segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

DOCUMENTO: Carta dos Cordões Industriais ao presidente Salvador Allende

5 de Setembro de 1973,

À SUA EXCELÊNCIA, O PRESIDENTE DA REPÚBLICA CAMARADA ALLENDE


Camarada Salvador Allende:

Chegou o momento em que a classe operária organizada na Coordenadora Provincial de Cordões Industriais, no Comando Provincial de Abastecimento Direto e na Frente Única de Trabalhadores em conflito considerou de urgência dirigir-se a você, alarmados pelo desencadeamento de uma série de acontecimentos que cremos que nos levará não só à liquidação do processo revolucionário chileno, mas, a curto prazo, a um regime fascista do corte mais implacável e criminoso.

Antes, tínhamos o temor de que o processo para o Socialismo estava transicionando para chegar a um Governo de centro, reformista, democrático-burguês que tendia a desmobilizar as massas ou a levá-las a ações insurrecionais de tipo anárquico por instinto de preservação.

Mas agora, analisando os últimos acontecimentos, nosso temor já não é esse, agora temos a certeza de que vamos numa ladeira que nos levará inevitavelmente ao fascismo.

Por isso procedemos a enumerar-lhe as medidas que, como representantes da classe trabalhadora, consideramos imprescindíveis tomar.

Em primeiro lugar, camarada, exigimos que se cumpra com o programa da Unidade Popular, nós em 1970, não votamos por um homem, votamos por um Programa.

Curiosamente, o Capítulo primeiro do Programa da Unidade Popular intitula-se “Poder Popular”, Citamos: Página 14 do programa:

“…As forças populares e revolucionárias não se uniram para lutar pela simples substituição de um Presidente da República por outro, nem para substituir um partido por outros no Governo, mas para levar a cabo as mudanças de fundo que a situação nacional exige, sobre a base da transferência do poder dos antigos grupos dominantes aos trabalhadores, ao campesinato e setores progressistas das camadas médias…” “Transformar as atuais instituições do Estado onde os trabalhadores e o povo tenham o real exercício do poder…”

“…O Governo popular assentará essencialmente sua força e autoridade no apoio que o povo organizado lhe brindar …”

...Página 15: “…Através de uma mobilização de massas se constituirá a partir das bases a nova estrutura do poder…”.

Fala-se de um programa de uma nova Constituição Política, de uma Câmara Única, da Assembléia do Povo, de um Tribunal Supremo com membros designados pela Assembléia do Povo. No programa é indicado que se recusará o emprego das Forças Armadas para oprimir o povo… (p.24).

Camarada Allende, se não lhe indicássemos que estas frases são citações do programa da Unidade Popular, que era um programa mínimo para a classe, neste momento, você nos diria que esta é a linguagem “ultra” dos cordões industriais.

Mas nós perguntamos, onde está o novo Estado? A nova Constituição Política, a Câmara Única, a Assembléia Popular, os Tribunais Supremos?

Passaram-se três anos, camarada Allende e você não se apoiou nas massas e agora nós, os trabalhadores, temos desconfiança.

Nós, trabalhadores, sentimos uma profunda frustração e desalento quando o nosso Presidente, o nosso Governo, os nossos partidos, as nossas organizações, nos dão uma e outra vez a ordem de recuar em vez da voz de avançar. Nós exigimos que não só nos informe, mas que também se nos cosulte sobre as decisões, que afinal de contas são definidoras para nosso destino.

Sabemos que na história das revoluções sempre houve momentos para recuar e momentos para avançar, mas sabemos, temos a certeza absoluta, que nos últimos três anos poderíamos ter ganhado não só batalhas parciais, mas a luta total. Ter tomado nessas ocasiões medidas que fizessem irrevogáveis o processo, depois do triunfo da eleição de Regidores de 71, o povo clamava por um plebiscito e pela dissolução de um Congresso antagônico.

Em outubro, quando foi a vontade e organização da classe operária que manteve o país caminhando frente ao desemprego patronal, onde nasceram os cordões industriais no calor dessa luta e se manteve a produção, o abastecimento, o transporte, graças ao sacrifício dos trabalhadores e se pôde dar o golpe mortal à burguesia, você não teve confiança em nós, apesar de que ninguém pode negar a tremenda potencialidade revolucionária demonstrada pelo proletariado, e deu-lhe uma saída que foi uma bofetada na classe operária, instaurando um Gabinete cívico-militar, com o agravante de incluir nele dois dirigentes da Central Única de Trabalhadores, que ao aceitar integrar estes ministérios, fizeram perder a confiança da classe trabalhadora em seu organismo máximo(13).

Organismo, que qualquer que fosse o caráter do Governo, devia manter-se à margem para defender qualquer debilidade deste frente aos problemas dos trabalhadores.

Apesar do refluxo e desmobilização que isto produziu, da inflação, das filas e das mil dificuldades que os homens e mulheres do proletariado viviam diariamente, nas eleições de março de 1973, mostraram mais uma vez sua clareza e consciência ao dar-lhe 43% de votos militantes nos candidatos da Unidade Popular.

