Panteras Negras: Cronologia comentada (1965 – 1968)

1829

Para que se entenda melhor o contexto em que o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa (BPP, na sigla em inglês) surgiu e se desenvolveu, bem como os debates que estamos abordando nos demais artigos deste Especial, faremos uma cronologia comentada, dividida em duas partes.

Nessa primeira, iremos nos deter no período entre o surgimento do BPP e 1968, quando, no mesmo momento em que estava chegando ao auge de sua influência, o movimento começou a enfrentar uma feroz perseguição por parte do governo norte-americano – através de uma guerra suja movida pela Agência Central de Inteligência (CIA) e o Bureau Federal de Investigações (FBI) –, o que em muito contribuiu para sua dispersão na década seguinte.

Desde já, contudo, recomendamos a leitura do artigo seguinte, em que falaremos um pouco de Emory Douglas, autor da maioria das ilustrações e das fabulosas capas do “The Black Panther”, o jornal do BPP, que servirão para ilustrar principalmente a próxima parte da cronologia.

1962
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Huey Newton e Bobby Seale se encontraram quando estudavam na Faculdade Merritt, em Oakland (Califórnia) e passaram a atuar num grupo negro culturalista chamado Associação Afro-Americana.

1966
17 de março: A polícia interrompe, de forma violenta, uma apresentação de poesias que Bobby Seale, Huey P. Newton e Gerald Horton (Rafeeq Naji) faziam numa esquina das ruas de Berkeley. Os três são detidos e posteriormente liberados.

1966_young-stokely-sncc-1966Maio: Stokely Carmichael que, como vimos, está nas raízes tanto da pantera negra como símbolo do movimento quanto na popularização da ideia de Black Power, é eleito presidente do Comitê de Coordenação dos Estudantes Não Violentos (SNCC).

1966_jun-11-1966-march-naacp11 de junho: A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, uma das organizações mais tradicionais do movimento norte-americano, fundada em 1909) realiza protestos nas cidades de Birmingham e Pittsburgh contra o persistente racismo na indústria do aço. O protesto é significativo em relação às mudanças e debates que estavam ocorrendo tanto no interior do movimento negro quanto na sociedade de conjunto. O Decreto de Direitos Civis que havia sido aprovado em 1964, como resultado das mobilizações da “Era Luther King”, proibiam a discriminação nos locais de trabalho por motivo de raça, sexo, religião ou nacionalidade. Contudo, pouquíssimo havia mudado. Negros e negras continuavam segregados, ocupando os piores postos e, inclusive, sem acesso aos processos que poderiam resultar em promoções (em muitas indústrias, somente brancos poderiam concorrer aos cargos de supervisão). Na ocasião, o NAACP entregou um dossiê denunciando 200 destes casos. Sintoma tanto dos limites dos direitos civis conquistados durante as lutas da década anterior quanto de uma aproximação das questões de raça e classe, os protestos da NAACP não foram os únicos no período. Durante os meses de junho e julho, explodiram atos contra a violência policial em 43 cidades norte-americanas, como Washington D.C. (a capital do país), Baltimore, Atlanta e Detroit. Mais de 3,5 mil pessoas são presas e sete são mortas.

1966_aug-31-1966-desegregate13 de agosto: Assim como continuava uma norma nos locais de trabalho, a segregação racial também persistia no sistema educacional, dez anos depois da aprovação, em 1954, da resolução da Suprema Corte que havia declarado a prática inconstitucional. Na Lei dos Direitos Civis, aprovada em 1964, foi incluído um artigo que condicionava o financiamento federal dos distritos escolares à integração racial, mas só em 1966, o Ministério da Educação passou a exigir que os distritos segregados enviassem planos de integração ao governo federal. No estado do Alabama, um decreto proposto pelo governador e supremacista branco George Wallace, proibindo que os distritos escolares negociassem a desagregação com o governo federal, foi aprovado quase por unanimidade pela Assembleia Legislativa. São fatos como estes que, às vésperas da fundação dos Panteras Negras, intensificam a percepção, principalmente entre os mais jovens, de que é preciso fazer avançar os métodos de organização e luta.

