Ocupações feitas por estudantes em escolas de SP mostram resistência heróica

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Nas últimas semanas, a luta dos estudantes secundaristas contra o projeto de reorganização das escolas estaduais tomou uma nova forma. No dia 9 de novembro, alunos ocuparam a E. E. Diadema e passaram a tomar conta da escola, que está ocupada até hoje. Depois disso, o número de ocupações feitas por estudantes cresceu em uma velocidade extraordinária, já são mais de 200 escolas ocupadas no estado. Isso mostra o enorme descontentamento da comunidade estudantil com o projeto de reorganização criado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), que tem como base a separação de ciclos entre as escolas e o fechamento de 94 escolas, o que irá provocar a transferência forçada de mais de 300 mil alunos.

Não à reorganização escolar! Projeto de precarização do ensino visa cortar gastos
Esse projeto de reorganização está sendo lançado com o pretexto de que existem muitas “vagas ociosas” na rede estadual. Ao invés de abrir salas com um número menor de alunos, o que é o básico para se tentar melhorar a educação pública, o governo decidiu fechar salas e escolas, e retirar dos alunos o direito de escolher aonde estudar. Essas medidas irão causar a demissão de vários professores, superlotação de salas e piorar o acesso aos estudos, principalmente para os alunos que trabalham.

O governo ainda está ignorando completamente o elemento humano, como o apego que a comunidade desenvolve com determinada escola, a história dessa escola e a relação dos professores e funcionários com o bairro. No fundo, é tudo parte de um grande plano de desinvestimento na educação pública e em outros setores básicos da sociedade para cortar gastos com o povo e continuar repassando o dinheiro público para a mão de banqueiros e empresários nessa época de crise.

Dilma corta 10 bilhões da educação, Alckmin fecha escolas e Cunha quer reduzir a maioridade penal!
Esse projeto de reorganização é apenas a forma que o governo do PSDB em São Paulo encontrou para repassar para a educação o ajuste que está sendo aplicado pelo governo federal. Não podemos nos iludir achando que o governo Dilma está ao lado dos trabalhadores e dos estudantes pobres. Esse governo mostrou que também é nosso inimigo, ao cortar mais de R$ 7 bilhões da educação e aplicar diversas medidas que atacam os explorados.

Enquanto Alckmin e Dilma cortam dinheiro das áreas sociais e fecham escolas, Eduardo Cunha, corrupto e preconceituoso, tenta aprovar a redução da maioridade penal para encarcerar a juventude negra e pobre. Mais uma demonstração de que nem o PSDB de Geraldo Alckmin, nem o PT de Dilma e nem o PMDB de Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) estão dispostos a aplicar políticas que beneficiem a classe trabalhadora e a juventude pobre. Todos eles são aliados dos ricos banqueiros e empresários, e por isso estão tomando medidas para jogar a crise nas costas dos trabalhadores Ao contrário do que tentam nos convencer, o país não é formado por cidadãos com direitos e oportunidades iguais. Na verdade, a nossa sociedade é formada pela grande maioria de trabalhadores, os de baixo, que são explorados e sofrem inúmeros ataques dos ricos e dos governos, e uma minoria que está por cima, e que explora nosso trabalho e garante seus privilégios. Por isso chegou a hora de organizar os de baixo para derrubar os de cima e gritar em alto e bom som: Basta! Dilma, Alckmin, Aécio e Cunha são inimigos da juventude!

Secundaristas tomam conta das escolas
Com um grande apoio da comunidade, os estudantes secundaristas estão mostrando que não irão aceitar serem tratados como números, e nem que sua educação seja tratada como prejuízo.

Dentro das escolas, estão se organizando para garantir a limpeza e a alimentação de todos que a estão ocupando, e estão promovendo diversas atividades culturais, como saraus, debates e apresentações musicais. Por exemplo, a E. E. Martín Egidio Damy recebeu palestras sobre jornalismo independente, sobre a greve dos petroleiros e a união das lutas dos trabalhadores e estudantes.

Por meio de assembleias que acontecem todos os dias, os estudantes tomam todas as decisões sobre o que será feito na ocupação. Os alunos estão mostrando que são fortes, muito fortes. E estão provando que, apesar do desprezo e do preconceito geracional que eles sofrem dos velhos burocratas do governo e da burguesia, os secundaristas sabem se organizar, e cuidar muito bem de suas escolas.

Mesmo com a repressão policial e as tentativas da secretaria da educação de manipulação, que têm como objetivo desarticular o movimento (como a proposta de suspensão temporária da reorganização por apenas dez dias para que esta seja debatida com a população), os estudantes deixaram bem claro que não serão enganados e irão desocupar as escolas apenas quando a reorganização do ensino no estado de São Paulo for definitivamente cancelada.

