Não, o universo não está morrendo!

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Imagem da Nebulosa da Águia, da constelação de Serpente

Recentemente foi anunciada uma descoberta terrível (pode ser lida aqui, aqui e aqui): que nosso universo estaria supostamente morrendo! Astrônomos de vários países, utilizando alguns dos telescópios mais potentes do mundo, compararam durante anos a diferença entre a emissão de luz de mais de 200 mil galáxias há 2 bilhões de anos atrás com a emissão atual. E concluíram que ela hoje é quase duas vezes menor. A notícia não chega a ser uma surpresa, pois é sabido que as estrelas brilham devido à fusão do hidrogênio primordial remanescente do Big Bang[i] em hélio e outros elementos pesados. E ao morrer, as estrelas ainda espalham este hidrogênio, diminuindo assim tanto a sua quantidade quanto concentração. Isso impacta na taxa de formação de novas estrelas, que nascem em menor quantidade, menores e, portanto, irradiam menos energia luminosa. É isto que foi agora detectado experimentalmente.

A questão é que esta descoberta está sendo considerada como “prova” de que o universo estaria morrendo. Que com menos possibilidades de formar estrelas, o universo se faria mais escuro e frio a cada dia, até que as estrelas deixem de existir e reste somente uma imensidão fria, escura e vazia, um universo morto[ii]. Seria verdade?

I- Um universo em desenvolvimento
A diminuição da quantidade e concentração de hidrogênio, combustível da formação estelar é, de fato, uma prova cabal de que o universo não pode se manter para sempre no estado atual. Que não foi no passado da maneira como o conhecemos hoje e que tampouco será assim no futuro. Mas não há motivo para tristeza, pois este é um sintoma de vida e não de morte! Afinal, este combustível não está desaparecendo e sim se transformando em átomos cada vez mais pesados, passando pelo hélio, lítio, carbono, oxigênio, ferro, etc., ao longo de toda a tabela periódica. Está formando elementos mais complexos a cada dia, necessários, entre outras coisas, ao surgimento da vida. Não nos esqueçamos de que cada átomo que compõe cada um de nós (à exceção do hidrogênio) foi sintetizado no interior de uma estrela que já explodiu. Os restos destas explosões dão origem a outras estrelas e planetas, entre os quais o nosso Sol, a Terra e tudo o que há nela, nós mesmos incluídos. Somos literalmente filhos das estrelas, gerados em seus ventres e paridos em catastróficas explosões de supernovas!

Que nos perdoem os atuais profetas do Apocalipse, mas universo morto era o universo de alguns bilhões de anos atrás, formado somente de hidrogênio e hélio primordiais, que não permitiam o surgimento da vida! É justamente a síntese de elementos pesados a partir da fusão nuclear estelar, sintoma de senilidade para tais agourentos, que permite que a matéria possa se organizar em formas mais complexas, capazes de servir como base para a vida e mais tarde para a consciência, fruto mais elevado da evolução da matéria. Além disso, as estrelas primordiais, de 1ª geração, sem elementos pesados, não possuíam planetas de tipo terrestre em suas órbitas e viviam apenas alguns poucos milhões de anos antes de explodirem em supernovas. Este tempo era insuficiente para a aparição e desenvolvimento da vida nos seus arredores, que no caso da Terra exigiu alguns bilhões de anos de estabilidade solar para surgir e evoluir até o presente momento.

Mesmo com quase 14 bilhões de anos passados desde o Big Bang, o universo conta ainda hoje com cerca de 99% da matéria atômica conhecida na forma de hidrogênio e hélio primordiais. E sua taxa de processamento é muito lenta. A quantidade de elementos pesados, além do lítio, segue sendo baixíssima, mas mesmo assim já permitiu a formação de estrelas de 2ª, 3ª e demais gerações como o nosso Sol, galáxias, nebulosas, luas, cometas, asteroides e planetas, e pelo menos num destes, de vida consciente! Então não é que nosso universo esteja morrendo e sim que está recém despertando para a vida! E só temos a esperar mais vida à medida que se sintetizem mais e mais formas superiores de matéria, cada vez mais complexas, com estrelas com estabilidade suficiente para possibilitar as condições necessárias para tal.

