O Rio não tem favela? (Ou a permanente crônica de uma cidade partida)

É o que parece pensar a prefeitura do Rio.

Conforme recente reportagem publicada neste fim de semana pelo jornal O Globo, que pode ser acessada em seu portal, folhetos e mapas oficiais da Riotur distribuídos a turistas constam áreas verdes ou espaços vazios no lugar de favelas, algumas muito conhecidas como Rocinha, Dona Marta, Chapéu Mangueira e Babilônia.

Uma geografia excludente que simplesmente ‘esconde’ da cartografia oficial da cidade pelo menos 1,4 milhão de cariocas (censo de 2010 do IBGE). Uma clara tentativa de vender um Rio de Janeiro branco e feliz. A tal ‘Cidade Maravilhosa’ na visão dos ricos e poderosos.

Um preconceito velado.

Secundarizado talvez, somente pela busca do lucro, como revela a declaração de Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio (ABIH-RJ), que defende a inclusão das favelas no mapa; mas defende também que ”avenidas e ruas perto das comunidades que não são seguras deveriam ter placas avisando que estão fora de interesse turístico”.

Em resposta à reportagem, a Riotur declarou que “por ser uma publicação para os visitantes, seu mapa precisa focar “apenas os pontos turísticos”. Talvez seja porque, para os órgãos oficiais e para os governantes, as comunidades só devam constar, provavelmente, em mapas devidamente preparados para incursões militares.

Contudo, mesmo assim, se busca ganhar dinheiro com estas comunidades.

Na revista oficial da mesma Riotur as favelas, por exemplo, aparecem na sessão “Tours especiais”, oferecendo circuitos turísticos que mais parecem ‘emocionantes’ safáris ou em divulgação de eventos considerados top como bailes funk, festas rave e clássicos no Maracanã.

Comprovando que a não inclusão das favelas nos mapas turísticos foi uma orientação (para não dizer determinação) da prefeitura e da Riotur, uma das próprias responsáveis pela publicação, a cartógrafa Mirian Say, afirma acreditar que “se nas áreas de favelas existem equipamentos turísticos, como hostels e pousadas, a Riotur deveria rever e incluí-las na próxima publicação (e que) essas críticas são um incentivo para que o trabalho possa ser feito de forma mais efetiva”.

Uma (já tradicional) prática vergonhosa de racismo e de segregação sócio-espacial.

Tão comum em novelas e filmes, que quando não exibem o estereótipo do “preto, pobre e traficante” exibem como protagonistas “pessoas brancas, belas e recatadas” para representar até mesmo personagens típicos de regiões como o nordeste e o norte. Tudo para não exibir o verdadeiro brasileiro, para não mostrar a real cara do nosso povo.

Uma segregação que já se expressou em outros eventos. Em 1992, durante a Eco, em 2014 e 2016, na Copa do Mundo e na Olimpíada respectivamente, estas localidades também foram excluídas dos folders oficiais direcionados a visitantes.

Para a chamada elite as comunidades e favelas cariocas só devem servir para ilustrar as apelativas reportagens sobre violência e criminalidade. Aí, eles não tem nenhum problema em mostrar o Rio de Janeiro preto, pobre e favelado. Pelo contrário, procuram enfatizar que, apesar deste Rio, a cidade segue (para eles) maravilhosa.

É preciso denunciar e lutar radicalmente contra toda forma de opressão e segregação.

Uma segregação que deve ser combatida, assim como toda forma de preconceito de raça e classe que a burguesia tanto insiste em praticar e difundir na sociedade. Uma segregação que vem de longe e tão bem narrada por Zuenir Ventura em seu conhecido livro “A cidade partida” e que tem se aprofundado com a crise em que se encontra nosso estado.

Uma crise da qual é possível tirar o Estado do Rio e o país; ao garantir empregos, saúde, educação, transportes, moradia, segurança. Para isso, necessitamos de medidas radicais como o não pagamento da dívida aos banqueiros, fim das isenções fiscais, expropriação e estatização das grandes empresas que estão na dívida ativa, romper com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mais verbas para saúde, educação e cultura, fim das terceirizações e privatizações entre outras medidas, como o fim da Polícia Militar e das UPP’s.

Outra boa maneira de quebrar isto é valorizarmos as mais diversas expressões culturais dos trabalhadores que ‘teimam’ em existir nos bairros populares e comunidades; fiquem na Zona Sul, nos subúrbios ou nas periferias mais distantes. Afinal, as famílias trabalhadoras não precisam resumir sua diversão e lazer a futebol, churrasco, samba e funk; pois podem encontrar também muitas outras coisas do seu gosto. Como nos sugeriu nosso saudoso amigo e camarada Max Laureano no seu artigo “O subúrbio (re)vive. Revive?”, publicado em um longínquo (?) 2012