sexta-feira, 29 de Junho de 2007

O Haiti é aqui, no Complexo do Alemão

Moradores do complexo do Alemão são mortos em operação da PM e da Força Nacional de Segurança. Como na ocupação das favelas de Porto Príncipe, no Haiti, negros e pobres são alvos, encurralados pelo tráfico e pela polícia

Nesta quarta-feira, 27, numa megaoperação, a Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiu o complexo de favelas do Alemão, na zona norte carioca. O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, exibe com orgulho o resultado da operação “corajosa”: 19 mortos, armas e drogas apreendidas.

Beltrame, que já havia dito em maio que “não se faz um omelete sem quebrar os ovos” – em referência a mortes anteriores – falou, agora, que todos os mortos são criminosos, mortos em confronto. No conceito do secretário, quem não era “bandido” virou, pois resolveu enfrentar a polícia.

Imediatamente a verdade começou a vir à tona. As famílias das vítimas, inconformadas, denunciam o massacre. Moradores revoltados carregaram os corpos, jogando-os perante os policiais. A Associação de Moradores da Grota chegou a contabilizar 21 mortos. Entidades já se mobilizam pela apuração do que realmente aconteceu no Rio na última quarta-feira.

Foram 1.200 policiais civis e militares e 150 agentes da Força Nacional de Segurança que aterrorizaram a população pobre por cerca de dez horas, atirando e lançando granadas indiscriminadamente. Eles invadiram a favela por volta das 9h, com o “Caveirão”, blindado que é alvo de uma campanha da Anistia Internacional. Escolas, que já funcionavam parcialmente, foram fechadas, e o transporte parou ou foi alterado na região. Moradores foram feridos a bala e estilhaços de granada dentro de suas casas.

No mínimo 10 pessoas foram atingidas, segundo informou a PM: Luana da Silva, 8 anos; Larissa Andrade da Silva, 12 anos; Carlos Henrique Matias Vitoriano, 13 anos; Wesley Glauco da Silva e Ivo Urbano da Silva, 17 anos; Karen Cristina Baptista Borges, 20 anos; Valnice Alves da Silva, 27 anos; Mônica Pinto, 30 anos; Edvan Mariano de Souza, 32 anos; Arlete dos Santos, 48 anos. Arlete foi atingida por um tiro nas costas, na região lombar. Karen teve a perna ferida por estilhaços de granada. Elas não eram traficantes.

Dos mortos, pelo menos 9 já foram identificados. Entre eles, encontram-se três adolescentes de 13 a 16 anos. Desde o dia 2 de maio, quando a PM iniciou a invasão ao complexo do Alemão, já são contabilizados 44 mortos, segundo dados do próprio governo.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) indicou um médico para acompanhar a perícia dos corpos, no Instituto Médico Legal (IML), mas teve o pedido negado pela Secretaria de Segurança. Os laudos serão divulgados somente daqui a uma semana. João Tancredo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, teme, agora, que os resultados sejam forjados. Para ele, o que houve foi um “massacre de civis”.

A operação do dia 27, porém, foi a primeira de muitas, disse Beltrame. “Se precisar voltar lá, vamos voltar. (...) A secretaria tem condição de reunir o dobro do efetivo policial numa nova operação”, declarou. Estariam programadas, além do retorno ao complexo do Alemão, mais seis operações idênticas para os próximos dias em outras áreas: Rocinha, Cidade de Deus, Mangueira, Jacarezinho e Maré.

O governador Sérgio Cabral (PMDB) se pronunciou somente nesta sexta-feira, dois dias depois do massacre, para dizer que a ação da polícia foi “um êxito”. Ele deixou explícito que a operação foi minuciosamente planejada. A operação “foi absolutamente feita com planejamento, inteligência e informações”, disse Cabral.

Caçada aos moradores
A população denunciou roubos e danificação de objetos eletrônicos e eletrodomésticos das residências. Um aposentado que não se identificou disse à agência Reuters: “desta vez, aproveitaram que era muita gente e meterem a mão mesmo”. Ele viu os policiais entrarem na casa de um vizinho e roubarem objetos.