Já sobre um futuro muito distante, onde a taxa de formação estelar caia a zero e já não haja calor suficiente para sustentar a vida em nenhum lugar do cosmos, não passa de especulação, com praticamente nenhuma base científica. De acordo ao que sabemos sobre a evolução do universo hoje, este será capaz de sustentar a vida como a conhecemos por trilhões de anos. Especular sobre intervalos de tempo maiores do que esse, considerando o atual estágio de conhecimento sobre a evolução do universo, não faz nenhum sentido. Como a matéria segue se organizando em formas cada vez mais complexas, devemos esperar um universo cada vez mais rico em possibilidades e não o oposto.

É verdade que não se pode descartar teoricamente a possibilidade de que, em sua permanente mudança, a parte do universo em que nos toca viver venha a atingir estados em que a vida como a conhecemos hoje, baseada em cadeias de carbono, se torne impossível. Mas tampouco se pode descartar a possibilidade de que, num universo ainda mais complexo do que o atual, com formas mais ricas e elevadas de matéria, este possa vir a possibilitar vida e consciência em formas que sequer hoje ousamos sonhar. No atual estado de nosso conhecimento, o que sabemos é que, na parte que podemos observar do universo, este está em expansão acelerada, sintetizando elementos químicos mais pesados no interior das estrelas e que é capaz de sustentar a vida como conhecemos até qualquer horizonte de tempo previsível. É um universo aberto de possibilidades, que se multiplicam a cada instante. Não será, pois, um universo mais pobre, mas ainda mais rico em possibilidades no futuro. E se a humanidade, superando suas terríveis contradições sociais, chegar a este futuro distante, como firmemente acreditamos, terá material muito mais rico que o atual para trabalhar em prol de sua sobrevivência ulterior.

A hipótese “científica” do fim do mundo, versão “ateísta” do Juizo Final, também chamada “morte térmica do universo”, que usa e abusa da 2ª  Lei da Termodinâmica[iii] para se justificar, não tem embasamento real. Esta lei é um princípio válido para sistemas fechados. Nosso universo não é um sistema fechado e seu futuro não está pré-determinado por nenhuma teoria científica! Teorias científicas podem prever cenários possíveis e prováveis, linhas gerais de desenvolvimento, e não o “destino final” do universo, dado que este não está definido de antemão. A 2ª Lei da Termodinâmica não indica que o universo caminha para a morte, mas tão somente que o universo caminha! Que não é estático e que não deixará de existir, como bem expressa a 1ª Lei da mesma Termodinâmica, (sempre “esquecida” pelos arautos do fim do mundo) que diz que a energia/matéria não se cria nem se destrói, sempre se transforma.

E não nos esqueçamos de que nesse universo há ainda o fator consciente, ou seja, nós. Sendo a consciência a forma mais elevada de existência da matéria, não seria de se estranhar que justo o seu papel fosse irrelevante para o futuro do universo? A humanidade vive uma encruzilhada histórica, um momento crítico em seu desenvolvimento, e somente a classe trabalhadora pode lhe dar uma saída progressiva. Disso depende o futuro de nossa civilização. Este é o limite atual da ação humana transformadora, onde “mudar o mundo” ainda se restringe a revolucionar a sociedade em que vivemos. Mas não há nenhum motivo para crer que nossa capacidade se limite a construir o futuro de nossa civilização, nem tampouco apenas na Terra. Livre das amarras da sociedade capitalista, uma humanidade com milênios e milhões de anos de futuro assegurado para desenvolver a ciência, a técnica e a cultura a níveis inimagináveis e colonizar outros corpos celestes, dificilmente encontrará em seu caminho limites intransponíveis. A expressão “mudar o mundo” ganhará no futuro contornos muito mais amplos! Não só o futuro da Terra, como o futuro do universo nos pertence!

II- Um universo em permanente movimento
A maioria das representações do universo ao longo da história era estática, com um início místico-religioso. Afirma que em um determinado momento, algum Deus (“princípio” ou “energia”, como preferem os esotéricos) criou o universo como o conhecemos hoje e desde então ele permanece o mesmo, girando imutável em torno de si mesmo, aguardando seu fim pelas mãos do mesmo Criador. Os únicos momentos históricos neste universo seriam sua criação e seu inevitável fim.

