos direitos homossexuais, onde estes possam contar com o apoio jurídico e politíco que for necessário"

B. O PSTU não admite a discriminação aos homossexuais dentro de suas próprias fileiras e procurará desenvolver uma política de conscientização anti-discriminatória em todos os setores em que atue, seja nos sindicatos, nos organismos de base da classe operária ou nas associações civis. Neste sentido o PSTU defende e incentivará a criação de grupos e comissões de homossexuais, que reinvidiquem o partido, em suas diferentes regionais e núcleos de base.

4. Meios de Comunicação
O PSTU condena e denunciará a difusão de estereótipos anti-homossexuais nos meios de comunicação

5. Direitos e Benefícios Civis e Trabalhistas
O PSTU defende a extensão de todos benefícios sociais concedidos aos casais heterossexuais (contrato de união civil, previdência social, herança, partilha de bens, etc), aos casais homossexuais que vivam em igual situação (tempo de relacionamento, etc). Como também defende o direito a guarda dos filhos, geralmente negada pelas instituições judiciais quando se descobre que a pessoa que a está requerindo é homossexual

6. Aids e discriminação
O PSTU condena o atual tratamento dado à questão da Aids, o caráter das campanhas desenvolvidas pelo governo e, particulamente, o desprezo com os quais são tratados os portadores. Neste sentido, o PSTU defende:

1) a desvinculação da doença da orientação sexual dos portadores;
2) a realização de campanhas de educação e prevenção;
3) a destinação de mais verbas para a pesquisa e tratamento dos portadores, com ampliação das vagas, hospitais e leitos e
4) o fim da discriminação contra os portadores nos locais de estudo, trabalho e moradia.

7. Educação
O PSTU defende a inclusão da disciplina "Educação Sexual" nos currículos escolares (inclusive das universidades, e cursos orientados para a formação de professores) incluindo a discussão sobre diversidade existente quanto a orientação sexual e necessidade de respeitar a homossexualidade como sendo apenas uma dentre elas.

8. Violência e Repressão
O PSTU denunciará e exigirá a imediata punição de todo e qualquer caso de violência praticada contra homossexuais, seja por parte da polícia ou de grupos de direita. Como tambem denunciará a constante prática por parte da imprensa em vincular homossexualidade à criminalidade.



FONTES:

Dyer, Richard, "Now you see it: Studies on Gay and Lesbian Films", London, Routledge, 1990.

Lima, Delcio Monteiro, "Os homoeróticos", RJ, Francisco Alves, 1983.

MacRae, Edward, A construção da Igualdade: Identidade Sexual e Política no Brasil da "Abertura", Campinas, Editora da Unicamp, 1990.

Mantega, Guido (coord), Sexo e Poder, SP, Brasiliense, 1979

Míccolis, Leila & Daniel, Herbert, Jacarés e Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade, RJ, Achiamé, 1983

Okita, Hiro, Homossexualismo: da Opressão à Libertação, SP, Proposta Editorial, 1981.

Perlongher, Nestor, O Negócio do Michê, SP, Brasiliense, 1987

Trevisan, José Silvério, Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da Colônia à atualidade, SP, Max Limonad, 1986.


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