Posição do PSTU sobre os acordos de Heloísa Helena com o PSDB em Alagoas

110
Heloísa Helena e Julio Cézar do PSDB

As fotos divulgadas nas redes sociais na última semana deixaram muitos perplexos. Heloísa Helena, uma das principais referências políticas do PSOL, sorrindo de mãos dadas a Júlio César, candidato do PSDB ao governo do estado de Alagoas. Afinal, estas alianças que Heloísa Helena está construindo em Alagoas são coerentes com o compromisso de construir uma campanha a serviço da luta dos trabalhadores e trabalhadoras?  Estas atitudes do PSOL são coerentes com o compromisso de lutar pelo socialismo e a construção de um projeto que enfrente o capitalismo?

Heloísa Helena, candidata ao senado pela Frente de Esquerda, é uma das maiores figuras da esquerda nacional e símbolo da luta contra a direita e contra os usineiros de Alagoas. Sua candidatura ao Senado representava uma esperança e uma possibilidade frente à candidatura de Fernando Collor, favorita até o momento.

Porém, nos últimos dias, Heloísa começou a campanha recebendo apoio de figuras da política alagoana historicamente alinhadas aos usineiros: primeiro foi Adriano Soares, ex-secretário de Educação do governo tucano e notabilizado pelo escândalo em que tratou manifestantes no 11 de Julho com termos de baixo calão. Em seguida, foi Alexandre Toledo (PSB), candidato a vice-governador pela chapa de Benedito de Lira (PP). Por fim, o próprio governador Teotonio Vilela e todo o seu partido, PSDB, grandes responsáveis pelos últimos anos de caos social no estado, decidiram declarar apoio à candidatura de Heloísa ao senado. Lamentavelmente, não houve da parte da candidata a negativa a este apoio e a necessária demarcação política. O que houve foram demonstrações públicas de afeto e compromisso frente a este apoio, com foto divulgada em redes sociais, onde Heloísa está de braços dados com Júlio César, candidato a governo do PSDB.

 
Esta atitude é um desrespeito com os trabalhadores e trabalhadoras que depositaram sua confiança na Frente de Esquerda e na possibilidade de candidaturas independentes. Sem sombra de dúvidas é muito importante derrotar Collor eleitoralmente na disputa ao senado. Mas a que preço? Ao preço de se aliar aos usineiros e ao PSDB? Heloísa Helena embarca de mala e cuia no vale tudo para garantir sua eleição e abandona o campo político que estávamos construindo.
 
Heloísa Helena está rompendo com a Frente de Esquerda e com tudo aquilo que serviu de base para a sua construção. Abraça os setores reacionários do estado em nome de um projeto particular, abandonando um projeto coletivo extremamente importante para Alagoas. Abre mão da independência política tão cara à Frente. Heloísa rompe até mesmo com definições estabelecidas dentro de seu próprio partido. Quem será seu candidato a governador? Júlio César (PSDB) ou Mário Agra (PSOL)? Em quem votará para presidente? Em Luciana Genro (Psol) ou em Marina Silva (PSB)?
 
Por tudo isto, declaramos que nos retiramos da campanha de Heloísa Helena para o Senado até que ela reveja estas posições e desfaça estes acordos com o PSDB. De outra forma, não faremos mais campanha para sua candidatura ao Senado, porque estas alianças rompem o acordo que fizemos na Frente de Esquerda.
 
O PSTU seguirá construindo a candidatura de Mário Agra neste momento. Seguiremos na Frente de Esquerda e respeitando suas definições: Heloísa Helena e o PSOL farão o mesmo?
 