Esta visão foi bem estabelecida no sistema geocêntrico de Aristóteles-Ptolomeu. O universo seria formado por esferas cristalinas concêntricas e perfeitas, cada uma com um planeta incrustrado, sendo a esfera das estrelas a mais externa e a Terra estática no centro do sistema, com o Sol e demais corpos celestes a orbitando. Este sistema era perfeito, imutável e havia sido colocado em movimento por Deus. E desde então seguiria dando voltas, pelo menos enquanto este Deus não se aborrecesse com Sua Criação. Neste modelo, o movimento natural no céu, morada dos deuses, era o movimento circular das órbitas planetárias, enquanto que o movimento natural na Terra era para baixo, rumo ao repouso.

Este foi o mais completo modelo de universo da Antiguidade e totalmente incorporado então pela Igreja ao dogma oficial (lugar natural de cada um predeterminado por Deus, repouso como estado natural da matéria, leis distintas para a Terra, morada dos homens, e para os Céus, morada de Deus). Só veio a ser derrubado, parcialmente, depois de vários séculos, com a grande Revolução Copernicana-Galileana, que foi parte dos importantes avanços da cultura humana que acompanharam o período das revoluções burguesas na Europa.

Começando com o modelo heliocêntrico de Copérnico, que tirava a humanidade do centro da Criação, passando pelas descobertas astronômicas de Galileu com seu telescópio, que mostravam que o Céu não era perfeito nem imutável e que em muitos aspectos era parecido à Terra, até a sua ideia de inércia, generalizada por Newton e que unificou o Céu e a Terra sob as mesmas leis, objetivas e naturais, foi um longo caminho. Sempre marcado pela feroz repressão da Inquisição Católica, que levou heróis do pensamento humano como Giordano Bruno à fogueira.

O novo modelo conquistado, a Gravitação Universal de Newton, cumpriu uma imensa tarefa ao unificar o Céu e a Terra sob as mesmas leis naturais (“Todos são iguais perante a lei!”, como bradavam as revoluções antimonárquicas e anticlericais de então). Abriu assim à humanidade a possibilidade de investigar os céus e eliminou os territórios sagrados e proibidos à ciência.

Mas este foi somente um começo. Para Newton, o universo seguia sendo imutável desde que Deus o havia posto em movimento. Aliás, havia uma inconsistência séria no seu modelo, pois sendo regido pela gravidade, deveria mais cedo ou mais tarde se colapsar. Newton não podia responder a este problema sem recorrer a explicações divinas. Havia ainda que esperar alguns séculos até o surgimento da Teoria da Relatividade de Einstein.


Fotografia da Via Láctea de um ângulo em que aparecem mais de um milhão de estrelas

Einstein partiu de outro problema, não-cosmológico, as inconsistências entre a Mecânica de Newton e a Teoria Eletromagnética[iv]. Mas tão logo sua teoria ganhou forma, suas implicações cosmológicas surpreenderam ao mundo e ao próprio Einstein, que até então acreditava também num universo estático. A Teoria da Relatividade Geral deixava explícita a inconsistência já notada no modelo de Newton, de que o universo não podia ser estático. Que era obrigatoriamente dinâmico, ou se colapsaria pela ação da gravidade. Ressaltamos este resultado pela sua importância – segundo a Teoria da Relatividade Geral, um universo estático, imutável, é impossível[v]! É neste momento que nasce a Cosmologia moderna, como ciência histórica que estuda a evolução do universo, com o modelo do Big Bang e de um universo em expansão, aceitos até hoje em dia.

Mas mesmo este modelo manteve ainda aspectos da velha concepção aristotélica, notadamente que o movimento universal teve um início ex-machina, ou seja, externo ao modelo, misterioso, e que tende naturalmente ao repouso, que seria o estado natural da matéria. O modelo padrão do Big Bang afirma que houve uma explosão inicial (não explicada pelo modelo) e que desde então o universo vem se esfriando e diminuindo o seu ritmo de expansão, parando, supostamente “morrendo”. A tão anunciada medição da diminuição da emissão estelar somente nos confirmaria que “o fim está próximo”.