Democracia já! Eleição direta para diretores de escola e diretorias de ensino!
Esse projeto de reorganização escolar foi elaborado sem nenhum tipo de consulta à comunidade. Pais, alunos e professores ficaram sabendo que suas escolas seriam reorganizadas em 2016 por meio da imprensa, apenas em setembro. A divulgação tardia do projeto, faltando apenas três meses para o final das aulas, foi uma manobra do governo para tentar fazer com que a população aceitasse calada a reorganização das escolas. Porém, os estudantes estão dando uma verdadeira aula de lutas, em um processo de mobilizações incrível e sem precedentes.

Hoje, não se exerce a gestão democrática das escolas prevista na LDB (lei de diretrizes e bases da educação). A maioria dos diretores de escola e de ensino são cargos de confiança indicados pela própria secretaria de educação. Essa é uma enorme falta de democracia, que precisa ser revertida exigindo-se eleições diretas para tais cargos, além do fim do projeto de reorganização. Assim como os alunos estão mostrando que sabem cuidar de suas escolas, a comunidade escolar também tem toda a capacidade de escolher seus representantes e administrar a gestão escolar com muito mais competência do que os burocratas da secretaria da educação!

Boicote ao SARESP
Os estudantes deram mais uma demonstração de luta ao boicotar a prova do SARESP em várias escolas. Essa prova consiste em uma avaliação do conteúdo de matemática e português do 3° ano do ensino médio e do 9° ano do ensino fundamental, que deveria servir para medir a qualidade do ensino no estado. O problema é que o governo vincula um bônus salarial para os professores das escolas que atingem uma meta estabelecida pela secretaria da educação, e as escolas com maiores notas são também as que recebem mais investimentos.

Ou seja, o SARESP serve para vincular um direito básico dos professores, o aumento de salário, a uma prova de desempenho dos alunos. E além disso, a lógica do governo é punir as escolas que têm as piores notas, com o corte de investimentos. Se o governo estivesse minimamente interessado em melhorar a educação pública no Estado, aumentaria o salário e a valorização dos profissionais de educação, que é uma categoria muito mal remunerada, combateria a superlotação de salas e privilegiaria o investimento nas escolas que tiveram o pior desempenho nas avaliações.

Eu me organizando posso desorganizar
Organizações estudantis burocratizadas, tais como a UPES, a UBES e a UMES não servem mais para as lutas dos secundaristas. Já faz muito tempo que essas entidades traíram as lutas dos estudantes, ao aliarem-se ao governo federal e apoiarem os ataques de Dilma e do PT contra a juventude e a classe trabalhadora. Essas entidades recebem dinheiro do próprio governo, como se fossem mais um ministério a serviço do planalto, e cumprem o papel de desarticulação da tradição de luta direta dos estudantes.

Para lutar contra os ataques dos governos os estudantes não lutam apenas contra o aparato policial, a mídia e o Estado. Eles lutam também contra o papel desmobilizador dessas entidades.

O mesmo acontece com as lutas dos trabalhadores. No último mês, os petroleiros em greve, por exemplo, deram uma aula de combatividade ao enfrentar o governo e os sindicatos que eram ligados ao governo federal, como aqueles filiados à CUT.

Frente à burocratização de tais entidades e à sua traição contra a classe trabalhadora e a juventude pobre, diversos ativistas passaram a acreditar que o que impede que avance a mobilização é a existência da sua organização.

Essa desconfiança é completamente compreensível, visto que essas entidades governistas já defenderam a luta dos estudantes, mas agora foram completamente cooptadas pelo governo federal, e não servem para nada senão para atrapalhar as lutas. Porém, tal visão é equivocada, pois, quanto mais organizado um movimento está, mais forte ele é e maior é seu poder de enfrentar o estado, a repressão militar e todos os aparatos da burguesia. Se o movimento segue fragmentado, com cada escola reivindicando pautas espalhadas e sem nenhum tipo de centralização entre todas as escolas, o movimento perde força. Os secundaristas não podem de forma alguma confiar em entidades vendidas para o governo, como a UMES, UPES e UBES, e não podem achar que elas são ferramentas úteis para as lutas. Mas é preciso se organizar unificadamente, para que o movimento possa avançar. Por isso, é fundamental a construção de um comando de estudantes em luta no Estado de São Paulo, que seja formado apenas por estudantes e que conte com delegados eleitos democraticamente nas assembleias das escolas. A única forma de continuar sempre avançando na mobilização estudantil é unificar-se e organizar-se de forma independente de qualquer governo, já que nenhum deles está ao lado da juventude e dos trabalhadores.