Paixões, privatizações e patrimônios do povo

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No que convencionou-se chamar de  jornadas de junho ficava evidente a relação entre futebol e protestos e caía por terra a tese utilizada abertamente pelo senso comum estabelecido pela mídia de que o brasileiro só se preocupa com o futebol. Enquanto o espetáculo era exibido para o mundo inteiro dentro das quatro linhas, uma parcela significativa da população dava o verdadeiro show lá fora, o show da participação política e do questionamento ao Estado.
 
A empolgação era grande, chegou-se aos brados de “o gigante acordou”, porém, ignorar que a atmosfera de descontentamento com o governo neoliberal do PT e o desgoverno do PMDB no Rio de Janeiro já vinha sendo demonstrado antes, é ser simplório. Por conta da Copa milhares de famílias foram desalojadas e realocadas pelo país. No Rio de Janeiro se removeu mais do que no famoso “Bota Baixo” de Pereira Passos no início do século XX. Patrimônios públicos e históricos dos municípios foram derrubados na surdina para virar estacionamento, tudo para satisfazer o interesse das empreitaras e das grandes empresas envolvidas no planejamento da Copa do Mundo 2014 e também – no caso do Rio – das Olimpíadas de 2016.
 
Antes já acontecia o protesto na frente do Maracanã em defesa da escola José Friedenreich, pela preservação do Centro de Treinamento Célia de Barros e principalmente pela manutenção do Museu do Índio. Ali se seguiram cenas de truculência policial, prisões arbitrárias e já se previa a tônica do que seria o comportamento das autoridades brasileiras em relação à proteção do evento (Copa das Confederações), que tinha o propósito de mostrar a cara do Brasil para o mundo.
 
O que se imaginava seria que no momento que a amarelinha entrasse em campo, no momento em que o hino tocasse, o brasileiro movido pela sua paixão pelas quatro linhas, pelos dribles desconcertantes e pelo jeito moleque, fosse seduzido e, mais uma vez, guiado para frente da TV, que esquecesse seus descontentamentos como em um momento de transe para ver a seleção brasileira passar.
 
Mas não foi isso que aconteceu. Perderam a mão no chicote, bateram mais do que podiam bater, mexeram com paixões que envolviam diretamente o futebol. Lembro dos jornalistas esportivos dizendo “mataram o meu Maracanã”. Enquanto a Rede Globo mostrava a “belezura” que tinha ficado o novo Maracanã, a mídia alternativa e alguns programas de TV que não tiveram como esconder a realidade das ruas mostravam como o Consórcio envolvendo a Odbrecht e Eike Batista se beneficiavam de uma licitação fraudulenta, escusa e de cartas marcadas.
 
Ficava evidente que depois de mais de R$ 1 bilhão gastos pelo Estado para reconstruir o Maracanã, ignorando liminares do Ministério Público para a preservação das marquises, colocando máquinas de madrugada para burlar os manifestantes, esse estádio, patrimônio do carioca, seria entregue de mão beijada para a iniciativa privada. O estádio não seria mais do carioca, seria do Eike!
 
O que o governador do Rio de Janeiro e o prefeito não entendiam era que o Maracanã não é só mais um estádio qualquer, ele é parte da identidade do sujeito carioca, está ao lado do pão-de-açúcar e do Cristo Redentor. Gerações e mais gerações se construíram naquelas arquibancadas nos últimos 60 anos, e assim, de repente, aquela sua segunda casa (ás vezes a primeira) é desconfigurada e entregue nas mãos de um grupo qualquer, grupo que não está nem um pouco preocupado com os interesses dos torcedores, o que fica evidente com o altíssimo preço dos ingressos nos últimos meses.
 
O que se viu durante a Copa das Confederações foi uma convulsão social. Seguiu-se o descontentamento com o aumento da passagem, somou-se ao momento de intensa cobertura pela mídia internacional (o que atava o governo brasileiro de certa maneira) e o descontentamento com a maneira como a Copa do Mundo vem sendo conduzida no Brasil.
Milhares nas ruas exigindo “escolas  padrão Fifa”, bradando que “professor é melhor que Neymar”, gritando o “Maraca é nosso!” E ainda, dentro do estádio, durante a abertura da Copa das Confederações, o protesto que rodou o mundo: dois manifestantes ergueram uma faixa dizendo: “Imediata anulação da privatização do Maracanã”.
 
Agora, em outubro, com o consórcio ainda controlando o estádio, pode parecer que não existiram vitórias, mas elas existiram e foram importantes. O processo de licitação foi extremamente vigiado, o que evitou fraudes e uma alteração dos valores que beneficiaria ainda mais as partes envolvidas. Além disso, a manutenção do Centro de Treinamento Célia de Barros, da escola José Friedenreich e o constante questionamento acerca do Museu do Índio impediram que o plano original das empreiteiras se consumasse, o que diminui a margem de lucros e torna a administração do estádio um problema para o consórcio, em longo prazo.
 
É dessa força que o Brasil precisa agora. A mesma forma que fomos às ruas lutar contra a entrega do patrimônio do povo para a iniciativa privada, da mesma forma que defendemos o Maracanã, o Museu do Índio e a Escola J.F, nós devemos ir mais uma vez juntos para a rua lutar por um patrimônio do povo brasileiro. A Petrobrás, empresa brasileira que é fruto de uma campanha do povo brasileiro na década de 50, intitulada “O Petróleo é nosso”, descobriu um dos maiores campos de petróleo do mundo. E nesse achado, configurado como pré-sal, o Brasil tem em suas mãos uma riqueza inestimável, um recurso energético e estratégico que se explorado pelo Brasil traria ganhos enormes para a nossa população.
 
Mas o que está se vendo é a entrega descarada do pré-sal para a iniciativa privada e para as grande multinacionais. No próximo dia 21 de Outubro vai acontecer o Leilão do Campo de Libra. Esse campo tem um valor estimado em 1,5 trilhão de dólares, mas será leiloado pelo governo brasileiro por 15 bilhão de dólares, quase mil vezes menos!! Para termos uma ideia da importância deste campo, ele tem a capacidade de produzir cerca de 12 bilhões de barris de petróleo. Esta quantia é maior do que a Petrobrás – a quarta maior empresa de exploração de petróleo do mundo – produziu em toda a sua existência!
 
Isso é uma afronta aos interesses do povo brasileiro, uma entrega vil, um crime contra o nosso patrimônio. Devemos ir mais uma vez para as ruas junto com a classe dos petroleiros e lutar para que esse recurso seja explorado por uma empresa brasileira e 100% Estatal. Para que essa riqueza fique no Brasil e beneficie diretamente o povo brasileiro. Meus caros, mostremos nossas garras, ergamos nossas faixas, unamos nossas vozes mais uma vez, e façamos do Campo de Libra o nosso Maracanã!