Pois esta suposta “morte lenta” do universo não está de acordo aos recentes avanços da física! Em 1998 foi feita uma grande descoberta (que rendeu um prêmio Nobel), de que o universo não está diminuindo sua expansão e sim acelerando! Se tudo não passava de um “sopro inicial” no Big Bang, o universo não deveria estar hoje se desacelerando? Os físicos vêm tentando responder a esta questão com várias hipóteses exóticas, como a da chamada energia escura. Independentemente da resposta que a física venha a dar a este problema, fica claro a cada novo avanço da ciência que o universo não é estático nem tampouco tende ao repouso. Que seu estado natural é, ao contrário, o eterno movimento, compreendido não somente como movimento mecânico, repetitivo, circular, que nada mais seria que uma forma de repouso, mas movimento compreendido como permanente desenvolvimento, progresso, crise, evolução, revolução. Não é estático nem tampouco tende ao repouso! Tem uma história, evolui, retrocede, muda de forma e de estado, avança, regride novamente, se diferencia, se destrói parcialmente, se supera uma vez mais, “transcresce” e se metamorfoseia em formas cada vez mais variadas, ricas e complexas. É um universo profundamente dialético e nem poderia ser de outra forma, dado que a própria dialética nada mais é que uma generalização humana do conjunto de fenômenos observados do próprio universo.

III- Um universo que tende à vida e à consciência
Existem profundas razões para que tanta gente acredite que o universo teve um início e necessariamente terá um fim. Muitos cientistas e filósofos costumam dizer que esta visão deriva da simples constatação de que tudo o que conhecemos possui um início e um fim, e que esta seria, portanto, uma conclusão lógica e natural. Mas não é bem assim. Afinal, da mesma maneira que sabemos que tudo começa e acaba, todos também sabemos que o fim de algo corresponde necessariamente ao início de algo novo, numa sucessão interminável. Que o fim de uma estrela primordial dá origem a estrelas de 2ª, 3ª e demais gerações, como o nosso Sol, ricas em elementos pesados vitais e capazes de formar sistemas planetários estáveis ao seu redor, pelo menos alguns deles capazes de abrigar vida. Que a extinção dos dinossauros abriu a possibilidade do domínio dos mamíferos, sem o qual o Ser Humano não poderia haver surgido. Que cada indivíduo que morre pode deixar descendentes, e no caso humano, uma herança ainda maior: uma obra cultural, artística e científica, ou a mais rica delas, a possibilidade de atuar para legar um mundo melhor aos descendentes de toda a humanidade. Não, a razão destas crenças no fim do mundo não está na natureza nem é resultado de simples observações empíricas.

Poderíamos tentar explicar tal visão de mundo relembrando que a Igreja e poderes estabelecidos tem necessidade do mito do Apocalipse para justificar todas as injustiças do mundo e sustentar sua crença num Deus que faça justiça, pelo menos no dia do Juízo Final. Nem falar da utilidade desta como medida de terror contra os que ousarem desafiar seus mandamentos, que sofreriam a danação eterna como hereges. Isso sem dúvida ajuda a compreender a força de tais crenças em amplas camadas da população. Mas tampouco explica totalmente a popularidade de tais ideias. Afinal, os meios de comunicação que noticiaram a lenta morte do universo não são (pelo menos não todos) órgãos do medievalismo religioso. Entre eles há, inclusive, várias publicações científicas sérias que sustentam tais concepções, assim como grande quantidade de cientistas, inclusive muitos que se consideram não-religiosos e materialistas. O matemático e filósofo Bertrand Russel, em um livro intitulado Por Que Não Sou Cristão, escreveu que “A Terra não será sempre habitável; a raça humana se extinguirá, (…) A 2ª Lei da Termodinâmica faz com que dificilmente possamos duvidar de que o universo está se deteriorando, (…) e que irá arrastar-se, (…) até chegar a uma condição de morte universal”. Poderíamos incluir aqui citações ainda mais terríveis de vários grandes cientistas que assim pensam. Isso já não se explica somente pela ação da Igreja, há que buscar uma razão mais profunda.

A concepção de que tudo o que existe não passa de uma mera flutuação quântica do nada, que deu origem a um universo sem razão; onde num pequeno planeta azul, por puro acidente surgiu a vida e a consciência; e que inexoravelmente tudo isso acabará, retornando ao nada e arrastando tudo consigo numa existência absolutamente sem sentido; se adequa perfeitamente ao capitalismo decadente em que vivemos. Somente um universo absolutamente sem razão de ser, onde o Big Bang, a existência da vida na Terra e a própria humanidade não passem de meros acidentes do acaso e esteja tudo caminhando para o seu inexorável fim, quando não sobrará nem rastro da existência deste mundo onde vivemos, pode se harmonizar com a ostentação mais absurda de uma minoria, sustentada numa crescente exploração da maioria da humanidade.

