O que determina uma crise econômica?

Toda vez é a mesma ladainha. Quando explode uma crise, os trabalhadores são chamados a dar sua cota de sacrifício para que o país volte a crescer e produzir, como se os ônibus lotados, o ritmo de trabalho e os salários de fome não fossem sacrifício suficiente. Agora começou de novo: a crise econômica internacional ainda nem chegou no Brasil, e a burguesia, o governo e os dirigentes sindicais vendidos já se uniram para convencer os trabalhadores de que não é hora de pedir aumento. Exibem uma infinidade de gráficos, tabelas e projeções sobre o déficit do orçamento, o movimento das bolsas e a inflação.

Mas ninguém explica para os trabalhadores: Por que ocorrem as crises? Por que elas são tão repentinas? Porque se dão sempre em momentos de grande crescimento da economia? Nossos inimigos nos tratam como crianças. Montam um verdadeiro teatro de sombras, onde dedos retorcidos aparecem como se fossem lindas gaivotas e coelhinhos saltitantes. E assim explicam as crises para os trabalhadores. Querem nos distrair enquanto enroscam a corda em nosso pescoço. Já está mais do que na hora de acabar com esse espetáculo de mentiras, acender as luzes e subir o pano.

O que é a riqueza e de onde ela vem?
No meio de tantos números que a burguesia apresenta diariamente, existe um que é mais importante que os outros. Quando ele é divulgado, os burgueses pedem silêncio e escutam atentamente: é o PIB. O Produto Interno Bruto é a soma de todas as mercadorias e serviços produzidos no país durante o ano. A burguesia quer saber duas coisas: 1) qual o valor absoluto do PIB e 2) se ele cresceu ou diminuiu em relação ao ano anterior. Se cresceu, é sinal de que o país está mais rico. Se diminuiu, é porque o país está mais pobre do que estava há um ano atrás.

Aqui temos uma importante pista para entender a economia: para contar a riqueza do país, a burguesia não se preocupa com a quantidade de dinheiro que circula, mas sim com a quantidade de bens e serviços produzidos. Isso quer dizer: a verdadeira riqueza não está no dinheiro. O dinheiro é apenas uma forma de contar a riqueza. A verdadeira riqueza está nas mercadorias e serviços que o país produz. Essa é a primeira conclusão.

Mas falta saber: de onde vem essa riqueza? Olhe à sua volta e preste atenção nos objetos que o rodeiam. O que eles têm em comum? Certamente não é a sua utilidade, nem a matéria-prima de que são feitos. Isso é particular de cada objeto. Uma caneta serve para escrever; uma camiseta, para se vestir. A caneta é feita de plástico; a camiseta, de tecido. Nesse sentido, são absolutamente diferentes. O que todos os objetos têm em comum é o fato de que são fruto do trabalho humano. Os objetos úteis produzidos pelo trabalho humano constituem a riqueza da sociedade. Portanto, toda riqueza vem do trabalho humano. Não há um único objeto útil ou serviço que não tenha sido feito pelo trabalho humano. Essa é a segunda conclusão.

Pode-se argumentar que hoje em dia há vários objetos que são feitos por robôs ou serviços totalmente informatizados, sem a participação do homem. Isso não é verdade. Os robôs, máquinas e computadores apenas tornam o trabalho humano mais eficaz. O robô solda o capô com perfeição. Mas quem faz o robô? O homem. Voltamos então ao início: as máquinas apenas ajudam o homem – toda riqueza vem do trabalho humano.

Sendo assim, o que faz o capitalista? Ele se apropria da riqueza produzida pelo trabalho do trabalhador e a vende no mercado, obtendo com isso o lucro. Quanto mais riquezas os operários produzirem, maior será o lucro do capitalista. Quanto menos riquezas, menor o lucro.

Quanto vale uma mercadoria?
Mas como contar a riqueza produzida? Como saber o valor de uma mercadoria? Ora, se a única coisa comum a todas as mercadorias é o fato de conterem trabalho humano, então o valor de uma mercadoria será determinado pela quantidade de trabalho que ela contém. Se uma mercadoria contem mais trabalho, ela vale mais. Se contém menos trabalho, vale menos. O que vale mais, um Fiat uno ou uma Ferrari? Instintivamente, qualquer pessoa responderia: uma Ferrari! Correto, mas por quê? Porque uma ferrari contem mais trabalho humano. Ela é mais complexa, seu motor é mais potente, utiliza materiais melhores, mais tecnologia. Tudo isso “dá muito trabalho para fazer”. Por isso, de fato, uma Ferrari vale mais que um Fiat Uno, que utiliza materiais simples, pouca tecnologia, ou seja, contem menos trabalho. Mas como medir esse trabalho? Ora, da única forma possível: pelo tempo. Se uma mercadoria leva mais tempo para ser produzida, vale mais. Se leva menos tempo, vale menos.