Frente à tragédia do PT, que agora é aliado incondicional de figuras políticas como Collor e Renan Calheiros, e os usineiros, o nome de Mário Agra é uma alternativa política. Porém, este apoio não é uma carta branca para que o PSOL tome as atitudes que bem entende. Chamamos o PSOL, Mário Agra e sua militância a se oporem a esta atitude de Heloísa Helena. Chamamos o PSOL a se pronunciar sobre esses acordos. Queremos saber: qual é a posição do PSOL sobre as atitudes de Heloísa? Vai exigir conosco que Heloísa cumpra os acordos da Frente? Que rompa com o PSDB e construa a candidatura que o povo de Alagoas precisa: a candidatura independente e capaz de derrotar Collor, mas sem nenhuma aliança com os usineiros de Alagoas.
 
Reafirmamos nosso compromisso com as lutadoras e lutadores do nosso estado. Não vamos romper com as ideias que acreditamos e defendemos em nome do vale tudo eleitoral.
 
O programa da frente de esquerda em alagoas defende a independência de classe
Em alguns estados o PSTU e o PSOL estabeleceram acordos que tornaram possível a existência de uma unidade nas eleições e a conformação de Frentes de Esquerda. Apesar das divergências, foi possível chegar a definições e critérios estaduais que viabilizaram em determinados locais estas unidades. Estes acordos estiveram centrados basicamente na garantia de independência de classe, ou seja, sem nenhuma relação política com os partidos da direita e sem receber nenhum apoio financeiro ou material dos empresários e poderosos.
 
Em Alagoas ao se constituir a Frente de Esquerda foi redigido um manifesto para apresentar nossas principais ideias a sociedade e ao mesmo tempo tornar público os compromissos firmados. Afirmamos categoricamente que nenhuma das alternativas do empresariado do estado seria alternativa para mudar Alagoas: “Não existe uma nova via para Alagoas tendo estas pessoas participando. Eles apresentam o mesmo programa que sempre governou Alagoas, são todos exploradores da classe trabalhadora alagoana e verdadeiros ‘experts’ em rapinar o estado“.
 
Encerramos a nota reafirmando esta ideia e deixando claro que montamos a Frente de Esquerda justamente por não depositar nenhuma esperança nas alternativas políticas que surgiam tendo como representação os usineiros e os megaempresários, as pessoas que destruíram nosso estado e tornaram Alagoas um dos maiores símbolos da miséria nacional: “A Frente de Esquerda nestas eleições será a resposta mais contundente para os partidos dos usineiros e a tragédia do PT. Iremos romper a falsa polarização que existe entre estes grupos. Na prática, estes projetos representam a mesma coisa(…) A Frente de Esquerda comprometida com a construção de um governo dos trabalhadores é a alternativa política (…)”. A nota deixa claro que a necessidade de oferecer aos trabalhadores uma alternativa independente nas eleições, sem relação política e econômica com os usineiros e seus partidos, era a própria raiz de constituição da Frente.  
 
O PSOL segue os caminhos do PT
A foto de Heloísa Helena com o PSDB lembra as alianças de Randolfe Rodrigues e Clécio, no Amapá, com partidos de direita como o DEM e o PTB e o recente caso de financiamento privado de campanha por parte da candidatura de Roberto Robaína no Rio Grande do Sul.
 
O PSOL mostra, com esse fato, o problema embutido na construção de uma organização de tendências. Enquanto a militância mais aguerrida deste partido luta por uma concepção de esquerda, define seus candidatos em seus congressos e tenta estabelecer uma identidade política, suas principais figuras públicas embarcam em projetos pessoais e fazem o que querem com suas candidaturas. Se Randolfe Rodrigues faz acordos com setores da direita tradicional do estado do Amapá, Heloísa estabelece acordo com os usineiros que o próprio PSOL faz oposição em Alagoas. Tampouco a chamada esquerda do PSOL pode ser acusada de coerência, visto que no Rio Grande do Sul recebe dinheiro do grupo Zaffari e rompe com o compromisso de não receber dinheiro de empresários como financiamento de campanha. O PSOL repete os mesmos erros históricos do PT e trilha infelizmente o mesmo caminho deste partido, inclusive de maneira mais veloz. Não é possível se apresentar como uma alternativa aos trabalhadores desta forma.