PMDB: Os ratos abandonam o navio pra voltar depois

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Reunião relâmpago anuncia saída do governo
Foto Agência Brasil

Fora todos eles! Fora PT, PSDB, PMDB e esse Congresso Nacional corrupto

Nesta terça-feira, 29, o PMDB finalmente oficializou o seu desembarque do governo Dilma. No circo armado para anunciar a decisão que já havia sido tomada pela direção do partido, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), aliado de primeira hora do governo do PT e duas vezes ministro nos governos Lula e Dilma, declarou solenemente a ruptura. Assim, em menos de três minutos, o PMDB dava por encerrada uma aliança de mais de 12 anos com o governo petista aos gritos de “Fora Dilma, fora PT” e “Brasil pra frente, Temer presidente”. Um nojo.

O vice-presidente Michel Temer e o presidente do Senado, Renan Calheiros, não compareceram a tal da reunião. O primeiro para se resguardar e não dar tanto na cara que já ensaia sentar na cadeira de Dilma. O segundo porque ainda apoia a presidente, mesmo que não de forma explícita neste momento em que o governo Dilma se desmorona. A moção aprovada pelo partido prevê a entrega de todos os cargos ocupados no Governo Federal, algo que, calcula-se, soma 700 cargos incluindo os seis ministérios que ainda tinha em mãos após a entrega da pasta dos Transportes por Henrique Alves na véspera.

Por enquanto, apesar da decisão do partido, os ministros continuam lá. O PMDB possui os ministérios da Agricultura, da Saúde, Ciência e Tecnologia, Minas e Energia, Aviação Civil e Portos. A ruralista Kátia Abreu já avisou que eles todos ficam no governo.

Os ratos abandonaram o navio?
O espetáculo grotesco armado pelo PMDB chegou a chocar tamanho cinismo e hipocrisia deste partido que é sinônimo de fisiologismo e corrupção. A expressão sorridente de Eduardo Cunha à frente da mesa no ato é o retrato acabado disso. Um notório corrupto que, enquanto você lê este texto, deveria estar preso, mas que está à frente da Câmara dos Deputados, manobrando como pode seu processo no Conselho de Ética, e articulando pessoalmente a posse de seu aliado Temer. Com a maior desfaçatez do mundo, fingem que não tem nada com esse governo e essa crise.

A verdade, porém, é que PT e PMDB se sustentaram mutuamente por mais de uma década e ambos são responsáveis por essa crise e toda a política implementada pelo governo do PT nesses anos. O PMDB, intrinsecamente fisiológico, não sabe viver longe do poder e todas as vantagens que isso garante. O PT aproveitou isso para consolidar sua base no Congresso no velho esquema do toma-lá-cá. Com o afundamento do governo Dilma, o PMDB abandona provisoriamente os cargos para retomá-los mais tarde em melhores condições. Os ratos abandonam o navio, mas mantém uma das patinhas no convés pra pular de volta.

Temer, junto com o PSDB de Aécio, já articula seu eventual governo, e cogita-se inclusive a volta de Henrique Meirelles, o banqueiro do Banco de Boston que o PT colocou no Banco Central. O vice-presidente faz um périplo pelo país defendendo seu projeto de governo, o denominado “Ponte para o futuro” que nada mais é que a continuidade da atual política econômica, com o avanço das privatizações, reforma da Previdência e prioridade absoluta do ajuste fiscal.

O governo Dilma, por sua vez, que vem pagando o preço daquilo que plantou, cava ainda mais fundo o buraco no qual se meteu. Aprofunda o fisiologismo e, para garantir os votos que salvariam Dilma no processo de impeachment, planeja redistribuir os cargos entregues pelo PMDB a partidos como o PP de Maluf e o PR (a sigla que se originou da fusão entre o PL de Valdemar da Costa Neto, preso no mensalão, e o Prona do finado Eneas). Além disso, vai lotear cargos de segundo e terceiro escalão para partidos como Pros, PHS, PEN, PTdoB, PSL e PTN. Para se ter uma ideia, cogita-se a entrega do Ministério da Saúde ao PP, justo num momento em que o país vive um surto de dengue, zika vírus e microcefalia.

Quem é Michel Temer?
Apontado como “conciliador”, um eufemismo para fisiológico, Michel Temer é um político que cresceu nas sombras, esgueirando-se de cargo em cargo como a grande maioria dos parlamentares que rastejam no chamado “baixo clero”. Foi duas vezes presidente da Câmara nos anos FHC. No início do primeiro mandato de Lula chegou a perder parte de seu poder e influência, mas logo após o escândalo do mensalão foi alçado novamente pelo próprio PT e assumiu a presidência da Câmara pela terceira vez através de um acordo com o partido.

Assim como os colegas de partido Eduardo Cunha e Renan Calheiros, o “discreto” Michel Temer também coleciona inúmeras denúncias de corrupção. Em 2009 foi envolvido na Operação Castelo de Areia da Polícia Federal que investigava corrupção na empreiteira Camargo Correa. No ano seguinte, Temer ficou enrolado na Operação Caixa de Pandora que investigou o chamado “mensalão do DEM” operado pelo então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

E como não poderia deixar de ser, Temer também aparece na Operação Lava Jato, delatado pelo senador Delcídio do Amaral que o acusa de ter indicado dois nomes à diretoria da Petrobrás para fazer parte do esquema do “petrolão”.

Resumindo: O vice-presidente Michel Temer é mais um representante profissional da burguesia, defende um projeto de governo ultraliberal (que é basicamente fazer pior o que o governo já vem fazendo) e carrega uma invejável ficha corrida. Neste momento, esforça-se para se mostrar confiável à burguesia e ao sistema financeiro para trazer de volta uma estabilidade política cada vez mais comprometida.

Resta saber se um nome desacreditado de um partido afundado em escândalos que é o PMDB, e ainda alinhado a Eduardo Cunha, teria legitimidade perante as massas de assumir o lugar de Dilma e impor o ajuste fiscal que o PT não vem conseguindo. Parece mais certa a advertência do senador petista Humberto Costa, ao afirmar a Temer que, no caso de impeachment de Dilma, “vossa excelência será o próximo a cair”.

Fora todos eles
O show de hipocrisia demonstrado pelo PMDB só é superado pelo próprio governo do PT. Trata-se de uma disputa por cima para ver quem gerencia o governo numa conjuntura de grave crise econômica, e quem tem as melhores condições para implementar um duro ajuste fiscal. Não existe, nesse quadro, qualquer tipo de “mal menor”. A única opção, para os trabalhadores e o povo pobre desse país, é se mobilizar para colocar todos eles pra fora.

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