Recapitulemos então estes três princípios básicos: 1) a verdadeira riqueza não está no dinheiro, mas nas mercadorias e serviços produzidos; 2) toda mercadoria é fruto do trabalho humano e 3) o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho necessário para produzi-la e esse trabalho é medido em tempo.

A origem das crises
Para entender o mecanismo básico das crises econômicas, visitemos uma fábrica qualquer e vejamos como se comporta o seu dono. Digamos que a fábrica em questão produz celulares e o dono se chama Sr. Smith.

O Sr. Smith emprega várias pessoas e possui várias máquinas. O salário pago aos trabalhadores e o dinheiro que o Sr. Smith gastou nas máquinas constituem o capital do Sr. Smith. É o investimento que ele fez. Ele, como todo burguês, não produz para o bem da sociedade, mas sim para o seu próprio bem. Ele gastou muito dinheiro com máquinas e salários e agora quer ter lucro. Mas não é só isso. Ele quer ter o maior lucro possível com o menor investimento possível. Ou seja, ele busca uma determinada taxa de lucro. Um lucro de R$ 100 mil é bom ou ruim? Depende. Se eu investi R$ 200 mil, é um ótimo resultado porque significa um lucro de 50%. Mas se eu investi R$ 1 milhão, então meu resultado não foi tão bom assim: apenas 10%. Dessa maneira, a preocupação do Sr. Smith será sempre a mesma: como produzir mais com menos investimento?

O ciclo de crescimento
O Sr. Smith produz bons celulares e os vende por um bom preço. Com isso, tem o seu lugar assegurado no mercado. Mas o Sr. Smith não é o único fabricante de celulares do mundo. E é aí que começam os problemas…

Ao lado da fábrica do Sr. Smith existe outra fábrica de celulares quase do mesmo tamanho e praticamente com os mesmos equipamentos, produzindo aparelhos muito similares aos do Sr. Smith e pelo mesmo preço. É a fábrica do Sr. Yakamoto.

Mas o Sr. Yakamoto resolveu inovar: ele comprou uma nova máquina, ultramoderna, totalmente computadorizada. Com essa máquina ele consegue produzir muito mais celulares em muito menos tempo. Em consequência, os celulares do Sr. Yakamoto inundaram o mercado e ameaçam os negócios do Sr. Smith.

Qual a reação do Sr. Smith? Se ele for esperto, vai comprar uma máquina idêntica à do Sr. Yakamoto para produzir também muito mais celulares em muito menos tempo. Com a compra da nova máquina pelo Sr. Smith, ocorre uma mudança em sua fábrica: aumenta a quantidade de capital investido na produção. Agora o Sr. Smith tem mais e melhores máquinas.

Tudo parece muito bem. Mas lembremos o que foi dito mais cima: apenas o trabalho humano gera novas riquezas! A máquina que o Sr. Smith comprou para imitar o Sr. Yakamoto não gera novas riquezas. Ela apenas torna o trabalho humano mais produtivo. Assim, o Sr. Smith investiu dinheiro na produção, mas o valor total das riquezas produzidas na fábrica continua o mesmo. É claro que agora o Sr. Smith produz mais celulares, mas cada celular é produzido em menos tempo do que antes. Portanto, cada celular tem uma quantidade menor de trabalho humano contida nele. Portanto, cada celular vale menosdo que valia antes, quando não havia a máquina ultra-moderna. O resultado é que a taxa de lucro do Sr. Smith caiu: ele fez um enorme investimento, mas a quantidade total de riqueza produzida na fábrica permanece igual, já que os operários continuam trabalhando a mesma quantidade de horas.

Mas o Sr. Smith é muito inteligente e percebeu uma coisa: se ele aumentar ainda mais a produção (acelerando o ritmo de trabalho, por exemplo, ou criando um turno extra), ele poderá equilibrar essa perda momentânea de lucratividade. Ele vai tentar compensar a queda na taxa de lucro com um aumento da massa total de lucro. Ora, se cada celular vale menos do que valia antes (porque é produzido em menos tempo e tem, portanto, menos trabalho humano), vou produzir então mais celulares para tirar daí a diferença. Começa assim uma “fuga para frente” dos capitalistas.