12 de setembro: Na cidade de Grenada, no Mississipi, estado vizinho ao Alabama, a segregação nas escolas continuava intacta, o que obrigou um juiz federal a impor, em agosto, a matrícula de 450 estudantes negros(as) para o ano letivo que teria início no dia 2 de setembro. A administração escolar suspendeu o início das aulas por dez dias enquanto patrulhas da Ku Klux Klan (KKK) e de supremacistas intimidavam famílias, com despejos e incêndios criminosos, o que fez com que 200 estudantes cancelassem suas matrículas. No dia 12, os demais 250 foram recebidos por uma multidão de brancos que os perseguiram pelas ruas espancando-os com correntes, canos e pedaços de madeira. Os poucos que conseguiram entrar foram emboscados e gravemente feridos. Apesar da intervenção federal, apenas 13 racistas foram detidos.

1966_grenada27 de setembro: Protestos varrem as ruas de San Francisco depois que o jovem Matthew Johnson, de 16 anos, é morto por policiais. O governador da Califórnia, Pat Brown, impõe a lei marcial e ocupa as ruas com tropas e tanques da Guarda Nacional. A violenta repressão entrou para a história como a Rebelião de Hunters Point.

1966_hunters-point-rebellion-27-set-196615 de outubro: Huey Newton e Bobby Seale fundam o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa (BPP). Juntamente com David Hilliard, eles escrevem um esboço da estrutura organizativa do Partido e daquilo que viria a ser conhecido como o “Programa dos 10 pontos”, em que sintetizavam a plataforma política do grupo.

1966-black-panther-party-platform-and-programDezembro: Bobby Hutton, com pouco menos de 16 anos, transforma-se no primeiro jovem “recrutado” pelo BPP, assumindo, depois, a função de Tesoureiro da organização.

 

1967

1967_black-panther-party-oakland-california1° de janeiro: Seale, Newton e Bobby Hutton abrem a primeira sede do BPP, em Oakland, na Califórnia. O local passa a abrigar reuniões semanais e cursos de formação política. No mesmo mês, Kenny Freeman e Roy Ballard começam a organizar a seção dos Panteras Negras no Norte da Califórnia, em San Francisco.

1967_huey-newton_setembro-de-1967Fevereiro: Eldridge Cleaver, antigo companheiro de Malcolm X e recém saído da prisão, se aproxima do grupo no qual, em breve, se tornaria um dos principais dirigentes, assumindo o posto de ministro da Informação e, mais tarde (como exilado em Cuba e na Argélia), responsável pela Seção Internacional dos Panteras Negras. Do seu primeiro encontro, resulta uma das fotos mais famosas de Huey P. Newton (sentando numa enorme cadeira, com armas em punho, numa referência evidente aos líderes ancestrais africanos) que seria publicada na revista Ramparts (em setembro de 1967), para a qual Eldridge Cleaver estava trabalhando e onde publicou uma série de ensaios depois agrupados no livro “Soul on Ice” (espírito no gelo). Cleaver também foi o responsável pela contratação do BPP para fazer a escolta armada de Betty Shabazz, a viúva de Malcolm X, durante uma série de palestras que ela fez na Califórnia para marcar o segundo ano de seu assassinato.

15 de abril: Os Panteras cumprem papel determinante na construção da Frente que realizou um protesto contra a Guerra do Vietnã com cerca de 400 mil pessoas no Central Park e na frente do prédio das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque. Neste mes1967_frase-muhammad-alimo momento, o campeão de box Muhammad Ali estava sendo perseguido e sofrendo punições por ter se recusado a se alistar no exército norte-americano e uma declaração dada por ele à imprensa tornara-se a palavra de ordem dos negros contra a guerra:1967_anti-war-protesters-gather-at-united-nationsNenhum vietcongue jamais me chamou de “nigger” (algo como crioulo, sendo a forma mais racista de se dirigir a um negro). Por que eu lutaria contra ele?”.


1967_black-panther-newspaper-first-issue25 de abril
:
É lançada a primeira edição do The Black Panther, o jornal oficial dos Panteras Negras. Em seu subtítulo original, o jornal dizia a que vinha: “um serviço de notícias para a comunidade negra”. Os dados são imprecisos, mas indicam que entre os anos 1969 e 1970, era vendida uma média de 200 mil exemplares semanais do jornal.