Ali também, camarada, deveriam ter sido tomadas as medidas que o povo merecia e exigia para protegê-lo do desastre que agora pressentimos.

E já em 29 de junho, quando os generais e oficiais sediciosos aliados ao Partido Nacional, Frei e Pátria e Liberdade se puseram francamente numa posição de ilegalidade, poderia se ter desencabeçado os sediciosos e, apoiando-se no povo e dando responsabilidade aos generais leais e às forças que então lhe obedeciam, ter levado o processo para o triunfo, ter passado à ofensiva.

O que faltou em todas estas ocasiões foi decisão, decisão revolucionária, o que faltou foi confiança nas massas, o que faltou foi conhecimento de sua organização e força, o que faltou foi uma vanguarda decidida e hegemônica.

Agora nós trabalhadores não somente temos desconfiança, estamos alarmados.

A direita montou um aparelho terrorista tão poderoso e bem organizado, que não cabe dúvida que está financiado e pela CIA. Matam operários, fazem voar oleodutos, microônibus, transportes ferroviários.

Produzem apagões em duas províncias, atentam contra nossos dirigentes, nossos locais partidários e sindicais.
São punidos ou presos?

Não, camarada!
São punidos e presos os dirigentes de esquerda.
Os Pablos Rodríguez, os Benjamines Matte, confessam abertamente ter participado no “Tanquetazo”(14).
São esmagados e humilhados?

Não, camarada!
Esmaga-se Lanera Austral de Magellanes onde se assassina um operário e se tem os trabalhadores de boca na neve durante horas e horas.

Os transportadores paralisam o país, deixando lares humildes sem parafina, sem alimentos, sem medicamentos.
São vexados, reprimidos?

Não, camarada!
São vexados os operários de Cobre Cerrillos, de Indugas, de Cimento Melon, de Cervejarias Unidas.

Frei, Jarpa e seus comparsas financiados pela ITT, chamam abertamente à sedição.
São reprovados, são denunciados?

Não, camarada!
Denuncia-se, pede-se a reprovação de Palestro, de Altamirano, de Garretón, dos que defendem os direitos da classe operária.

A 29 de junho se levantam generais e oficiais contra o Governo, metralhando horas e horas o Palácio de La Moneda, produzindo 22 mortos.
São fuzilados, são torturados?

Não, camarada!
Tortura-se de forma desumana os marinheiros esub-oficiais que defendem a Constituição, a vontade do povo, e a você, camarada Allende.

Pátria e Liberdade incita ao golpe de Estado.
São presos, são castigados?

Não, camarada!
Eles, continuam dando conferências de imprensa, são-lhes dados salvocondutos para que conspirem no estrangeiro.

Enquanto se esmaga SUMAR, onde morrem operários e habitantes, e os camponeses de Cautín, que defendem o Governo, são submetidos aos castigos mais implacáveis, passeando pendurados nos pés, em helicópteros sobre as cabeças de suas famílias até a morte.

São atacados você camarada, os nossos dirigentes, e através deles os trabalhadores em seu conjunto na forma mais insolente e libertina pelos meios de comunicações milionários da direita.

São destruídos, são silenciados?

Não, camarada!
Silencia-se e destrói os meios de comunicação de esquerda, o canal 9 de TV, última possibilidade de voz dos trabalhadores.

E a 4 de setembro, no terceiro aniversário do Governo dos trabalhadores, enquanto o povo, um milhão quatrocentos mil, saíamos a saudá-lo, a mostrar nossa decisão e consciência revolucionária, a FACH esmagava Mademsa, Madeco, Rittig, numa das provocações mais insolentes e inaceitáveis, sem que exista resposta visível alguma.

Por todo o proposto, camarada, nós os trabalhadores, estamos de acordo num ponto com o senhor Frei, que aqui só há duas alternativas: a ditadura do proletariado ou a ditadura militar.

Claro que o senhor Frei também é ingênuo, porque crê que tal ditadura militar seria só de transição, para levá-lo finalmente à Presidência.

Estamos absolutamente convencidos de que historicamente o reformismo que se procura através do diálogo com os que traíram uma e outra vez, é o caminho mais rápido para o fascismo.

E nós trabalhadores já sabemos o que é o fascismo.

Até há pouco era somente uma palavra que nem todos nós camaradas compreendíamos. Tínhamos que recorrer a longínquos ou próximos exemplos: Brasil, Espanha, Uruguai, etc.

Mas já o vivemos em carne própria, nos esmagamentos, no que está se sucedendo a marinhos e suboficiais, no que estão sofrendo os camaradas de ASMAR, FAMAE, os camponeses de Cautín.

Já sabemos que o fascismo significa acabar com todas as conquistas conseguidas pela classe operária, as organizações operárias, os sindicatos, o direito à greve, as folhas de petições.

O trabalhador que reclama seus mais mínimos direitos humanos se despede, se aprisiona, tortura ou assassina.