O consumismo sem limites, o luxo, o desperdício e a indiferença de um lado; a fome, a miséria, a depredação e a degradação humana de outro. O crescimento das forças destrutivas, a degradação do meio ambiente, o risco das armas nucleares, a exploração/escravização do homem pelo homem…. Tudo em nome do lucro, único sentido para a vida numa vida sem sentido. Qualquer absurdo pode ser aceito se, afinal, tudo vai se acabar mesmo, mais cedo ou mais tarde[vi]…. Uma sociedade sem sentido, destrutiva e irracional só pode existir num universo também sem sentido, destrutivo e irracional – tudo de acordo às “leis da natureza”[vii]!

Esta visão desesperançada de mundo acaba por sedar e desviar as pessoas de sua busca, esta sim racional, pela verdade, justiça e esperança num futuro melhor e num sentido para a vida. E aquela filosofia tão popular entre os cientistas, o positivismo, ao negar a possibilidade de conhecimento da Verdade*[viii], involuntária e inevitavelmente reflete esta visão. Lenin já alertava que ignorar a dialética na análise dos problemas filosóficos da física do século XX conduz mais cedo ou mais tarde ao idealismo. O mesmo é válido para a física do século XXI. A filosofia positivista, em todas as suas variantes empirista, pragmática, materialista vulgar ou agnóstica, enche a boca para acusar o materialismo dialético de metafísico, mas ao sustentar um universo sem sentido e sem razão, abandona aos que buscam este sentido na vida, deixando-os indefesos ante a religião, que sempre pode oferecer um prêmio de consolação ante o fim do mundo, a velha crença numa alma imortal que dê sentido para a vida… após a morte!

Pois o materialismo dialético declara guerra a esta forma de pensar! Declara guerra ao pessimismo filosófico, seja em sua versão religiosa do Juízo Final, seja disfarçado de realismo científico. Afirma desde seus inícios que o universo não é estático, não tende ao repouso, não foi criado nem deixará de existir! Não veio do nada nem ao nada retornará. Existiu, existe e existirá, em suas infinitas formas eternamente cambiantes. Transforma-se, evolui, retrocede, progride e se revoluciona! Que em seu infinito desenvolvimento, suas formas de existência mais elevadas, a vida e a consciência, não são acidentes, não são frutos do acaso nem de criação divina, mas sim resultado natural do eterno movimento da matéria, de formas não atômicas a atômicas, de não moleculares a moleculares, de não orgânicas a orgânicas, de inanimadas a vivas, de inconscientes a conscientes! Toda a ciência moderna corrobora incessantemente esta visão de mundo!

E sendo o fruto mais elevado deste infinito desenvolvimento, não pode a nossa existência ser desprovida de sentido! Ora, o sentido da existência, da vida, das coisas, não existe em abstrato, metafisicamente. Na ausência de consciência, nada pode fazer sentido! Qualquer sentido para a existência só pode ser construído pelo Ser Humano, como Ser Consciente. Nós somos a consciência do universo, e por isso mesmo, pelo menos enquanto a existência de outras civilizações no universo se mantenha no terreno da especulação, somos nós os únicos que podem dar um sentido à existência! Quão arrogante pode parecer esta afirmação, que nossa frágil espécie, ainda nos cueiros de sua história, refém por enquanto das tremendas contradições sociais que resultaram de seu próprio desenvolvimento inconsciente e que nos ameaçam seriamente de extinção, possa se considerar a consciência do universo e encontrar nisso o sentido de sua existência!

Mas este sentido já é percebido hoje, de forma fragmentária e apenas parcialmente consciente. Alguns o encontram na luta diária pela existência individual, outros na luta por dias melhores para os filhos, para o seu povo ou nação oprimida. Outros o encontram parcialmente em sua obra artística ou científica ou na educação da geração mais jovem. De forma muito mais ampla e satisfatória se pode encontrá-lo na luta por um futuro socialmente justo para a humanidade, que a livre da barbárie capitalista que a condena à degradação e autodestruição. E após a superação do capitalismo, o mesmo sentido da vida se encontrará em seguir desenvolvendo as capacidades humanas, dominando mais e mais a natureza, enfrentando problemas vindouros, sejam de ordem ecológica ou possíveis limites objetivos para o crescimento da humanidade devido aos recursos limitados de nosso planeta, seja o risco de catástrofes que ameacem nossa existência. Seja com medidas que possam compensar o aumento previsto da temperatura solar dentro de alguns bilhões de anos (ou sua diminuição), seja com a colonização de outros planetas próximos. Seja mesmo com a possibilidade de haver que abandonar a Terra e inclusive o Sistema Solar no futuro.