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2 de maio: O BPP transforma sua primeira grande aparição pública em um episódio político de enorme impacto. Em protesto contra a tentativa de se aprovar uma nova legislação no estado que proibiria o porte de armas em público, os militantes do grupo marcham, armados até os dentes, diante da sede do governo da Califórnia. Bobby Seale e 26 outros Panteras são presos e o episódio se transforma num marco definitivo na trajetória do grupo. A repressão policial literalmente saiu pela culatra, impulsionando o surgimento de grupos e sedes dos Panteras em outros estados. O ato atingiu o objetivo que Huey havia previsto dias antes: “Nós vamos para o Capitólio (…) eles estão tentando passar uma lei contra nossas armas (…). Vamos pegar os melhores Panteras (…) com nossas armas e forças (…) e vamos ler uma mensagem para o mundo, porque a imprensa sempre estará por lá. Eles vão ouvir a mensagem e eles provavelmente vão detoná-la para todo o país. Eu sei, eu sei que eles irão espalhá-la através da Califórnia. Nós temos que enviar uma mensagem para o povo”.

22 de maio: Huey Newton atende ao chamado de um morador que reclamava de um policial que havia invadido sua casa sem um mandato e é preso ao exigir que o policial saísse. Bobby tenta pagar a fiança de Newton e também acaba preso em base a uma lei do século 19 que impedia que pessoas portassem armas perto de cadeias.

1967_tampa-florida-jun-11-1967-111 de junho: Na cidade de Tampa, na Florida, o jovem de 19 anos Martin Chambers é assassinado por um policial. Chambers, que estava desarmado, foi baleado pelas costas e, segundo testemunhas, estava contra a parede, com as mãos para a cima. O assassinato dá origem a uma onda de protestos que sacode a cidade por três dias, com saques e incêndios nas lojas do centro. O policial Calvert, responsável pelo assassinato covarde, foi declarado inocente.

28 de junho: A Assembleia Legislativa do estado da Califórnia aprova a Lei Mulford, que tinha sido alvo do protesto dos Panteras no mês anterior. A lei proíbe o porte de armas de fogo em qualquer lugar público ou rua. Evidentemente, a lei transforma as patrulhas armadas dos Panteras em ações criminosas.

1968_outubro-1219 de outubro: O jornal The Black Panther estampa a manchete “A luta pela libertação negra mostra progresso”, trazendo uma declaração de Mao Tse Tung.

1967_free-huey-rally-196828 de outubro: Um confronto com os Panteras, em Oakland (Califórnia), resulta na morte do policial John Frey. Huey Newton, que também saiu ferido, é indiciado por assassinato em primeiro grau, tentativa de homocídio e sequestro. Eldridge Cleaver lança o movimento “Free Huey” (Libertem Huey) que se estenderia pelos anos seguintes, ganhando proporções nacionais e sendo abraçada por vários outros setores do movimento. Neste processo, os Panteras se aproximam cada vez mais de entidades e ativistas dos movimentos antiguerra (do Vietnã), sindical, feminista, LGBT, popular etc., além de partidos políticos e organizações de esquerda (maoístas, socialistas, castristas, stalinistas e outras variantes). Na medida em que os contatos e ações conjuntas avançavam, intensificavam-se, no interior do BPP, os debates sobre as alianças que deveriam ou não feitas, os limites do racialismo e da consequente negação da unidade com brancos e brancas, as distintas perspectivas socialistas e revolucionárias etc. O próprio Huey sintetizou a importância e abrangência da campanha: “‘Libertem Huey Newton!’ não é um apelo à misericórdia, não é um recurso legal. É um desafio à morte do imperialismo e do racismo nos Estados Unidos, que se tornou um grito de batalha estrondoso dos afro-americanos e dos povos e combatentes da África, da Ásia e da América Latina, que se reuniram em uma batalha histórica e decisiva”.

1967_luther-king-10-3030 de outubro: Martin Luther King Jr. e o reverendo Ralph Abernathy cumprem pena de cinco dias in Birmingham (Alabama). Os dois dirigentes dos movimentos pelos direitos civis haviam estado à frente dos protestos ocorridos na cidade em 1963, que resultaram em um violento confronto com a polícia. Na época, ficaram detidos por uma semana e foram libertados sob fiança. Num ato de intimidação e provocação, King e Abernathy foram detidos novamente em 1967 para cumpriu os cinco dias restantes da pena.

Final de 1967: Um dos militantes que estreita suas relações com o BPP em função da campanha “Free Huey” é Stokely Carmichael, ex-presidente do Comitê Coordenador dos Estudantes Não Violentos e conhecido por ter lançado, um ano antes, a palavra de ordem Black Power. Em 1968, Carmichael passaria a assumir a função de primeiro-ministro dos Panteras Negras, ou seja, seu principal dirigente, o que intensificou o debate no interior do BPP, pois como já vimos, Carmichael era um dos principais defensores de um racialismo radical. Uma posição que ele reafirmou categoricamente na época, rejeitando alianças com brancos(as).

