Rio 50 Graus, uma cidade que não seduz: repressão, remoções e falta de água e luz

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PM de Sérgio Cabral reprime em remoção feita pela prefeitura de Eduardo Paes
Foto: Mídia Informal

Sol escaldante, praias lotadas e clima geral de férias? Que nada! O verão carioca está sendo marcado por protestos populares e repressão policial

Mostrando que os ares de junho ainda estão presentes, manifestações têm ocorrido pela região metropolitana do Rio, apesar do intenso calor. Algumas são motivadas pelos problemas cotidianos que os trabalhadores do Rio de Janeiro enfrentam, como falta de água e luz ou devido às remoções da Copa e a crescente criminalização e extermínio do povo pobre e negro nas favelas.
 
De dia falta água
Já na primeira semana de 2014, no dia 4, moradores do Santo Cristo, na Zona portuária da capital, protestaram interditando ruas do bairro contra a falta de água na região. A Cedae, empresa responsável pelo fornecimento de água, responsabiliza reparos de vazamentos e remanejamento de tubulações, provocados pela derrubada do viaduto da Perimetral pelos transtornos. Já a concessionária Porto Novo, responsável pela derrubada do viaduto, afirma que as obras não têm relação com a falta de água em Santo Cristo. Faltou culparem os próprios usuários.
 
Até a grande imprensa relatou inúmeros casos de falta de água em bairros das zonas Norte e Oeste da cidade e em municípios da Região Metropolitana, como São Gonçalo e Duque de Caxias, o que provocou manifestações como na Vila Ati, no Tanque (Zona Oeste do Rio) em que moradores protestaram com baldes vazios. A Cedae negou a falta de água generalizada e informou que, nesta época do ano, o consumo aumenta cerca de 30%, acarretando muitos “problemas pontuais”. Pronto: culparam os usuários…
 
De noite falta luz
Ainda antes da virada de ano, os moradores de diversos bairros de Niterói (Icaraí, Engenho do Mato) e de São Gonçalo (Colubandê, Engenho Pequeno, Porto Novo) sofreram com problemas de falta de luz. Outras cidades também foram seriamente impactadas como Campos, Angra dos Reis, Petrópolis, Teresópolis, Araruama, Maricá e Magé.
 
Com a demora na resolução do problema, alimentos e remédios se estragaram, comerciantes ficaram de portas fechadas, e as pessoas sofriam ainda mais com o calor, já que não podiam apelar para ventiladores e aparelhos de ar-condicionado.
 
Na cidade do Rio, também ocorreram protestos contra apagões, como nas imediações da Mangueira e do Morro da Matriz, no Rio, e nos bairros do proto Novo e Engenho pequeno, em São Gonçalo, com fechamento e interrupção de tráfego em vias importantes através de barricadas de pneus e galhos de árvores.
 
Tanto a Ligh quanto a Ampla, concessionárias responsáveis pelo fornecimento de energia elétrica no estado, responsabilizaram o aumento do consumo e os temporais e ventanias pelos problemas e interrupções no fornecimento de energia. É bom frisar que a Ampla, que atende Niterói, São Gonçalo, região dos Lagos e Norte Fluminense, é a nona colocada entre as 30 empresas mais acionadas, segundo o próprio Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
 
Mangueira teu cenário é de luta
Na Mangueira, desde o dia 5, a comunidade tem enfrentado a Polícia Militar por conta de protestos contra o assassinato do jovem, Wellington Sabino. Moradores denunciam que os disparos que vitimaram Wellington foram dados por um PM.
 
No dia 7, moradores da Favela do Metrô, comunidade vizinha à Mangueira, protestaram contra as remoções. A Polícia Militar, que estava na comunidade desde cedo para impor a ordem de remoção e derrubada das moradias, reprimiu violentamente a manifestação lançando bombas de gás lacrimogêneo e agredindo inclusive grávidas, crianças e idosos.
 
Com a continuidade e o aumento da presença policial, à noite, os moradores fecharam a Radial Oeste, principal via de ligação entre o centro e a zona Norte na região. Mesmo liberada pela PM, a via foi novamente fechada por barricadas na manhã seguinte, gerando novos enfrentamentos.
 
A Favela do Metrô é uma comunidade extremamente carente, com moradias sem água e sem luz e esgoto correndo a céu aberto. Mas é caracterizada pela presença de inúmeras oficinas de automóveis. Ironicamente a prefeitura de Eduardo Paes, que prometera urbanizar a área, pretende agora derrubar tudo para fazer um estacionamento de carros para o Maracanã.
 
É interessante notar que essa semana imprensa e apoiadores do governo ficaram histéricos com a repercussão nos jornais da palavra de ordem “Não vai ter Copa”. Afirmaram como contraponto “Sim, teremos Copa” e saíram com vários artigos e matérias condenando aqueles que continuam a questionar e criticar os mandos e desmandos por trás de tudo que tem envolvido a preparação da Copa e das Olimpíadas.


 
Evidentemente, sabemos que o mais provável é que a Copa aconteça. Até porque um grande esquema midiático, policial e judiciário está sendo montando para garantir a festa da FIFA, Globo e governos. Aliás, quem coloca em risco a Copa é o próprio governo Dilma Rousseff (PT) e seus aliados que acabam de oficializar a montagem de uma tropa de choque nacional com mais de 10 mil homens para reprimir os protestos que estão previstos para a época do evento.
 
Mas, tudo isso, não impedirá que os indignados, os removidos, os barrados dessa festa saíam às ruas. A bronca com falta de água e luz em vários bairros do Rio e Grande Rio e a manifestação contra a remoção e repressão na Favela do Metrô, na Mangueira, representam a expressão viva do lema “Não vai ter Copa” que tanto amedronta os governos e as autoridades policiais.