Rede Globo: Um poço de hipocrisia e racismo

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Sinceramente, não me espanto com a Globo. Pra mim, até mesmo porque dedico boa parte do meu tempo para o estudo destas coisas, o fato de a Globo ser um importante instrumento na divulgação, preservação e propagação da opressão é, simplesmente, parte de seu papel social.

Como também acontece com a Arte e a Educação, os Meios de Comunicação de Massa (MCM) sempre foram utilizados pela classe dominante como aparelhos distribuidores e reguladores de seus valores e interesses. Aliás, vale lembrar que os termos são literais e estão na base do pensamento Positivista, que marcou e marca nossa intelectualidade e os que detêm os MCM.

Edgar Morin (que, depois, descambou pra qualquer canto), nos anos 1960 dizia que os meios de comunicação “são habitados pelo poder”, principalmente em função dos seus vínculos com bancos, empresas etc. – pra não mencionar igrejas e coisas afins –, através de investimentos diretos ou da dependência do mercado publicitário.

Da mesma forma, à imagem e semelhança da elite dominante, a Globo é um poço fedorento de hipocrisia. Exemplos não faltam. O babaca do diretor de jornalismo da emissora, Amir Kamel, escreveu um dos maiores lixos teóricos das últimas décadas (“Não somos racistas”, requentando o velho e nefasto mito da democracia racial para atacar as cotas e qualquer política afirmativa). Depois, ficou caladinho quando uma de suas funcionárias (a Maju) foi atacada. Agora, a Globo faz uma nojeira como esta no BBB (que, por si só, já é podre), depois de, recentemente, abrir espaço para que Taís Araújo se defendesse do ataque racista que recebeu (com termos como “cabelo esfregão” e um pedido para que ela emprestasse o cabelo para lavar louça).

Vale lembrar que Marx escreveu que as tentativas de reificação (coisificação) dos homens e mulheres escravizados constituíram uma base fundamental das ideologias racistas, criadas sob medida para justificar a escravidão e o desenvolvimento do capitalismo, desde o Mercantilismo. Despossuídos de alma (como atestou a Igreja para garantir seus interesses), negros e negras seriam objetos e produtos (para servirem como instrumentos, moeda ou pra satisfação sexual); animais (de carga, ultrassexualizados, desintelecutalizados, que poderiam ser surrados, estuprados, assassinados etc.) ou coisas que poderiam ser vendidas, compradas, emprestadas etc.. Por isso, até hoje, nosso “cabelo é de bombril”, nosso nariz é “de batata”, só somos bons para os serviços pesados ou os exercícios físicos, nossas mulheres são “potrancas” etc. etc. etc.

Daí até querer nos transformar/representar como esfregões e objetos de cama e mesa é um passo. Pra não falar em nos matar como moscas e animais de abate nas quebradas e periferias.

Na Globo (como demais emissoras), a lista de reprodução destas nojeiras não tem fim: “Sexo e as Negas” ( e todos programetes do Falabella), “Zorra Total” e outras inhacas estão aí para testemunhar. E, por isso mesmo, sempre digo para meus alunos(as) e companheiros que é preciso acompanhar a grande mídia, não com o fanatismo de um noveleiro ou para se entreter (que ninguém merece…), mas com o olhar crítico, atento às oscilações que ocorrem nos MCM, embaladas pela mobilizações na sociedade.

O que não se pode duvidar é que representação de negros e negras na TV, no cinema etc. vai continuar sendo racista enquanto houver capitalismo (basta lembrar Malcolm X); mas, também, a opressão é maior ou menor de acordo com os ritmos da luta de classes e da organização do povo. Mudanças na participação de negros(as) nas novelas, por exemplo, sempre responderam a esta lógica (quem quiser, veja o excelente “A negação do Brasil”, do Joel Zito Araújo, que destrincha este tema).

O mesmo em relação aos beijos gays (e sabemos que os lésbicos e trans são sempre mais hostilizados), o tratamento às mulheres etc. Isto só vai mudar quando os meios de comunicação saírem das mãos privadas e elitistas e forem controlados pela comunidade, pelo povo explorado e oprimido. Aliás, dentre as muitas traições vergonhosas do PT não podemos esquecer de como eles jogaram na lata do lixo toda elaboração que o movimento fez sobre Comunicação Popular no início dos anos 1980 nem a “ajudinha” que Lula deu a Globo “refinanciando” a bilionária (literalmente) dívida da emissora (com prazos e juros que só os ricos têm neste país) e destinando, até hoje, cerca de 70% da verba publicitária do governo para a emissora dos Marinhos.

Apesar de longas, vale terminar com duas citações de Paulo Freire sobre o tema, particularmente a relação entre MCMs e o poder do Capital. Em “Sobre educação (Diálogos – Volume 2)”, escrito com Sérgio Guimarães, o educador nos lembra: “Ao pensar sobre o problema dos chamados meios de comunicação, portanto, fica claro, logo assim de saída, que me sinto um homem de meu tempo. Não sou contra a televisão. Acho, porém, que é impossível pensar o problema dos meios sem pensar a questão do poder. O que vale dizer: os meios de comunicação não são bons nem ruins em si mesmos. Servindo-se de técnicas, eles são o resultado do avanço da tecnologia, são expressões da criatividade humana, da ciência desenvolvida pelo ser humano. O problema é perguntar a serviço de que e a serviço de quem os meios de comunicação se acham.”

Já em “Pedagogia da indignação”, falando especificamente do Jornalismo e do papel ideológico (no sentido de transmissão dos valores e ideias burguesas), ele acrescenta: “(…) A questão fundamental que se coloca a nós, qualquer que seja a inteligência da frase alfabetização em televisão não é lutar contra a televisão, uma luta sem sentido, mas como estimular o desenvolvimento e o pensar críticos. Como desocultar verdades escondidas, como desmitificar a farsa ideológica, espécie de arapuca atraente em que facilmente caímos. Como enfrentar o extraordinário poder da mídia, da linguagem da televisão, da sua ‘sintaxe’ que reduz a um mesmo plano o passado e o presente e sugere que o que ainda não há já está feito. Mais ainda, que diversifica temáticas no noticiário sem que haja tempo para a reflexão sobre os variados assuntos. De uma notícia sobre Miss Brasil se passa a um terremoto na China; de um escândalo envolvendo mais um banco dilapidado por diretores inescrupulosos temos cenas de um trem que descarrilou em Zurich.” (FREIRE, 2000:109)

Diante disso tudo, repudiar e protestar contra a verdadeira provocação do BBB é pouco. É preciso lutar para tomar os MCMs em nossas mãos, negras, LGBTs, femininas, exploradas e oprimidas. Essa também é uma luta que tem que ser travada com raça e classe

Veja aqui o vídeo em que este boneco aparece na cozinha http://globoplay.globo.com/v/4747640/