1967_whats-a-pig_december-2020 de dezembro: Uma ilustração de Emory Douglas publicada no jornal do BPP pergunta: “O que é um porco (policial, como os Panteras popularizaram)?”: “Uma fera de baixo nível que não tem respeito pela lei, pela justiça ou pelos direitos do povo, uma criatura que morde a mão que a alimenta, um transgressor perverso e depravado, comumente encontrado disfarçado como a vítima de um ataque não provocado”.

1968
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Ao lado, um pôster produzido pelo cubano Lázaro Abreu para a Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL) a partir de ilustrações feitas por Emory Douglas.

1968_bpp-leitura-do-livro-de-maoJaneiro: Os Panteras passam a vender o Livro Vermelho de Mao Tse Tung, principalmente nas universidades, para financiar seus projetos, incluso a compra de armas. Nos meses seguintes, a leitura do livro passa a ser exigida como parte da militância no grupo (na foto, um grupo de estudos na Califórnia). O BPP abre sua sede no sul da Califórnia.

1968_april-17-1976-coninterpol16 de janeiro: A polícia de San Francisco invade, sem mandado ou autorização legal, o apartamento em que Eldridge Cleaver e sua companheira Kathleen moravam. No dia 25 de fevereiro, Bobby Seale e sua companheira, Artie, são presos em seu apartamento, também invadido ilegalmente. As ações são algumas das primeiras do Programa de Contrainteligência (COINTELPRO) lançado pelo famigerado diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que, em setembro, descreveria o BPP como “a maior ameaça à segurança do país”, pois teriam sido “educados na ideologia marxista-leninista e pelos ensinamentos do líder comunista chinês Mao Tse-tung. Seus membros têm perpetrado inúmeros ataques a policiais e se envolveram em violentos confrontos com a polícia em todo o país. Os líderes e representantes do Partido dos Panteras Negras em todo os Estados Unidos pregam o evangelho do ódio e da violência, não só para moradores do gueto, mas também para os estudantes em faculdades, universidades e escolas de ensino médio”. A ilustração de Emory Douglas mostra, em 1976, alguns dos muitos Panteras que foram mortos pela operação.

1968_cointelpro_incentivando-a-discordia4 de março: Um memorando do FBI assinado por Hoover dá o tom da campanha: “Previnam a coalizão dos grupos militantes nacionalistas negros. Na unidade está a força (…) os grupos nacionalistas negros devem ser o primeiro passo em direção a um verdadeiro ‘Mau Mau’ [uma referência à revolta anti-imperialista iniciada em 1952 no Quênia]. Impeçam o surgimento de um Messias negro que iria unificar e eletrificar o movimento nacionalista negro”. A charge ilustra uma das táticas utilizadas pelo FBI: a promoção de atritos entre os próprios Panteras, alimentados geralmente por uma rede impressionante de agentes infiltrados no interior da organização e demais movimentos sociais e organizações políticas da época.

1968_brown_berets116 de março: A conferência nacional do Peace & Freedom Party (PFP, Partido da Paz e da Liberdade) anuncia uma coalizão com os Panteras Negras que resultará, nos anos seguintes, na indicação de vários de seus dirigentes (principalmente os que estavam presos) como candidatos às eleições. O PFP, que continua ativo, foi fundado em junho de 1967, como uma ruptura com o Partido Democrático, principalmente em função da Guerra do Vietnã, e sua plataforma política é sintetizada na frase que o identifica desde sua origem: “comprometido com o socialismo, a democracia, a ecologia, o feminismo e a igualdade racial”. A aliança eleitoral com o PFP era um dos exemplos de como os Panteras estavam intensificando sua aproximação e as alianças com uma série de agrupamentos e organizações com as quais irá 1968_yellow_perilfazer várias atividades nos próximos anos, como “Brown Berets” (ou “Boinas Café ou Marrons”. Na imagem abaixo, uma organização de chicanos, como se identificavam os latinos, que mantinha estreitas semelhanças com o BPP), movimentos sindicais, feministas, LGBTs, o Movimento Indígena Americano (AIM), o Young Puerto Rican Brothers (Jovens Irmãos porto-riquenhos), o Young Lords (um grupo pró independência de Porto Rico), dentre outros. Na foto, um movimento organizado por jovens asiáticos (que passaram a ser conhecidos como “perigo amarelo”) participam da campanha.

