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Selvageria e retrocesso: estudante é agredida em São Paulo por usar minissaia



Luciana Candido
da redação
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• Às vezes nos deparamos com algumas situações tão absurdas que temos de parar e ter certeza de que estamos vendo mesmo aquilo. No dia 22, uma aluna da Universidade Bandeirante (Uniban), do campus de São Bernardo do Campo (SP), região do ABC, foi à aula com um vestido curto. Nada demais. Mas, em pleno século 21, isso bastou para que centenas de alunos a perseguissem pelos corredores feito selvagens.

Aos gritos de “Puta! Puta!”, a aluna era perseguida. Alguns gritavam, outros escalavam as paredes para espiar a estudante pela janela da sala onde ela teve de se trancar. Celulares nas mãos, muitos fotografavam e filmavam a cena. O material, evidentemente, foi parar na rede. Os vídeos publicados no YouTube atingiram dezenas de milhares de acessos.

Da sala de aula, a jovem só saiu escoltada pela Polícia Militar, que foi chamada para conter o tumulto. Para conseguir ir embora, teve de vestir um jaleco. Barbárie é pouco.









Reportagem feita pelo iGTV

Segundo a reportagem do site G1, a PM teria informado que a jovem “foi à faculdade ‘em trajes inapropriados’”. Já a universidade disse que vai abrir sindicância para apurar o ocorrido.

Em nota, a instituição diz que “Alunos, professores, seguranças e também a aluna estão sendo ouvidos individualmente pela universidade, que pretende aplicar medidas disciplinares aos causadores do tumulto, conforme o seu regimento interno, respeitando-se o contraditório e a ampla defesa”. Será que o “traje inapropriado” será considerado um atenuante nesse caso?

Sim, é violência!
Como bichos, os alunos foram saindo das salas de aula e cercando a estudante. As ofensas morais, os gritos de “puta” e “vagabunda” foram descendo de nível – se é que isso é imaginável – até chegar a ameaças de estupro. Estudantes que presenciaram a cena dizem que os bárbaros também gritavam que iam “comer” a jovem.

A universidade diz, na mesma nota, que isso não ocorreu, porque “ não houve qualquer contato físico nem perseguição à aluna. O que houve foram manifestações verbais de caráter ofensivo”. O que aconteceu foi o que, então, se não perseguição? E olhar para uma garota e dizer “eu vou te comer” não é ameaça de estupro?

É deprimente, ao assistir aos vídeos, ver que não eram só homens que perseguiam a aluna. Muitas estudantes mulheres compunham a horda de bárbaros. Essas mesmas mulheres já devem ter ouvido coisas semelhantes em algum momento da vida. São vítimas da própria opressão que reproduziram neste episódio.

O que é apropriado?
As mesmas pessoas que condenaram o estilo de vestir da estudante, que o classificaram como “inapropriado” ou roupa de “puta” não se levantam contra a mercantilização da mulher. A transformação da mulher em mercadoria se dá todos os dias na mídia, em mulheres seminuas, mulheres-frutas e outras aberrações criadas pela sociedade para ter mais um produto à venda.

O comportamento destes estudantes não é apenas antiquado. Isso seria o menos pior. É, principalmente, expressão do mais vil preconceito. É a decadência da sociedade capitalista exposta em sua forma mais grotesca.

O apropriado num caso como este seria a punição exemplar aos selvagens que criaram o tumulto, que ofenderam e violentaram – mesmo que verbalmente – a jovem. Mas parece que a punida será ela. É possível que a estudante nunca mais use seu vestido curto, que as revistas e a televisão tanto disseram que estava na moda. É possível que não vá mais às aulas por constrangimento (até ontem, ela não havia voltado à Uniban). É possível que carregue esta história como um trauma.

Também somos vítimas todas as mulheres, inclusive as que legitimaram a violência no episódio da Uniban. Nem mesmo a punição específica neste caso é capaz de apagar a hipocrisia da sociedade.

O fato é que enquanto não se coibir a propagação impune da ideologia do preconceito e enquanto mulheres continuarem sendo vendidas e expostas como pedaços de carne num açougue, os homens vão se sentir no direito de possuí-las, de comprá-las. Afinal, o capitalismo precisa disso para sobreviver. E precisa também da divisão entre homens e mulheres, para que eles não se unam e não se voltem contra o próprio sistema. Se isso acontecesse, aí sim poderíamos vislumbrar um outro tipo de sociedade com homens e mulheres não animalizados como os que vimos na Uniban.


Mostramos este vídeo a várias pessoas. Todas ficaram chocadas e custaram a acreditar. Todas questionaram se o fato teria realmente ocorrido.


[ 30/10/2009 11:32:00 ]

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