Todos os capitalistas que investiram em maquinário para concorrer com seus vizinhos, perceberam que a margem de lucro que eles podem obter em cada celular diminuiu (porque o maquinário custou dinheiro). E todos eles resolveram o problema da mesma forma: aumentaram ainda mais a produçao para compensar a diferença! Alguns até contrataram mais trabalhadores, abriram um terceiro turno etc.

Como se vê, as coisas começam a ficar tensas, mas ainda não há crise. Ao contrário, esse é o período em que a economia vai de vento em popa. Como estão todos fugindo para frente, a vida parece maravilhosa: o PIB aumenta sem parar, o desemprego diminui, os trabalhadores consomem, os bancos abrem grandes linhas de crédito, tanto para os capitalistas, que não param de investir, quanto para os trabalhadores, que não param de viajar de avião e de se divertir.

E como a concorrência não para, a fuga para frente continua: cada vez mais máquinas, mais investimentos, mais produção. Cada vez que a margem de lucro cai no celular individual, o capitalista responde com um aumento da quantidade total de celulares produzidos. Estes, por sua vez, ficam cada vez mais baratos para o consumidor, que já não tem mais bolsos para tantos “não-sei-o-quê-phones”.

A explosão da crise
Mas chega um determinado momento em que a quantidade de capital investido na produção (máquinas modernas para vencer a concorrência) é tão grande e a margem de lucro em cada celular individual é tão pequena, que nenhuma quantidade de mercadorias compensa tal investimento. Investem-se bilhões, para uma margem de lucro cada vez menor. A única solução seria aumentar os preços. Mas acontece que as vendas já começaram a cair porque o mercado já está inundado de celulares baratos e qualquer capitalista que aumente os seus preços agora vai perder a concorrência para os outros.

Assim, a única saída que resta ao Sr. Smith é a mais dolorosa: cortar investimento! Nenhuma máquina a mais, fechar o terceiro turno, demitir parte dos funcionários, cortar benefícios e vantagens, produzir menos. Com isso, o Sr. Smith busca diminuir os custos da produção para aumentar pelo menos um pouquinho a margem de lucro que ele pode tirar de cada celular individualmente, já que as vendas começaram a cair e produzir mais seria jogar dinheiro fora. O exemplo do Sr. Smith é seguido pelo Sr. Yakamoto e por todos os outros capitalistas do setor: cortar investimento!

Assim, a economia capitalista, que viajava a 160 km/h em uma autoestrada de oito pistas, dá um cavalo-de-pau em direção oposta. Agora todos vão dimunir drasticamente a produção, todos vão demitir, todos vão cortar salários e pessoal. O PIB cai abruptamente. A fuga para frente se transforma em uma fuga de verdade: para trás. A abundância se transforma em penúria. O emprego, em desemprego. O otimismo, em medo. O gasto, em poupança. É óbvio que o carro capota. É a explosão da crise. E isto é só o começo…

Cenas inéditas: o capital especulativo
Vamos agora analisar outra variante das crises econômicas, as chamadas crises “financeiras”, descobrir como se dá a recuperação da economia rumo a uma nova fase de crescimento e expansão e, por fim, como se gesta uma nova crise, ou seja, vamos entender o seu caráter cíclico.

Hoje em dia está na moda, quando um filme faz muito sucesso, os produtores lançarem na internet ou em DVD, cenas inéditas que não foram para o cinema quando o filme foi lançado. Digamos que nossa história também possui algumas cenas inéditas, cortadas do primeiro episódio, e que revelaremos agora.

Em um determinado momento do primeiro episódio, o Sr. Smith, nosso burguês imaginário, percebeu que a taxa de lucro de sua empresa começou a cair, fruto dos gigantescos investimentos que ele era obrigado a fazer para lutar contra seus concorrentes. Como todos nós lembramos, era o momento em que tudo ia aparentemente bem, e a crise apenas se desenhava no horizonte. Naquele momento, na reunião de diretoria da empresa, alguns acionistas propuseram cortar investimento, demitir pessoal e diminuir a produção logo de cara, para evitar maiores problemas. Mas um outro setor de acionistas, com maior “visão empresarial”, propôs uma outra saída: Não fechar nenhuma planta, nem demitir ninguém por enquanto. Mas pegar o dinheiro que deveria ser utilizado em novas máquinas e tecnologia, e aplicar tudo no mercado financeiro! Era a saída perfeita: ninguém perderia seu emprego e a queda da lucratividade da empresa seria compensada com os juros fáceis dos fundos de investimento.

