REPORTAGEM: “Com a escola ocupada, aprendi muito mais”

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Foto: Vinícius Psoa

 
Visitamos algumas escolas e constatamos o impressionante grau de organização dos alunos, com idade entre 12 e 16 anos. Em sua maioria, via-se meninas, organizando e tomando a frente das ocupações. Para entrar na Escola Estadual Diadema, esperamos mais de 15 minutos no portão, enquanto era consultada a organização sobre a nossa chegada. “Você é de que jornal?”, perguntaram. Respondemos que éramos do Opinião Socialista. A palavra “socialista” nos salvou e permitiu a entrada.
 
A estudante que nos recebeu disse que nem toda mídia estava entrando, pois alguns veículos de comunicação divulgaram que a escola Diadema tinha sido desocupada. “Isso é mentira! Vários alunos de outras escolas vieram me perguntar se tínhamos desocupado. Nós fomos a primeira. Se nós desocuparmos, vamos acabar desmotivando as outras escolas, e só iremos desocupar se ganharmos essa luta”, disse a estudante Suzam.
 
Portões com correntes e cadeados passavam o recado. “Controlamos a entrada porque tem muita gente contra nosso movimento, podem entrar e estragar tudo”, explicou Iuri. 
 
Ao passar pelo primeiro corredor, via-se pinturas e desenhos por toda a parte. Naquela mesma semana, havia acontecido uma oficina de arte. Os alunos apresentaram todo o espaço e, depois, nos levaram para a cozinha. Estavam preparando o jantar. Ao lado, uma turma tranquila jogava dominó. Mais à frente, estavam as barracas onde os alunos passam a noite.
 
Outra turma instalava um datashow para um debate sobre aborto que estava prestes a acontecer.
 
Perguntamos se podíamos entrevistar as lideranças. “Aqui somos todos iguais. Todos representamos o movimento. Claro que existem as porta-vozes, mas tudo é decidido em conjunto, qualquer um de nós que for perguntado vai saber responder”, explicou um estudante.
 
Exemplo de organização
Os alunos se organizam por comissões: segurança, limpeza, cozinha e mídia. “Decidimos tudo em assembleia. Nela debatemos as divergências e votamos. A proposta mais votada ganha”, explicam.
 
Como já estava anoitecendo, havia uma grande movimentação para o portão da escola. Era a troca de turno da comissão de segurança. Essa comissão estava preparando uma barricada no portão pela parte de dentro. “Toda noite, vem carro de polícia aqui na frente intimidar os alunos. Eles também anotam as placas dos carros que estão aqui dentro. Votamos em assembleia, vamos lutar e resistir até o fim. Nem que tenha de enfrentar a polícia”, disse Iuri.
 
Quando questionados sobre o que havia mudado após a ocupação, muitos disseram que, na escola, havia quase um regime ditatorial. Não podiam entrar de boné, não podiam entrar de camiseta regata nem fazer atividades físicas na hora do intervalo. “Hoje nós temos outra escola, hoje eu sinto prazer em vir à escola. Com a escola ocupada, eu aprendi muito mais. Todos os dias, têm palestras e aulas aqui. Teve palestra de política, filosofia, violência contra a mulher, arte”, conta um estudante.
 
Percorrendo as salas, encontramos um grupo de alunos com um professor. Ao nos aproximarmos, vimos sobre a mesa uma pasta onde estava escrito “Formatura 2015”. Mesmo sem saber se continuariam com a escola, estavam planejando a festa de formatura. “Nós não estamos apenas enfrentando a diretora, o governador Alckmin, o secretário, mas estamos em busca de um sonho, um sonho de uma escola com uma educação de qualidade, que acolha a comunidade que promova debate, que ajude a esclarecer nossos pensamentos críticos”, explicou Iuri.
 
O estudante disse que esta talvez seja uma das maiores lições que os estudantes deram quando resolveram ocupar as escolas. “Tinha amigo meu que odiava política. Depois da ocupação, participa de todos os debates, ajuda a organizar”, falou.
 
Suzam conta que uma aluna chegou a pensar em desistir, pois estava com medo de se machucar numa eventual repressão da PM. “A menina estava com medo de se machucar, com medo da polícia. Às vezes você tem que se machucar, se arriscar, correr o risco. Sabe por quê? Quando passar, você vai ficar se perguntando ‘por que eu fiquei parado?’”.
 

Originalmente publicada no jornal Opinião Socialista n° 510
 
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