segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

O "Dom Quixote dos Trópicos" faz 100 anos

Lançado em 1911, "O triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, é obra fundamental para compreender o Brasil, no início do século 20 e ainda hoje

Lima Barreto em 1909

Muito provavelmente, nosso “homenageado” não gostaria do título acima. Nem mesmo seu autor. Afinal, Policarpo Quaresma tem como marca registrada seu desenfreado fanatismo patriótico e tudo nele é um reflexo da vida e das idéias de seu autor, o escritor e jornalista negro Lima Barreto (1881 – 1922).

Contudo, a comparação do Major Quaresma com o “cavaleiro da triste figura”, criado, no início dos anos 1600, pelo espanhol Miguel de Cervantes, é praticamente inevitável.

Assim como Quixote e seus “delírios” (como lutar contra gigantes que, na verdade, são moinhos de vento ou apaixonar-se por uma camponesa que ele vê como uma “nobre dama”) são símbolos e sintomas da inadequação do personagem ao mundo burguês que estava brotando das ruínas da sociedade medieval; Policarpo foi moldado pelas profundas mudanças que estavam em curso, no Brasil, nos primeiros anos do século 20, quando as estruturas arcaicas e conservadoras do país entraram em rota de colisão com os primeiros sinais da “modernidade”.

Crônicas da colisão de dois mundos
Escrita em 1911, mas situada no final dos 1800, a tragicômica saga de Quaresma tem como pano de fundo um Brasil onde as oligarquias da república do “café com leite” são obrigadas a conviver com revoltas populares (como a da Vacina, em 1904, ou da Chibata, em 1910) e com a crescente presença, nas cidades, de um operariado industrial. Um país no qual a explosão populacional e a urbanização provocadas pela imigração esbarram, a todo momento, nas multidões de ex-escravos que vagam, sem emprego ou moradia pelas ruas das cidades.

É por este cenário que circulam, por um lado, os defensores dos valores aristocráticos e do projeto civilizatório europeu (a “gente fina”, como Barreto ironicamente os trata) que se chocam com os costumes e tradições do povo pobre, dos negros e mestiços e demais camadas da “plebe”.

No livro, este choque é apresentado, geralmente, com uma forte carga de humor e ironia, frutos do olhar afiado e crítico do autor. Assim, militares autoritários, funcionários puxa-saco, valores culturais e trejeitos sociais afrancesados são permanentemente “desmascarados” ou satirizados pela “voz” das ruas, da onde modinhas de violão, conversas entre cafezinhos e cachaça e a alegre e descontraída socialização dos pobres fazem desmoronar a empáfia e hipocrisia da classe dominante e seus seguidores.

É neste cenário que Policarpo, um metódico funcionário público, fanaticamente nacionalista, formula três projetos “radicais” que visam arrancar o país de seu atraso e lançá-lo na sonhada modernidade: a adoção do Tupi como língua oficial, uma reforma agrária que comece pelo combate às formigas saúvas e a defesa, com armas, da ordem republicana que o personagem vê ameaçada pelas forças conservadoras.

Estando ele próprio “preso” entre estes dois mundos, Quaresma faz um percurso que é, todo ele, metafórico em relação à tomada de consciência: primeiro, procura identificar suas idéias com o discurso dominante; depois, se aproxima das camadas mais populares e se dá conta de que não há nenhuma intenção, por parte da elite, em promover qualquer tipo de mudança e, finalmente, decidi ele próprio tomar as atitudes necessárias para eliminar as desigualdades e falta de liberdade que contaminam sua amada terra.

Um anti-herói da Marginália
Além dos temas e da narrativa apaixonantes, a grande força e atualidade de “O triste fim de Policarpo Quaresma” deriva das inovações promovidas por Barreto em relação à linguagem, e que fazem com que ele seja identificado como um dos principais nomes do que se convencionou chamar de Pré-Modernismo, movimento que começou no início do século e se estendeu até 1922, ano que marca tanto a realização da Semana de Arte Moderna quanto a morte de Lima Barreto.

Afastando-se do estilo pomposo daqueles que o autor chamava de “mandarins da literatura”, o livro está recheado pela fala popular, pelos costumes e personagens das ruas, razões suficientes para que a elite da época o tenha desprezado por completo.

