O fim da via pacífica para a revolução

Após a derrota das Jornadas de Julho (ver edição 549), uma grande campanha de calúnias foi lançada contra os bolcheviques e suas lideranças. Jornais da burguesia, intelectuais e, naturalmente, chefes do governo provisório orquestraram uma campanha em que diziam que os bolcheviques estariam a serviço do Império Alemão – inimigo da Rússia na Primeira Guerra Mundial – e que Lenin seria um agente da Alemanha que teria por objetivo preparar a derrota russa.

Líderes bolcheviques, como Kamenev e Zinoviev, foram presos. Leon Trotsky, que até aquele momento ainda não era membro do Partido Bolchevique, também foi aprisionado. Lenin, sabendo que poderia ser assassinado, caiu na clandestinidade, de onde sairia somente após a tomada do poder.

Os que se conciliavam com a burguesia, mencheviques e socialistas-revolucionários (SRs), não questionaram tais mentiras e prisões. Permaneceram num silêncio que, na prática, tornou-se uma aprovação à campanha de difamação.

Inclusive, deram mais um passo em direção à conciliação com a burguesia quando aprovam, no Sovietes de Deputados Operários e Soldados de toda a Rússia, que o governo provisório seria um governo de salvação da revolução. Na opinião deles, a revolução estaria em perigo devido à ação dos bolcheviques e dos alemães. Como se não bastasse, concederam ao governo poderes ilimitados. Perplexos, os bolcheviques votaram contra essas resoluções.

A preparação para a futura insurreição
Em meio a essa conjuntura difícil, entre os dias 26 de julho e 3 de agosto, reuniu-se o VI Congresso do Partido Bolchevique. Os bolcheviques já eram uma força política com 200 mil militantes distribuídos em 162 organismos partidários.

Há dois acontecimentos históricos que marcaram esse congresso. O primeiro é que o partido definiu a estratégia da insurreição. O segundo foi a entrada do grupo de Trotsky (a Interdistrital) no partido (leia ao lado). Assim, se conformaria a organização que dirigiria a tomada do poder.

Até a derrota das Jornadas de Julho, havia certa ilusão de que a revolução poderia avançar de forma pacífica com alguma transformação política que permitisse a entrega do poder aos sovietes conforme exigiam os bolcheviques em sua principal palavra de ordem. Contudo, a derrota das Jornadas de Julho, a repressão aos bolcheviques e o explícito compromisso dos mencheviques e SRs com a contrarrevolução – a burguesia e o seu governo – exigiam uma nova definição estratégica.

Afinal, como exigir “Todo poder aos Sovietes” quando eles estão sob a direção desses partidos conciliadores que não querem que os sovietes tomem o poder? Essa é a reflexão feita por Lenin no artigo “A situação Política”, escrito em 10 de julho de 1917. Ele explica que os mencheviques e SRs “traíram definitivamente a causa da revolução ao colocá-la nas mãos dos contrarrevolucionários (…). Todas as esperanças de um desenvolvimento pacífico da revolução russa foi desvanecida para sempre. A situação objetiva agora é esta: ou a vitória completa da ditadura militar ou o triunfo da insurreição armada dos operários”.

Para Lenin, a palavra de ordem “Todo poder aos Sovietes” expressava o desenvolvimento pacífico da revolução que era possível até a derrota de 4 de julho. Para ele: “cada palavra de ordem deve emanar sempre do conjunto das peculiaridades de uma determinada situação política. E hoje, depois de 4 de julho, a situação política da Rússia é radicalmente distinta da que imperou desde 27 de fevereiro até esta data”.

No artigo “A propósito das Palavras de ordem”, Lenin desenvolve com nitidez seu raciocínio: “Durante o período já concluído da revolução [até julho], predominava a chamada ‘dualidade de poderes’ (…) durante esse período, o poder se mantinha em estado de desequilíbrio. Era compartido por um acordo voluntário pelo governo provisório e pelos sovietes. As armas estavam nas mãos do povo (…) tal era o fundo da questão. A palavra de ordem de “Todo poder aos Sovietes” significava a passagem imediata e realizável diretamente pela via pacífica. Era a via de desenvolvimento pacífico da revolução que, de 27 de fevereiro até 4 de julho, foi possível e, como é natural, a mais desejável de todas, mas hoje é absolutamente impossível. (…) E ao dizer pacífico não nos referimos somente a que ninguém, nenhuma classe, nenhuma força importante, poderia (de 27 de fevereiro até 4 de julho) opor-se e impedir a passagem do poder aos sovietes. Mas isso não é tudo. O desenvolvimento pacífico poderia realizar-se também no sentido da luta de classes e dos partidos dentro dos sovietes se esses houvessem assumido oportunamente o poder do Estado (…)

A virada de 4 de julho consiste precisamente em que, a partir desse momento, houve uma mudança brusca na situação objetiva. O equilíbrio instável do poder cessou; o poder passou para as mãos da contrarrevolução. Manter agora a palavra de ordem [“Todo poder aos Sovietes”] equivale, objetivamente, a enganar o povo (…) O problema fundamental da revolução é o problema do poder. A isso, devemos agregar: precisamente, as revoluções nos mostram a cada passo como se revela a questão de saber onde está o verdadeiro poder formal e efetivo.