Descobriram um ótimo fundo de investimento que dava até 25% de juros ao ano e se jogaram de corpo e alma no novo negócio. A vida novamente sorriu para o Sr. Smith. A cada R$ 1 milhão que ele investia na produção, ganhava apenas R$ 100 mil, ou seja, tinha uma taxa de lucro relativamente baixa de 10%. Mas em compensação, a cada R$ 1 milhão que ele investia no mercado financeiro, ganhava nada menos do que R$ 250 mil! O departamento financeiro da fábrica se transformou no verdadeiro coração da empresa, em uma fonte de lucros muito mais importante do que a linha de produção.

Mas como vimos, todos os capitalistas tendem a agir da mesma maneira. Assim, tal como o Sr. Smith, também o Sr. Yakamoto resolveu compensar a queda da lucratividade de sua fábrica especulando no sistema financeiro. E com ele, outros milhares e dezenas de milhares de capitalistas fizeram a mesma coisa. Dessa forma, uma enorme quantidade de capital, que deveria ser investido na produção, começa a migrar para o sistema financeiro. A quantidade de capital girando na ciranda especulativa é tão grande que começa a superar a quantidade de capital investido na produção real. Em um primeiro momento, isso não causa nenhum problema. Ao contrário, a quantidade de crédito disponível para a população aumenta, os bancos oferecem rendimentos cada vez maiores, inventam novas modalidades de aplicações e a economia se aquece ainda mais.

As bolhas especulativas
Mas lembremos o que foi dito no primeiro artigo e que estabelecemos como um princípio básico para entender a economia: somente o trabalho humano gera novas riquezas. O dinheiro é apenas uma forma de contar a riqueza. A riqueza está nos bens e serviços reais e não no dinheiro. Esse princípio está em evidente contradição com a situação que descrevemos. O que está acontecendo? Ora, o que está acontecendo é que os burgueses, ao deslocarem seus capitais para o mercado financeiro, começam a multiplicar uma riqueza que não existe de verdade, que não tem nenhuma base real. A quantidade de dinheiro que se multiplica como um milagre na conta dos especuladores deixa de corresponder à quantidade de bens e serviços produzidos. Um abismo se abre perante os capitalistas e eles caminham alegremente em direção a esse abismo, arrastando consigo toda a sociedade.

Como nos desenhos animados, os capitalistas continuam andando no ar sem cair no abismo. Só caem quando percebem que não existe mais chão. Enquanto todos acreditam na ciranda financeira, tudo vai bem. Mas chega um momento em que as pessoas se dão conta que a distância entre a riqueza real produzida e aquilo que os bancos oferecem é grande demais. Começam os boatos sobre falências e calotes. Se apenas dois ou três especuladores retiram seus investimentos do mercado financeiro, nada acontece. Mas se um número excessivamente grande de “investidores” perder a “confiança” nos bancos e no mercado, e decidir retirar seus investimentos, os bancos não terão como devolver o dinheiro investido e muito menos pagar os juros prometidos. De repente, se revela o fato que todos já sabiam, mas não queriam reconhecer: o dinheiro prometido pelos bancos nunca existiu, era apenas “bytes” eletrônicos nos computadores, apenas promessas de uma riqueza que nunca foi produzida. E um banco que não consegue pagar seus clientes só pode ter um destino: a falência, o fundo do abismo.

Quando isso acontece, a pirâmide financeira desmorona. A lucratividade das empresas, mantida artificialmente em alta com a especulação feita pelos departamentos financeiros, cai violentamente. Resultado: o Sr. Smith, que já havia diminuído o investimento na produção para especular na bolsa, agora encerra todo e qualquer investimento. O exemplo do Sr. Smith é seguido pelo Sr. Yakamoto e por todos os outros capitalistas. É a explosão da crise.

Todos os caminhos levam à crise
Como vimos, nossa história pode ter duas tramas diferentes, mas o final é o mesmo. Os capitalistas podem adiar a crise econômica, criando “bolhas especulativas” que retardam a queda da lucratividade de suas empresas. Mas no final das contas, a verdade se impõe: apenas o trabalho humano gera novas riquezas. A especulação financeira nada mais é do que uma outra forma de concorrência entre os capitalistas, uma outra maneira de tentar se apropriar da riqueza real, produzida nas fábricas, nos campos e nas minas.

