Respeito às mães do cárcere

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Texto de Artênius Daniel, publicado na página do movimento Mães de Maio

Você é mãe. Pobre, preta, e aquela fila dura horas. Sacola de plástico com um pedaço de bolo dentro. É debaixo de sol, de chuva e da saraivada de humilhação no olhar de quem passa te olhando pela janela do ônibus. Você não tem nenhuma culpa. Você criou ele com o melhor que você podia. Ser mãe não é crime. Barraco de lona, suor condensado pingando do teto, ninguém estava lá para saber como foi. Mas você estava. Todo dia. Alimentando ele com o que você tinha e também com o que não tinha. Você botou na escola, rezou por ele e bordou uniforme. Você tem a carta de elogio da primeira professora e a foto do catecismo na igreja até hoje, amassadas na mesma gaveta. Ele é gente sim. Ele é gente e você sabe. As outras da fila também sabem. Você sabe que ele tem de pagar pelo que ele fez. Mas ele é gente. Quando a fila chega ao fim, a entrada não guarda nenhuma cortesia. Alguém te empurra, manda baixar a cabeça e andar logo. Ninguém nunca te deu bom dia naquele inferno. Aí vem a sala fechada. Um homem de cada lado. “Tira a roupa”. Você tira toda. “Abre as pernas”. Você abre. “Não tem nada escondido na buceta não?” Você nega. “Então agacha três vezes”. Você agacha. No caminho pro pátio, os corredores cheiram a bosta e mijo. Você nunca entendeu porque não limpam aquilo. Quando ele te vê, ele muda o jeito de andar e esconde o sorriso dos outros. “Oi mãe”. A voz dele é doce quando fala com você. Baixa a cabeça e pede benção, terço nas mãos, entrelaçado entre as suas. Com você ele fala do que ele tem medo. Não há tempo pra muita conversa nem pra choro. Pergunta como estão os meninos. Leva o bolo na sacola. É o favorito dele. Ele é gente sim. Na volta você traz o medo do que pode acontecer com ele. E é assim todo mês, todo ano, todo o tempo da pena que você aceita, planejando estar viva e feliz pra abraçá-lo no dia que sair. Mas chega um dia em que não há mais fila. O que há é a notícia da rebelião e o seu pânico. O que há depois disso, rapidamente na tela do seu próprio telefone, é a foto dele, bermuda rasgada, cabeça separada do corpo, circulando nos grupos de Whatsapp. O que há é algo pior do que a sua própria morte. O que há é a grade de segurança a um quarteirão de distância, a barreira policial, a fumaça dos colchões queimados no céu e uma câmera de televisão muito próxima do teu rosto, capturando o grito das suas lágrimas. O que há é a alegria mal disfarçada no olhar das mesmas pessoas que passam de ônibus, e a chegada das bacias do IML para recolher os pedaços dos corpos deles. O que há é a sua miséria ajoelhada com a cara no asfalto, rosnando sozinha e mordendo o meio fio, querendo que pelo menos não percam a cabeça dele no meio das outras. O que há é um governador dando entrevista dizendo que ele também “não era nenhum santo” antes de almoçar no melhor restaurante da cidade. O que há são milhões de pessoas que comemoram a foto dele esquartejado no Facebook e um Secretário Nacional de Juventude dizendo que deveria haver uma chacina dessas por semana, pra matar mais jovens pretos. O que há é a sua necessidade de encontrar na bolsa dinheiro trocado pra pagar o ônibus e voltar pra casa. Sozinha.