Nenhuma confiança na Justiça

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Por que Moro não vai a fundo e revela toda a sujeira do PSDB? Ele estaria disposto a acabar com os privilégios gozados por juízes e magistrados? A verdade é que a Justiça é implacável com o povo pobre.

No dia 13 de março, os atos que tomaram as ruas de muitas capitais brasileiras fizeram  referência ao juiz Sérgio Moro: “nós, o povo brasileiro, estamos do seu lado! Confie! Cumpra seu dever e faça justiça! O Senhor (com ‘S’ maiúsculo mesmo) nos representa!”. Frente ao enorme descrédito dos políticos e do Congresso, a Polícia Federal e a Justiça tentam se apresentar à população como instituições incorruptíveis, como saída para a crise atual, pois seriam a parte boa do sistema. Porém isso é um grande engano. A Justiça tem lado e não é o lado dos mais fracos, dos trabalhadores e do povo pobre. Estas instituições são parte da democracia dos ricos, defendem os interesses dos poderosos.


A mesma PM que protege manifestantes na Paulista, reprime protestos sociais, como as manifestações dos estuantes secundaristas em São Paulo.

Dois pesos e Duas medidas
A operação Lava Jato levou muitos corruptos e donos de empreiteiras para a cadeia. Algo impensável há alguns anos. Contudo, é preciso ter cuidado ao analisar os fatos. Ao contrário do PT, não lamentamos as prisões da Lava Jato. Condenamos as opções feitas pelo PT: esse partido se misturou e se vendeu à corrupção dos banqueiros, dos empreiteiros e de toda a corja do Congresso Nacional. Desde 2003, governa o país para os ricos. Entregou, anualmente, metade do orçamento aos banqueiros, privatizou o pré-sal, garantiu os lucros dos banqueiros e empresários.

Entretanto, a burguesia tem seus interesses, e entre as suas características não está a fidelidade. Mesmo sendo seu amigo mais leal, o PT pode ir para a fogueira se for necessário. Quando interessa, a Justiça pune e prende. Na esmagadora maioria das vezes, age com total parcialidade. Pune pobres, negros e trabalhadores. Absolve ricos e poderosos e, eventualmente, quando convém, prende seletivamente alguns corruptos.

Na imensa crise política que vive o Brasil, a repercussão midiática que está tendo o Juiz Sérgio Moro é uma tentativa de reforçar a credibilidade da população nas instituições da democracia dos ricos, apoiando-se na Justiça. Assim como faz o boiadeiro, que entrega um boi doente às piranhas para que o rebanho atravesse com segurança, o sistema capitalista lança o PT para que o conjunto de corruptos atravesse impune. Por isso, as investigações da Lava Jato não vão a fundo. Uma das contradições da operação é o fato de estar livrando a cara do PSDB. As empreiteiras investigadas pela Lava Jato também financiam o PSDB.

Além disso, os tucanos estão no centro de vários casos de corrupção: desde citações feitas por delações premiadas até roubo de verba da merenda de escolas públicas em São Paulo. Por que não se investiga isso? Por que Moro não vai a fundo e revela toda a sujeira do PSDB? Na verdade, a Polícia Federal, o poder Judiciário e o Ministério Público atuam com dois pesos e duas medidas. Por isso, não merecem nenhuma confiança dos trabalhadores e do povo pobre.

A “Justiça” é dos ricos e poderosos
A polícia que protegeu os manifestantes da Avenida Paulista no dia 13 de março é a mesma que espanca negros nas favelas, que reprimiu os atos de junho de 2013, que bate nos  professores em greve e criminaliza os estudantes de São Paulo. A Justiça, que agora aparece como incorruptível, calou-se durante décadas sobre os  escândalos do PSDB. Absolveu corruptos notórios como Collor, Maluf, Jader Barbalho, Sarney e tantos outros que têm a “ficha limpa”, por “falta de provas”.

O caso da Samarco é exemplar: um crime desastroso. No entanto, até agora ninguém foi preso, não houve nenhuma condução coercitiva. As famílias dos ribeirinhos do Rio Doce passam fome, enquanto os acionistas da Samarco/Vale recebem seus milionários dividendos.

Outro exemplo é o metrô de São Paulo. A greve da categoria, em 2014, foi julgada abusiva. O sindicato foi punido com R$ 900 mil de multa. Apesar de o direito de greve ser garantido pela Constituição, a lei mais importante do país, o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin (PSDB), demitiu 41 trabalhadores, e 37 deles até hoje continuam na mesma situação. A mesma Justiça que não pune os políticos envolvidos no escândalo de corrupção do metrô.

Todo mundo que vive na periferia sabe que essa justiça é racista e que só pune o povo pobre. Uma demonstração disso é o retrato da população carcerária brasileira, a quarta maior do mundo, com mais de 600 mil presos segundo o Infopen. Grande parte deles, 40%, são presos provisórios que não foram julgados. Se fossem ricos, teriam advogados e sairiam da cadeia. Na sua imensa maioria, os presos são jovens (266.356 mil) e negros (295.242) segundo o Mapa do Encarceramento de 2015.

Nenhuma confiança em Sérgio Moro
Elogiado pela Globo e pelas empresas, o juiz Sérgio Moro é um frequentador dos meios empresariais e teria relações com políticos do PSDB. Sua esposa teria assessorado Flávio José Arns, vice do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB). Recentemente, Moro esteve numa palestra para empresários da Lide Paraná, uma entidade que tem como coordenador nacional João Dória, pré-candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo.

Sérgio Moro também é o retrato da Justiça que goza de imensos privilégios e é totalmente antidemocrática. Segundo o portal da Justiça Federal, Sérgio Moro recebe R$ 87.194,79, uma remuneração 20 vezes superior à média da do trabalhador brasileiro. Será que Moro aceitaria acabar com os altos salários e os imensos privilégios do poder  Judiciário? Certamente não. Tampouco defende formas de controle popular sobre a Justiça, como a eleição de todos os juízes, com mandatos revogáveis.