Quando garotos operários resolveram inventar o Heavy Metal

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Geezer Butler, Toni Iommi, Bill Ward e Ozzy Osbourne em 1970

Foi com um breve post nas redes sociais que a lendária banda Black Sabbath anunciou oficialmente o seu fim, no dia 7 de março. Terminava, assim, a história da banda que inventou um estilo que influenciaria jovens de todo o mundo e mudaria para sempre a história do rock.

No final dos anos 1960, Birmingham era um importante centro industrial da Inglaterra. Foi esse cenário cinza, entre chaminés e fuligem das fábricas, o palco para o surgimento do rock pesado. “Eu nasci e vivi, durante muitos anos, num lugar em que a vida era trabalhar, trabalhar e trabalhar, do berço à sepultura, em fábricas de chapa de aço”, resumiu Ozzy Osbourne.

Moradores de Aston, subúrbio de Birmingham, os integrantes originais do Black Sabbath reuniram-se a partir de um anúncio publicado no jornal por Ozzy procurando companheiros para formar uma banda. Ozzy era metalúrgico numa fábrica de carros, fazia bico de mecânico e chegou a trabalhar num matadouro. Já o baterista Bill Ward carregava carvão, e o então guitarrista Geezer Butler era contador.

Tony Iommi, também guitarrista, trabalhava numa fábrica, onde perdeu as pontas de dois dedos numa prensa. Deprimido, chegou a pensar em desistir da música. Ele, então, derreteu plástico e, usando um frasco de detergente, moldou dedais que substituíssem seus dedos. Inspirou-se no músico de jazz francês Django Reinhardt, que tocava com apenas três dedos, e adaptou seu jeito de tocar, que lhe garantiu um estilo único no rock.

Os garotos de Aston queriam, literalmente, fazer barulho. E o que tinha de mais barulhento nessa época era o blues redescoberto pela Inglaterra anos antes e o rock de Jimi Hendrix e bandas como os próprios Beatles. A inspiração para adotarem o “Black Sabbath” veio de um filme de terror italiano visto por Geezer. E tinha tudo a ver com o momento.

O nascimento do heavy metal
Ozzy, Iommi, Geezer e Ward não eram exatamente virtuosos. O primeiro se esganiçava no microfone com sua voz fanha. Já Iommi compensava suas limitações com riffs (frases de guitarra) tão pesados quanto criativos, como em “Paranoid” e “Iron Man”, que se alguém ouvir, mesmo que não conheça ou não goste de rock, automaticamente vai reconhecer de algum lugar. Geezer largou a guitarra para assumir o baixo, mas continuou tocando como se fosse uma guitarra, inclusive distorcendo o instrumento para desespero das gravadoras. E Ward… bem, não era mais que mediano nas baquetas.

Juntos, porém, faziam um rock sujo, pesado, soturno e original. Mas o que mais os diferenciava de outros grupos que surgiam na cena inglesa, como Led Zeppelin ou Deep Purple? Justamente a atmosfera sombria que recobria o grupo, presente nas letras. A ideia era ser um contraponto aos hippies e às músicas otimistas e românticas de outros grupos de rock. Era, tão somente, expressar a dura realidade da classe operária.

“Só se falava em flower power (poder das flores) e pensamento positivo, que o mundo era tão legal, mas o mundo nem sempre é ensolarado”, resumiu Ozzy. “Então, nós decidimos tomar o ângulo oposto da onda flower power”. Isso se concretizava em temas como ocultismo, terror, ficção científica ou o discurso abertamente político como na música antiguerra “War Pigs”, lançada em plena guerra do Vietnã.

Tony Iommi define assim a diferença do Sabbath para as outras bandas: “Éramos classificados como os mais pesados, os mais sinistros, uma banda de downer rock (rock ‘pra baixo’) da classe trabalhadora”.

Último show, em fevereiro desse ano.

Do estrelato ao fim
A banda foi recusada por 14 gravadoras antes de assinar com o selo Vertigo, da Phillips. Praticamente todos os primeiros álbuns foram rechaçados pela crítica, enquanto angariavam milhões de fãs ao redor do mundo. As brigas com as gravadoras e produtores tornaram-se frequentes diante da recusa em esterilizar seu som.

No decorrer dos anos 1970, a banda conheceu o paraíso da fama e do dinheiro, e o inferno das crises com as drogas, depressão e tudo o que vem junto com a máquina de moer da indústria fonográfica. Ozzy foi demitido em 1979 por seus problemas com álcool e drogas, e a banda passou por um périplo de vocalistas, sendo o primeiro o não menos lendário James Dio.

Dezenove discos depois, o Black Sabbath em sua formação original, à exceção de Ward, finalmente se despede. O show derradeiro ocorreu em fevereiro desse ano, na mesma Birmingham que aqueles quatro garotos da classe operária se reuniram 50 atrás para inventar o heavy metal.