Para além do filme Era o Hotel Cambridge

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Há filmes que passam por nossas vidas sem deixar qualquer marca, como se fossem apenas carros rápidos e bonitos que atravessam nossos olhos em instantes, mas dificilmente lembraremos de sua placa ou de seu motorista. Nos deixam uma sensação de satisfação no momento em que assistimos, como um simples entretenimento. Mas são incapazes de significar algo em nossas vidas. Um filme médio, ou até ruim, é aquele que, após seu término, sentimos que poderíamos ter feito outra coisa.

Mas o filme “Era o Hotel Cambridge” está longe disso. Na verdade, é completamente oposto ao citado acima. Ele é marcante, belo cinematográfica e socialmente. Sua abordagem, simples, mas sem cair nos horrendos estereótipos do cinema comercial, faz com que seu término seja apenas o início de uma reflexão que todos aqueles que desejam mudar a sociedade deveriam se fazer pelo menos uma vez na vida: onde estão os setores mais oprimidos da sociedade?

A resposta, e sendo bem sincero, é uma. Os setores mais oprimidos na sociedade, ou seja, negros e negras, LGBTTs, mulheres e imigrantes estão nos postos de trabalho mais precários, tendo sua força de trabalho superexplorada, resultando numa condição de vida marcada pela luta constante pelo direito de existir.

Um direito que constantemente é negado aos LGBTTs, quando são expulsos de seus lares e obrigados a enfrentar empregos precários onde são invisibilizados; direito negado às mulheres, que são proibidas pelo Estado burguês de decidirem sobre seu próprio corpo, mas obrigadas a acumular jornadas de trabalho não remunerados como o trabalho doméstico; direito negado aos negros e negras, que quando não morrem pelas balas da polícia racista enfrentam as quilométricas filas do desemprego; direito negado aos imigrantes, que mesmo distantes de suas famílias, de sua terra natal, muitas vezes expulsos de seus países por conta de uma invasão racista – como no caso de Israel que invadiu a Palestina e extermina sua população – ainda são alvos de ataques de grupos xenófobos e racistas a céu aberto numa das principais avenidas do país.

Hotel Cambridge: da especulação à ocupação
O filme narra os dias anteriores a uma reintegração de posse na Ocupação Hotel Cambridge, e como os moradores, nordestinos e imigrantes, encontram no cotidiano força para continuarem a reivindicar um direito que deveria ser de todos: moradia digna.

O Hotel Cambridge, fundado na década de 1950, foi um hotel de luxo reconhecido por hospedar diversos artistas internacionais, entre eles, Nat King Cole. No ano de 2004, fechou suas portas tornando-se mais um prédio, entre vários, abandonado no centro da cidade. Foram oito anos de portas fechadas para as pessoas, juntando lixo e empoçando água. Uma situação que aos olhos da especulação imobiliária é indiferente. Seu abandono terminou em 2012, quando foi ocupado por trabalhadores sem teto, que de forma coletiva limparam todo o prédio, tornando-o novamente habitável.

Uma rotina em todas as ocupações, que após anos de abandono dos prédios e dos grandes terrenos, onde nem o governo e nem a Justiça se importam se aquele local que não está sendo usado e se encontra em completo abandono poderia ser usado para suprir uma necessidade vital, que é a garantia a uma casa digna para os trabalhadores.

Com a ocupação, o Hotel Cambridge toma vida. Respira o ar do cotidiano de trabalhadores que lutam por sua sobrevivência diariamente. Na rotina da ocupação há os problemas dos conflitos entre vizinhos, mas também há espaço para poesia e teatro. Cada um tem sua função dentro da ocupação, onde todos têm os mesmos direitos. Mas uma notícia ruim ameaçaria tudo isso. A notícia de reintegração de posse, que para esses trabalhadores seria sinônimo de um aviso que o Estado tentaria destruir uma parte de suas vidas.

Na assembleia que informou sobre a reintegração de posse que seria em alguns dias, os ocupantes se veem numa discussão sobre quem tem direitos, imigrantes ou nordestinos. Carmen Silva (que interpreta a si mesma), coordenadora do movimento FLM, intervém afirmando “Brasileiro, estrangeiro… somos todos refugiados, refugiados da falta dos nossos direitos”. Essa afirmação era o que daria o tom em todo o filme.