1968_martin-luther-baleado4 de abril: Martin Luther King Jr. é assassinado em Memphis (Tennessee). King estava na cidade para participar de atividades na greve (iniciada no dia 12 de fevereiro) pelos trabalhadores negros do serviço sanitário em protesto contra as péssimas condições de trabalho e o racismo. A aproximação de Luther King com o movimento operário era evidente e intensa. No dia 18 de março, ele havia falado para uma assembleia com 15 mil trabalhadores. Dez dias depois, em outro protesto também organizado por ele, um trabalhador havia sido assassinado pela polícia e uma nova manifestação estava convocada para o dia 8 de abril. No dia 3 de abril, Luther King desafiou a ameaça de que uma bomba havia sido instalada no avião e viajou novamente para Memphis. Às 7h05 da manhã, Martin Luther King Jr. foi

fatalmente baleado quando estava na varanda do hotel. Ele tinha apenas 39 anos. Protestos varreram os Estados Unidos e os olhos do mundo se voltaram para o racismo nos Estados Unidos. O porta-voz de uma era e do pacificismo no combate ao racismo foi violentamente silenciado poucas horas depois de ter pronunciado um discurso em que falava exatamente da continuidade da luta após a sua morte: “Que despertemos nesta noite com uma prontidão ainda maior. Ergamo-nos com uma determinação ainda maior. E que ataquemos de frente estes dias poderosos, estes dias marcados pelo desafio de transformar a América no que ela deve ser. Temos a oportunidade de fazer da América uma nação melhor. (…) Bem, eu não sei o que virá agora. Teremos dias difíceis pela frente. Mas isso não importa para mim agora porque eu subi ao topo da montanha. Não me importo mais. Como qualquer pessoa, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade é boa. Mas não estou mais preocupado com isso agora. Quero apenas cumprir a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E lá de cima eu enxerguei. Eu enxerguei a Terra Prometida. É provável que eu não entre lá com vocês. Mas quero que vocês saibam esta noite que nós, como um povo, chegaremos à Terra Prometida. Por isso, estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem! Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor!”

1968_bobby-hutton-emory-douglas6 de abril: Bobby Hutton, o primeiro filiado ao BPP, então com 17 anos, é assassinado pela polícia de Oakland. Os policiais incendiaram sua casa, forçando sua saída. Hutton estava despido e saiu com as mãos na cabeça. Mesmo assim, foi fuzilado com 17 tiros. Na mesma ação, Cleaver é ferido e volta a ser preso, por violação da condicional. Sete outros Panteras também são detidos. No dia 12 de abril, cerca de 3 mil pessoas acompanharam o funeral de Bobby, em um ato que contou com discursos de dirigentes do BPP, como Kathleen Cleaver e Bobby Seale, de diversas entidades dos movimentos e, inclusive, do ator Marlon Brando, o que é exemplar do impacto que teve. Emory Douglas imortalizou Bobby em uma de suas mais famosas ilustrações.

1968_eldridge-cleaver-for-president-poster-196815 de julho: Começa o julgamento de Huey P. Newton. Cerca de 10 mil pessoas se reúnem nas escadarias do tribunal de Oakland, na Califórnia. Nos meses anteriores, a campanha havia ganhando dimensões internacionais.
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3 de agosto: Eldridge Cleaver é nomeado candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido da Paz e da Liberdade. É uma espécie de anticandidatura, já que Cleaver, além de já ter sido condenado e preso, ainda não tinha 35 anos como era exigido pela legislação norte-americana. Além do enorme impacto político, a candidatura de Cleaver obteve cerca de 110 mil votos, um número extremamente expressivo. Além dele, dezenas de outros militantes dos Panteras concorreram às eleições locais, como Kathleen Cleaver e, inclusive, Huey P. Newton que, de dentro da cadeia, conseguiu cerca de 12 mil votos (abaixo, os materiais de campanha).

5 de agosto: Três Panteras são assassinados pela polícia nas ruas de Los Angeles. Vinte dias depois, outros três militantes têm o mesmo destino. Estas últimas mortes coincidem com a abertura da Convenção Nacional do Partido Democrático, em Chicago, que, refletindo a enorme polarização que varria o país, se transformou em palco para quatro dias de intensos protestos contra a Guerra do Vietnã e outras mazelas do sistema.

10 de agosto: A sede do BPP de Oakland é invadida pela polícia.