Lenin ainda concluiria afirmando que “a verdade: temos de dizer que o poder está nas mãos de uma camarilha de militares”.

O que Lenin destaca é que os bolcheviques deveriam se preparar para uma insurreição no futuro. Mas ela se daria sob qual palavra de ordem? Os sovietes dirigiriam essa luta? O objetivo dos bolcheviques era que o poder fosse tomado pelos operários e camponeses pobres. Porém, em meio aos acontecimentos daqueles dias, ainda não era possível identificar se os sovietes ou outros organismos de luta da classe operária serviriam para obtê-lo. Esse problema não poderia ser resolvido pelo partido, mas sim pela classe operária. Cabia aos bolcheviques esperar que as massas operárias revolucionárias mostrassem qual seria o seu órgão de poder.

Enquanto isso, a camarilha de militares, que efetivamente detinha o poder, se preparava para esmagar a revolução e varrer os sovietes da face da terra. A contrarrevolução levantaria a sua cabeça no final de agosto, com o General Kornilov, comandante-chefe do exército russo. É o que veremos no próximo artigo.

Trotsky entra no Partido de Lenin
Entre os dias 26 de julho e 3 de agosto de 1917, a Organização Interdistrital dos Sociais-Democratas Unidos de Petersburgo, dirigida por Leon Trotsky, entrou no Partido Bolchevique. Essa corrente política, que possuía entre três e quatro mil militantes, se destacaria durante a revolução.

A fusão com os bolcheviques foi o resultado natural da aproximação das duas organizações desde a queda do czar. Particularmente, da aproximação das duas maiores lideranças dessas organizações: Lenin e Trotsky.

Por muitos anos, os dois revolucionários estiveram em organizações separadas. Muitas vezes tiveram duras polêmicas entre si. Vejamos algumas das razões para essa separação.

Desde 1905, Trotsky defendia a tese de que só proletariado russo poderia assumir o papel dirigente numa futura revolução. A burguesia do país, sustentava Trotsky, era extremamente covarde e já possuía vínculos de dependência com o imperialismo europeu. Para ele, essa revolução assumiria tarefas imediatamente socialistas, ou seja, não resultaria numa democracia parlamentar como defendiam os mencheviques. Já Lenin, de antes de 1917, sugeria que a revolução russa seria dirigida, mesmo que temporariamente, por um governo operário e camponês nos marcos de uma República.

Para Lenin, porém, o proletariado precisava de um partido revolucionário, fundado no centralismo democrático, que não assumisse nenhum compromisso com a burguesia. Esse era o Partido Bolchevique.

Trotsky, desde a ruptura entre mencheviques e bolcheviques, em 1903, batalhou pela unidade entre essas duas organizações, ou seja, entre revolucionários e reformistas. Também se opunha ao centralismo democrático dos bolcheviques dizendo que a organização preconizada por Lenin levaria “a organização do partido a deixar-se substituir pelo Comitê Central e, finalmente, o ditador a substituir o Comitê Central”.

A revolução de 1917 marcou a aproximação política entre Lenin e Trotsky. O primeiro compreendeu que o proletariado deveria liderar a revolução e que assumiria tarefas imediatamente socialistas. O segundo entendeu que a vitória da revolução não estaria escrita nas estrelas. O Trotsky de antes de 1917 pensava que a política correta poderia ser ditada em pleno curso dos acontecimentos de uma revolução. Mas, ao encarar a revolução e a conciliação de mencheviques e SRs com a burguesia, percebeu que sem um partido revolucionário como o bolchevique não seria possível que o proletariado tomasse o poder.

Não se pode improvisar uma direção revolucionária do proletariado no curso da revolução. É preciso herdar, no período anterior, sólidos quadros revolucionários. Na verdade, a divergência real que separou Lenin e Trotsky foram as relações com o menchevismo. “Depois de Trotsky ter se convencido da impossibilidade de uma aliança com os mencheviques, não existe melhor bolchevique do que ele”, disse Lenin numa reunião da direção dos bolcheviques em novembro de 1917.