Um desprezo cujas origens o autor soube localizar com exatidão, como fica evidente em um trecho de “Marginalia”, um dos seus textos mais conhecidos: “Se não disponho do ‘Correio da Manhã’ ou de ‘O Jornal’ para me estamparem o nome e o retrato, sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance”.

E uma de suas principais armas foi o olhar sempre atento às mazelas de sua época o que lhe permitiu, simultaneamente, incorporar a realidade brasileira em suas obras e, ao mesmo tempo, utilizá-las como forma de denúncia social e, particularmente, dos preconceitos que sempre afetaram os setores mais marginalizados da sociedade.
Neste sentido, são imperdíveis os seus muitos contos, crônicas e artigos reunidos em livros como “Os bruzundangas”, “Nova Califórnia” e “Histórias e sonhos”. E, particularmente para aqueles interessados na questão racial, “Clara dos Anjos” e “Recordações do escrivão Isaías Caminha” são leituras obrigatórias.

Uma mente livre em um corpo aprisionado
Em todos estes textos é impossível não verificar traços da vida e da personalidade do próprio Lima Barreto o que, inclusive, os torna ainda mais apaixonantes.

Assim como Policarpo, o autor tentou a vida militar, mas teve que abandonar a escola para puder cuidar da família; assim como Clara e Caminha, também foi vítima constante do preconceito racial. E, em função de tudo isto, e como muitos de seus personagens, foi marginalizado de tal forma que acabou seus dias solitário, tido como louco, mergulhado na depressão e no alcoolismo.

Um final “trágico” como o de seu personagem, mas que não diminui em nada a grandeza de sua vida e obra. Pelo contrário, a reveste, ainda mais, de beleza e importância, ambas arrancadas daquilo que Beatriz Resende, no ensaio “Lima Barreto: a opção pela marginalia”, identifica como uma de suas principais características: Lima Barreto se fez “como um intelectual independente num momento em que a cooptação dos intelectuais pelo poder é freqüente” e não manteve “por toda vida, qualquer compromisso mais profundo ou durável que ligue sua produção cultural ao Estado ou representantes das classes dominantes”.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS

JORNAL

SOCIALISTA

GALERIAS DE FOTOS
CRONOLOGIA

Sede nacional:

Avenida Nove de Julho, 925

Bela Vista - São Paulo - SP

Metrô Anhangabaú

CEP 01313-000

(11) 5581.5776

São Paulo - Centro - SP

Rua Florêncio de Abreu, 248

(11) 3313.5604

saopaulo@pstu.org.br

http://pstupaulista.blogspot.com.br/

Rio de Janeiro - RJ

Rua da Lapa, 180

(21) 2232.9458

riodejaneiro@pstu.org.br

rio.pstu.org.br

Belém - PA

Travessa Curuzu, n° 1995 - Altos

(91) 3226.6825

belem@pstu.org.br

blogpstupa.blogspot.com.br

São Paulo - Zona Sul - SP

Rua Julio Verne, 28

(11) 5523.8440

pstu.dasul@ymail.com

Rio de Janeiro - Madureira - RJ

Av. Ministro Edgar Romero, 584/302

riodejaneiro@pstu.org.br

rio.pstu.org.br

Natal - RN

Rua Princesa Isabel, 749

(84) 2010 1290

pstupotiguar@gmail.com

www.psturn.org.br

São Paulo - Zona Leste - SP

Rua Henrique de Paula França, 136

(11) 99150.3515

saopaulo@pstu.org.br

Belo Horizonte - MG

Edifício Vera Cruz, Rua dos Goitacazes 103, sala 2001.

bh@pstu.org.br

minas.pstu.org.br

Fortaleza - CE

Rua Juvenal Galeno, 710

(85) 3044.0056

fortaleza@pstu.org.br

São Paulo - Zona Oeste - SP

Rua Alves Branco, 65

(11) 98195.6893

saopaulo@pstu.org.br

Porto Alegre - RS

Rua General Portinho, 243

(51) 3024.3486 e 3024.3409

portoalegre@pstu.org.br

pstugaucho.blogspot.com

Aracaju - SE

Av. Gasoduto, 1538-b

(79) 3251.3530

aracaju@pstu.org.br

pstusergipe.com.br/

Mais sedes...