1968_eldridge-cleaver-berkeley-photo-courtesy-of-jeffrey-blankfort-1024x67411 de setembro: Estudantes da Universidade de Berkeley (Califórnia) protagonizam uma série de protestos antirracistas. No início do mês, George Murray, um Pantera que lecionava na Universidade Estadual de San Francisco foi exonerado, o que levou a Associação de Estudantes Negros da instituição a convocar uma greve. No dia 11, por pressão do movimento, a Universidade de Berkeley convida Eldridge Cleaver para ministrar palestras. O então governador Ronald Reagan se recusa a pagar pelo curso e o senado estadual ameaça bloquear o orçamento da universidade para o ano seguinte caso Cleaver não seja imediatamente demitido. Os estudantes saem em protesto em defesa de Cleaver (na foto, Cleaver durante um ato).

28 de setembro: Huey Newton é sentenciado de dois a 25 anos de cadeia. David Hilliard assume a direção nacional dos Panteras Negras. No dia seguinte, o policial de San Francisco Michael O’Brien assassinou o Pantera Otis Baskett. De acordo com testemunhas, O’Brien estava usando um adesivo com os dizeres “Gás para Huey” (a resposta dos racistas à campanha “Free Huey”, exigindo que ele fosse condenado à morte na câmara de gás).

1968_panteras_1968_olimpiadas16 de outubro: Os corredores Tommie Smith e John Carlos ficam, respectivamente, em primeiro e terceiro lugar na corrida dos 200 metros livres nas Olimpíadas do México. Na cerimônia de premiação, enquanto o hino norte-americano estava acompanhando o hasteamento da bandeira, Smith e Carlos abaixaram suas cabeças e ergueram os punhos em demonstração de orgulho negro, Black Power e protesto contra o racismo. Ambos estavam sem calçados, usando apenas meias pretas, uma forma, segundo declararam, de representar a pobreza da população negra nos EUA. A ousada e belíssima demonstração também foi apoiada pelo corredor que recebeu a medalha de prata, o australiano Peter Norman, que subiu ao pódio com um adesivo do Projeto Olímpico por Direitos Humanos que, na época, defendia o boicote a competições que ocorressem em países que promoviam a segregação racial, como EUA e a África do Sul. Dois dias depois do episódio, Tommie Smith e John Carlos foram sumária e humilhantemente expulsos da Vila Olímpica e continuaram sofrendo perseguições até o final das suas carreiras, tendo, contudo, imortalizado suas imagens na história da luta contra o racismo.

Outubro: Os Panteras Negras aprovam uma série de resoluções que resultam em novo foco programático do grupo intitulado “Servir ao povo” e incluem ações como o café da manhã para crianças, a abertura de escolas e clínicas. Milhares de jovens atendem ao chamado por voluntários feito no jornal e, no final de 1969, o serviço de café da manhã já funcionava em 19 cidades, atendendo cerca de 20 mil crianças.

4 de novembro: O Pantera Negra Raymond Johnson Jr. sequestra um avião durante uma viagem entre Nova Orleans e Miami e o desvia para Cuba, onde se exila por 18 anos (em 1986, ele regressou aos EUA e assumiu a culpa pelo sequestro).

24 de novembro: Eldridge Cleaver, ameaçado de ser novamente preso, e sua companheira Kathleen Cleaver fogem dos EUA. Primeiro, exilam-se em Cuba e, depois de uma passagem por Paris, estabelecem-se na Argélia. Na foto de 1969, Kathleen e Eldridge, já na Argélia, posam diante do cartaz do FBI.

1968_a-member-of-the-black-panther-party-sells-the-oakland-1970No final de 1968, o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa já havia fincado sedes em 45 cidades do país, principalmente em importantes capitais e centros urbanos como Atlanta, Baltimore, Boston, Chicago, Cleveland, Dallas, Denver, Detroit, Kansas City, Los Angeles, Newark, New Orleans, New York City, Omaha, Philadelphia, Pittsburgh, San Diego, San Francisco, Seattle, Toledo e Washington D.C. Sua militância, calcula-se, chegava a mais de 5 mil membros (e a tendência ao crescimento pelo fato de que, dois anos depois, apesar da intensa perseguição), 7 mil negros e negras declaravam-se como militantes orgânicos dos Panteras. Na foto, um piquete do jornal.


Por Wilson Honório da Silva, da Secretaria Nacional de Formação do PSTU


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