A possibilidade de perderem seus lares, fez com que a consciência de que se se dividissem só teriam a perder. A Justiça, que no filme podemos facilmente interpretar como o Estado, não iria de forma alguma recuar da expulsão dos trabalhadores do prédio. Usaria, como sempre faz, a repressão policial para fazer de um prédio cheio de trabalhadores voltar a ser um local abandonado.

E a compreensão disso fez com que nordestinos e imigrantes se unissem, tanto para realizar uma nova ocupação em solidariedade a outros trabalhadores sem teto, tanto para se protegerem da violência policial, que jogava bombas de gás indiscriminadamente contra quem apenas tinha sonhos para lutar.

Em cada ocupação há um quilombo
A situação dos refugiados no Brasil é constantemente abordada no filme. Com narrativas marcantes, cenas que chocam até os espíritos mais duros. Uma delas, que talvez é um dos momentos mais revoltantes e tristes do filme, foi quando um dos ocupantes ao ler o vlog da Ocupação, que havia acabado de postar vídeos dos moradores, leu os comentários. Insultos racistas, xenófobos, de ódio a nordestinos e imigrantes enchiam o site. Cada frase absurda lida, era como se uma parte nossa estivesse sendo atacada. A cada xingamento, a foto de um trabalhador nordestino ou imigrante era exposta, vendo que os alvos do ódio e discriminação além de classe tinham uma raça, negra e árabe.

Um dos personagens do filme, Issam, palestino e refugiado no Brasil, nos comove ao relatar a situação de seu povo que barbaramente é exterminada por um Estado invasor. Israel invadiu seu país com tanques, armas modernas, batalhões munidos com fuzis, sob a justificativa de conter aqueles que apenas em suas mãos portavam pedras. A lucidez do personagem em relatar isso, nos leva até à sua crítica à ideia de que deve haver dois estados na região quando ele afirma “Israel nunca aceitaria isso”. Ele foi expulso de sua casa por um país racista, que desde sua origem vem cumprindo um papel de eliminação racial na região, e ao vir para o Brasil estaria prestes a novamente ser expulso de seu lar.

A narrativa de outros personagens, como um congolês que denuncia a situação de invasão militar em seu país, para o saque de minérios, nos faz questionar sobre a necessidade da unificação das lutas dos trabalhadores de todos os países. Não tem como esquecer que o Brasil, até dezembro de 2016, participava da MONUSCO (força militar da ONU de invasão ao Congo), cujo comandante brasileiro da época, Carlos Alberto dos Santos Cruz, recentemente foi nomeado à Secretaria Nacional de Segurança Pública por Eliseu Padilha.

A ocupação no filme era dirigida por uma mulher negra, reproduzindo fielmente a realidade de diversas ocupações espalhadas pelo país. Para ser morador era necessário contribuir com algo na vida coletiva, compreendendo que nenhum direito individual está acima da luta da classe.

Em uma das cenas do filme, quando os moradores fazem uma nova ocupação, a primeira tarefa era organizar o espaço, garantindo iluminação e limpeza. Uma das personagens, em forma de brincadeira, colocou “cansei de ser faxineira do governo”, apontando que prédios abandonados tinham tratamento totalmente desleixado por parte do Estado, e somente após a ocupação, esses espaços passavam a serem limpos.

A cena final, com o processo de reintegração de posse sendo realizado, derruba lágrimas de ódio de qualquer um que assistir. Mas esse ódio é diferente. É um ódio de raça e classe por compreender que cada passo que o Choque dava à frente, era um trabalhador negro e árabe tratados como alvo.

Sem dúvida alguma, o filme deve ser assistido por todos aqueles que fazem de seu dia-a-dia uma luta incansável para mudar a sociedade, onde nenhum imigrante seja tratado como ilegal, onde nenhum nordestino seja alvo de ataques racistas, onde o direito à moradia digna venha junto com a derrubada de nossos algozes. Somente organizando os de baixo, imigrantes e nordestinos, é possível fazer de cada ocupação um quilombo. E juntos derrubarmos os de cima, representados pela Casa-Grande e seus capitães do mato.

Vale a pena assistir “Era o Hotel Cambridge”!