O 55º Conune não representa a juventude brasileira

Foto UNE

Sem grandes surpresas, o 55º CONUNE confirmou que a UNE não pode hoje, como nos anos de governo petista, representar as necessidades do movimento estudantil brasileiro, menos ainda da juventude brasileira.

UNE: porta-voz do petismo
A UNE hoje segue a política do PT e do PCdoB: escantear a luta pelo Fora Temer e pela greve geral para derrotar as reformas, e encampar a luta pela frente ampla de conciliação de classes e pelas diretas, para retomar o projeto já derrotado do PT de unir trabalhadores e patrões em um novo eventual governo.

Não nos surpreende a aliança do Levante Popular de Juventude com a UJS, posto que compartilham do mesmo projeto político para o país. Assim como todos os grupos identificados com a esquerda naquele congresso em algum grau tem acordos com a política do PT e PCdoB para a conjuntura atual. Tanto é assim que as críticas à UJS passaram longe de ter o peso que deveria, justamente por hoje estar em curso o debate sobre a criação de uma frente única entre PT, PCdoB e os setores majoritários do PSOL.

Por essa razão é que a Oposição de Esquerda, apesar das melhores intenções que possa ter, cumpre apenas o papel de legitimar a entidade e, de tabela, o renascimento do petismo no movimento estudantil.

É preciso disputar o movimento estudantil contra a UJS e todos os traidores. Mas esta disputa se dá na base das universidades, escolas e nas periferias. Construir uma direção para as lutas da juventude passa longe dos limites do CONUNE, visto que parcela bastante reduzida dos jovens do Brasil encontra-se nas instituições de Ensino Superior.

Se se trata de impulsionar um movimento de juventude que não vacile em negar apoio à burguesia e à sua democracia – e é essa precisamente a principal tarefa, a entidade do PCdoB nada tem a oferecer.

O PCdoB não quer derrubar Temer
As resoluções aprovadas sobre a greve geral e a luta contra o Temer são protocolares, praticamente letras mortas, pela política da UJS e adaptação da entidade ao Estado.

Basta lembrarmos que, enquanto acontecia o maior ato em Brasília dos últimos anos, com muita repressão e enfrentamento, a UNE estava dentro do Congresso sendo recebida pelo Rodrigo Maia (DEM) para a entrega de um abaixo-assinado pelas diretas. Não jogaram peso no Ocupa Brasília, e nos outros dias de luta. E diante da possibilidade das centrais pelegas desmarcarem a greve geral, reinou o silêncio da entidade. Reivindicamos a iniciativa do DCE da UFOP que, junto com a ANEL, fez a discussão em suas bases, aprovou uma carta que foi lida na reunião das centrais para pressionar pela manutenção da greve.

Parcela importante dos estudantes querem lutar, mas a maioria das organizações estavam mais preocupadas em contar delegados para o CONUNE.

O papel da UNE foi nulo para mobilizar os estudantes no dia 30 de junho. Atuou perfeitamente alinhada com o que a CTB (central sindical também dirigida pelos stalinistas) fazia no movimento dos trabalhadores: para ficar num só exemplo, essa central jogou peso para que o Metrô de São Paulo não paralisasse no dia da greve geral.

A UNE mudou?
Vivemos um dos maiores períodos de luta da sua história nos últimos anos. Foram inúmeras ocupações de universidade, escolas, greves, etc. Mas a falta de uma organização nacional de massas que seja o ponto de encontro dos milhares de lutadores é um fato. Isto vem se arrastando há um tempo.

Agravou-se com o atrelamento total da UNE ao Estado durante os governos do PT, onde de entidade burocratizada e com certo nível de atrelamento ao Estado, passou a ser de fato um ministério estudantil, com recebimento de milhões de reais do governo e se enfrentando com as lutas dos estudantes, pela defesa incondicional do projeto petista. E mesmo com a UNE se dizendo oposição ao governo Temer o papel da entidade segue o mesmo. É um freio às lutas, um dique à organização dos estudantes de forma democrática, é um desserviço para as reivindicações estudantis.

A relação de atrelamento com o Estado é tão forte que o 55° CONUNE foi patrocinado pelo Ministério da Educação do governo Temer. Pode-se argumentar que seria um caso isolado, mas aí teríamos que lembrar que a Bienal deste ano contou com o apoio do Ministério da Cultura e do governo do estado do Ceará e da prefeitura de Fortaleza. Ou seja, o atrelamento da entidade é de fato ao Estado com qualquer governo.

A entidade segue sendo controlada burocraticamente pela UJS/PCdoB, aliada com o PT, e isto não tem nenhuma perspectiva de mudança justamente pelo altíssimo nível de burocratização e adaptação ao Estado.

É possível mudar a UNE?
Por anos, os setores que de dois em dois anos se organizam na Oposição de Esquerda (OE) disseram que era preciso uma grande levante estudantil para derrubar a burocracia da UNE e recolocá-la no caminho das lutas. Vieram as lutas contra o REUNI em 2007, depois uma das maiores greves da história das universidades federais em 2012, Junho de 2013 e, finalmente, a onda de ocupações de escolas.

Por que os milhares de ativistas independentes que não se veem representados na UNE pela sua política e método não conseguem transformar esta entidade? Porque a oposição não cresce quando cresce o enfrentamento com a UNE na base das escolas e universidades? Porque os setores de luta não crescem no CONUNE quando há luta?

Neste ano, a chapa encabeçada pela UJS obteve 3.788 votos (79%) e, para surpresa de ninguém, elegeu a nova presidente da entidade. A segunda colocada, teve 690 votos (14,33%). A terceira ganhou 148 votos (3,09%). E assim por diante. Quantos delegados eram independentes? Certamente pouquíssimos.

A conclusão inevitável é que o PCdoB tem muito mais que uma hegemonia: detém um controle total que, até quando timidamente questionado, é reafirmado na base da porrada como a que atingiu companheiros e companheiras do Juntos.

Tudo mudou. Menos a UNE. Mesmo com mais organizações construindo a OE isso sem dúvida está bem longe de expressar a diversidade das lutas da juventude do último período, não dirigidas por nenhuma das atuais organizações. As lutas continuam não passando por dentro da UNE.

A juventude brasileira não será disputada no CONUNE. Se não fosse por tudo o que está dito acima, é pelo fato de que hoje as lutas da juventude extrapolam amplamente os limites do movimento estudantil universitário. É necessário organizar os filhos da classe trabalhadora, parcela fundamental dos secundaristas, nas periferias, negros e negras, LGBT’s

Caminhos da reorganização
Os dilemas para o movimento estudantil brasileiro seguem. A reorganização do setor segue com força na base. Milhares de estudantes não se veem representados por nenhuma organização e seguem lutando. É preciso que esta geração de bravos jovens lutadores não se disperse. Para isso é preciso organização. Mas, mais que isso, não qualquer organização, mas uma organização de massas para desenvolver as lutas independentes do governo e do Estado.

O desafio do movimento estudantil brasileiro é avançar para uma organização completamente diferente da UNE. A ANEL é uma iniciativa neste sentido e batalharemos para que esta entidade, ainda minoritária, possa ser uma alavanca que ajude os milhares de estudantes a se organizarem de forma independente dos governos e democraticamente.

É preciso que a juventude comece a discutir a realização de um encontro de lutadores por fora da UNE, com todo mundo que estiver a favor de construir um movimento sem arrastar o PT e seu projeto.