Os moradores relataram que a polícia invadia as casas, quebrando portas e janelas, derrubando paredes. Embora a Secretaria de Segurança e o IML não confirmem, Maurício Campos, da Rede de Comunidades Contra a Violência, denunciou à Folha de S. Paulo que os moradores relataram o assassinato de um menino de 10 anos a facadas. “Moradores contaram que o corpo de um garoto de 10 anos foi erguido por policiais preso a um punhal”, diz a matéria da Folha.

Nesta sexta-feira, os jornais trouxeram fotos das residências. Numa delas, dois buracos de balas marcam a parede poucos centímetros acima de um berço. Na outra, um cômodo está totalmente destruído por granada jogada por policiais, segundo os moradores informaram ao jornal.

Moradores do Complexo do Alemão, entidades civis, movimentos sociais e ONGs publicaram um manifesto exigindo o fim da política de confronto nos morros do Rio de Janeiro. O texto afirma que a megaoperação “é resultado de uma política de segurança pública baseada no confronto e é criminalizadora da pobreza”. O manifesto diz ainda que “A sociedade não pode legitimar uma política de segurança pública pautada pelo processo de criminalização da pobreza e de desrespeito aos Direitos Humanos”.

Ação é para mostrar serviço às vésperas Pan
Os Jogos Pan-Americanos, que iniciam no dia 13 de julho, estão sendo usados como pretexto para a prática de extermínio e para a política de “higienização social” no Rio de Janeiro. Quanto aos objetivos oficiais da operação, em longos dois meses, não se tem notícias de que a polícia tenha desmontado ou sequer fragilizado o centro do tráfico.

Maurício Campos afirma que o número de homicídios em ações policiais, no primeiro trimestre de 2007, aumentou em 40%. Já a apreensão de drogas, suposto motivo das invasões policiais nas comunidades carentes do Rio, caiu 8%, e as prisões e o recolhimento de armas também diminuíram: 21% e 9%, respectivamente. “Esses números são a prova de que a política do governo é do extermínio”, disse Campos ao jornal O Estado de S. Paulo.

Esse massacre, como outros que poderão vir, segundo se deduz das declarações de Beltrame sobre a continuidade das operações, está combinado com um forte aparato repressivo aos movimentos sociais. Recentemente, uma reportagem no canal de televisão Globo News mostrou como a polícia do Rio estava se preparando para garantir a segurança durante a competição. As imagens mostravam uma simulação de manifestação, em que a polícia continha um grupo de ativistas.

Nas ruas do Rio, a população já mostra o que pensa. A mascote do Pan, o solzinho Cauê, está sendo grafitada pela cidade, com uma metralhadora nas mãos.

O Estado se utiliza do número de mortos como indicador de eficiência: a polícia está agindo, e os turistas e delegações poderão apreciar os jogos com tranqüilidade. Para as populações pobres das favelas, aumenta o medo, a revolta e a indignação.

Haiti é modelo para invasões da polícia no Rio
A crueldade das autoridades chegou a tal ponto de militares classificam a operação de quarta-feira como uma “demonstração de força” para intimidar os traficantes. O comandante do Exército, Enzo Martins Peri, se espelhou no massacre no bairro Cité Soleil, no Haiti, em fevereiro deste ano, para defender a entrada do Exército nos morros cariocas. Para ele, como no Haiti, é preciso a presença “ostensiva e permanente das forças de segurança”.

Em Cité Soleil, como no Rio, o Exército brasileiro diz ter pacificado a região. O que aconteceu de fato foi o massacre de uma comunidade, espalhando medo e terror no bairro pobre de Porto Príncipe, capital haitiana. No Rio, o Exército defende a mesma tática: ações ostensivas e massacre de civis para controlar a comunidade.

A ação no complexo do Alemão indica ainda qual a orientação do governo Lula para o combate à violência. Nada diferente da fórmula “mais polícia”, aplicada por governos do PSDB ao PFL. Recentemente, no lançamento do “PAC da segurança”, Lula falou que teríamos novidades por aí, a começar pelo Rio de Janeiro. A “novidade” de que fala Lula não passa da velha e eterna política do “capitão-do-mato”, armado até os dentes e atirando contra os negros e pobres.


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