Consideramos que não somente está nos levando pelo caminho que conduzirá ao fascismo num prazo vertiginoso, mas que nos priva além disso dos meios para nos defender.

Portanto exigimos de você, camarada Presidente, que se ponha à cabeça deste verdadeiro Exército sem armas, mas poderoso quanto à consciência, decisão, que os partidos proletários ponham de lado suas divergências e se convertam em verdadeira vanguarda desta massa organizada, mas sem direção.

Exigimos:
1° Face à paralização dos transportadores, a requisição imediata dos caminhões sem devolução pelos organismos de massas e a criação de uma Empresa Estatal de Transportes, para que nunca mais esteja nas mãos destes bandidos a possibilidade de paralisar o país.

2° Face à paralização criminosa do Colégio Médico, exigimos que lhes aplique a Lei de Segurança Interior do Estado, para que nunca mais esteja nas mãos destes mercenários da saúde, a vida de nossas mulheres e filhos. Todo apoio aos médicos patriotas.

3° Face à paralização dos comerciantes, que não se repita o erro de outubro em que deixamos claro que não necessitávamos deles como corporação. Que se ponha fim à possibilidade de que estes traficantes confabulados com os transportadores, pretendam sitiar o povo pela fome. Que se estabeleça de uma vez por todas a distribuição direta, os armazéns populares, a cesta popular.
Que passe à área social as indústrias alimentícias que ainda estão nas mãos do povo.

4° Face à área social: Que não só não se devolva nenhuma empresa onde exista a vontade majoritária dos trabalhadores de que sejam confiscadas, mas que esta passe a ser a área predominante da economia. Que se fixe uma nova política de preços. Que a produção e distribuição das indústrias da área social seja discriminada. Não mais a produção de luxo para a burguesia.
Que se exerça um verdadeiro controle operário dentro delas.

5° Exigimos que se derrogue a Lei de Controle de Armas. Nova “Lei Maldita” que só serviu para vexar os trabalhadores, com as invasões praticados nas indústrias e povoados, que está servindo como um ensaio geral para os setores sediciosos das Forças Armadas, em sua permissividade de estudar assim a organização e a capacidade de resposta da classe operária numa tentativa para intimidá-la e identificar seus dirigentes.

6° Face à desumana repressão aos marinheiros de Valparaíso e Talcahuano, exigimos a imediata liberdade destes irmãos de classe heróicos, cujos nomes já estão gravados nas páginas da história do Chile. Que se identifique e se castigue os culpados.

7° Face às torturas e morte de nossos irmãos camponeses de Cautín, exigimos um julgamento público e o castigo correspondente aos responsáveis.

8° Para todos os implicados em tentativas de derrubar o Governo legítimo, a pena máxima.

9° Face ao conflito do Canal 9 de TV, que este meio de comunicação dos trabalhadores não seja entregue nem negociado por nenhum motivo.

10° Protestamos pela destituição do camarada Jaime Faivovic, Subsecretário de Transportes.

11° Pedimos que através de vosso próprio apoio, manifeste todo nosso amparo ao Embaixador de Cuba, camarada Mario García Incháustegui, e, a todos os camaradas cubanos perseguidos pelo mais notório da reação e que lhe ofereça nossos bairros proletários para que ali estabeleçam sua embaixada e sua residência, como forma de agradecer a esse povo, que até chegou a se privar de sua própria ração de pão para ajudar-nos em nossa luta. Que se expulse o Embaixador norte-americano, que através de seus porta-vozes, do Pentágono, da CIA, da ITT, proporciona comprovadamente instrutores e financiamento aos sediciosos.

12° Exigimos a defesa e proteção de Carlos Altamirano, Mario Palestro, Miguel Henríquez, Oscar Gerretón, perseguidos pela direita e pela Promotoria naval por defender valentemente os direitos do povo, com ou sem uniforme.

Nós lhe advertimos camarada, que com o respeito e a confiança que ainda lhe temos, se não cumprir com o programa da Unidade Popular, se não confiar nas massas, perderá o único apoio real que tem como pessoa e dirigente e que será responsável por levar o país não à guerra civil que está já está em pleno desenvolvimento, mas ao massacre frio, planificado da classe operária mais consciente e organizada da América Latina. E [nós o advertimos] que será responsabilidade histórica deste Governo, levado ao poder e mantido com tanto sacrifício pelos trabalhadores, habitantes, camponeses, estudantes, intelectuais, profissionais, a destruição e descabeçamento, quiçá a tal prazo, e a tal custo sangrento, não só do processo revolucionário chileno, mas também o de todos os povos latinoamericanos que estão lutando pelo Socialismo.

E se fazemos este chamado urgente, camarada Presidente, é porque acreditamos que esta é a última possibilidade de evitar em conjunto, a perda das vidas de milhares e milhares do melhor da classe operária chilena e latinoamericana.


Coordenadora Provincial de Cordões Industriais
Comando Provincial de Abastecimento Direto
Frente Única de Trabalhadores em Conflito

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