Portanto, as chamadas crises “financeiras” são apenas uma forma diferente de manifestação da mesma crise de superprodução que vimos no primeiro artigo. Na raiz de qualquer crise estão, repetimos, a queda da taxa de lucro e a superprodução de mercadorias.

Como os capitalistas saem das crises
Independentemente de como a crise venha a explodir, a economia capitalista não pode ficar eternamente paralisada. Isso significaria o colapso da sociedade. Depois de toda crise, vem sempre um período de recuperação. Depois dessa recuperação, ocorre um novo auge e uma nova queda. As crises capitalistas têm, portanto, um caráter cíclico. São como as estações do ano: o outono pode atrasar um pouco, o verão pode ser mais frio que no ano passado, pode haver um “veranico” no início de junho, mas uma vem sempre depois da outra, sempre na mesma ordem, e o que é mais importante: elas sempre chegam.

Uma vez instaurada a crise, os capitalistas, para recuperar sua taxa de lucro, utilizam vários mecanismos:

1) Fechamento das plantas menos lucrativas. É o que aconteceu, por exemplo, com a GM em 2008, que fechou suas fábricas nos EUA, mas manteve abertas e até mesmo aumentou o investimento nas fábricas do Brasil porque são as mais lucrativas do grupo, ou seja, são as que mais exploram os seus funcionários;

2) Diminuição dos gastos com pessoal. Esse objetivo, por sua vez, pode ser atingido de várias maneiras: diminuição dos salários, da PLR, dos abonos etc, ou então a demissão de uma parte dos trabalhadores. Aqui é importante lembrar: os capitalistas não conseguiriam aplicar esse expediente sem a ajuda dos líderes sindicais traidores. São eles que convencem os trabalhadores de que “todos devem fazer a sua parte” para que o país saia da crise. Significa: os capitalistas entram com a corda, e os trabalhadores com o pescoço;

3) Invasões e guerras. Elas reaquecem a produção de armamentos e a construção civil (para os planos de “reconstrução” do que foi bombardeado etc), além de significarem a conquista de novos mercados. Foi assim que Bush se recuperou da crise econômica de 2000-2001 nos EUA: invadindo o Iraque e o Afeganistão;

4) Grandes falências, que facilitam a vida dos capitalistas sobreviventes pois diminuem a concorrência.

Chamamos esses recursos de “queima de capital” porque significam a destruição do potencial produtivo da sociedade para recuperação posterior. É irracional, mas é assim. O ciclo de destruição-reconstrução é a única forma que o capitalismo conhece de sair das crises.

Um novo auge e uma nova queda
Mas a verdadeira recuperação só tem início quando os capitalistas retomam os investimentos e a taxa de lucro começa a se recompor. Em geral, essa fase inclui: 1) o desenvolvimento de novos ramos produtivos, como a informática, a biotecnologia etc; 2) a incorporação de novos mercados ao sistema, como a China; 3) a expansão dos mercados antigos, como o que foi feito com o mercado interno brasileiro em 2008 e 4) grandes injeções de dinheiro do Estado nas empresas, como o que foi feito pelo governo Lula com a redução do IPI para a indústria e a liberação do empréstimo compulsório para os bancos. Quando isso acontece, investir na produção volta a valer a pena; a economia se reaquece; os estoques, antes abarrotados, começam a se esvaziar novamente; os trabalhadores recuperam os seus empregos, a produção se acelera, a concorrência se acirra de novo.

Mas como se vê, a fase de recuperação da economia nada mais é do que a preparação da próxima crise. Por outro lado, a explosão da crise já é o início da próxima recuperação e assim por diante. Dessa maneira, a economia capitalista nunca encontra o equilíbrio. Vive de crise em crise.

As crises e o socialismo
A existência de grandes crises cíclicas na economia já foi aceita pela maioria das pessoas. Mas não deveria ser assim. As crises capitalistas são a prova da irracionalidade desse sistema, no qual a tecnologia e a alta produtividade do trabalho são ao mesmo tempo fontes de conforto e abundância, mas também de miséria e desespero. Um sistema que se afoga em sua própria riqueza, enquanto pessoas comem lixo na rua, não merece existir.

Somente uma economia socialista, voltada para as necessidades mais sentidas da própria população, poderá transformar a sucessão caótica de crises e recuperações em um desenvolvimento pacífico e harmonioso de todas as potencialidades contidas no trabalho humano. Somente o socialismo no mundo inteiro será capaz de substituir os rigorosos invernos e os verões escaldantes, prejudiciais para qualquer organismo, por uma eterna primavera.