Todos estes objetivos parciais são como momentos de um objetivo global, que se sintetiza exatamente em enfrentar e vencer cotidianamente a 2ª Lei da Termodinâmica, em cada uma de suas expressões concretas! Afinal, a capacidade de realizar trabalho, única forma de contrapor a tendência ao aumento da entropia, é a característica que nos diferencia do restante do reino animal! Aliás, a consciência é justamente resultado do desenvolvimento de nossa capacidade de realizar trabalho, como o demonstra toda a antropologia moderna. Enquanto fruto mais elevado da evolução da matéria, o Ser Consciente, aquele capaz de realizar trabalho, é a prova de que o universo não está condenado nem à desordem entrópica nem à morte térmica!

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*Físico e revolucionário

dd.russia@yahoo.com.br
 

Notas

[i]Segundo cálculos que levam em conta as condições previstas nos 1os instantes após o Big Bang e dados empíricos como a meia-vida do nêutron, o universo teria saído do Big Bang teoricamente com uma composição de 75% de hidrogênio leve, 25% de hélio 4, 0.01% de deutério (hidrogênio pesado), traços mínimos de hélio 3, lítio e berílio, e nada de outros elementos. Que as abundâncias observadas no Universo sejam consistentes com estes números se considera uma forte prova da teoria do Big Bang.

[ii] Em seu artigo original, os autores da descoberta simplesmente anunciaram o resultado obtido de diminuição da emissão estelar, sem conclusões metafísicas sobre a morte do universo. Foi a revista que publicou o artigo que exigiu modificar o texto para incluir a ideia de que o universo esteja morrendo.

[iii] A 2a Lei da Termodinâmica afirma que num sistema fechado a desordem (entropia) tende a crescer com o tempo. É a lei que explica porque a casa fica suja se não se realiza trabalho para limpá-la ou porque é mais fácil quebrar um ovo que reconstruí-lo. Na física isto se explica pela estatística, pois havendo mais estados desorganizados e de equilíbrio térmico do que estados organizados e de desequilíbrio, simplesmente se tende aos estados mais prováveis. No materialismo dialético, se um sistema fechado tende ao aumento de entropia é justamente por, sendo fechado, haver sido isolado do movimento universal. Por sistema fechado se compreende aquele isolado por fronteiras adiabáticas, ou seja, que não permitem trocas de energia com o exterior. Pela própria definição fica claro que o universo não pode ser considerado fechado, dado que não tem sentido se falar em “exterior” ao universo e que a própria Teoria da Relatividade proíbe a existência de fronteiras neste. Os profetas do fim do mundo sempre interpretaram a 2ª Lei da Termodinâmica como a “prova” de sua concepção de que tudo tende a um fim, a “morte térmica” do universo. O materialismo dialético desde Engels combate esta visão, sempre combinando a 2ª Lei da Termodinâmica com a 1ª Lei da mesma Termodinâmica, que afirma que a energia/matéria se conserva, somente mudando de forma. Enquanto a 1ª Lei é uma expressão de que o universo não tem nem origem nem fim, a 2ª Lei expressa simplesmente que ele não pode ser estático, que está em permanente movimento.

[iv] A Mecânica de Newton afirma que a velocidade de um corpo depende do sistema de referência, enquanto que a Teoria Eletromagnética de Maxwell afirma que a velocidade da luz é constante, independentemente do referencial. A Teoria da Relatividade Restrita resolveu a contradição alterando profundamente nossas concepções de tempo e espaço, que deixaram de ser considerados como absolutos. Esta foi depois generalizada com a Teoria da Relatividade Geral, ao incluir a gravidade no seu escopo, alterando ainda mais nossas concepções de tempo e espaço, desde então considerados como “curvos”.

[v] Para ser exato, das equações da Relatividade Geral se deriva naturalmente que o universo não pode ser estático. Einstein percebeu isso logo de cara, e como acreditava num universo estacionário, incluiu ad hoc um termo extra na sua equação, modificando-a, para compensar a tendência inerente ao movimento. Einstein se referiu mais tarde a este episódio como tendo sido o maior erro de sua vida.

[vi] Foi o caso do próprio Bertrand Russell, entusiasta do comunismo na juventude (chegou a viajar à Rússia e reunir-se com Lenin nos primeiros anos do poder soviético). Mais tarde, corretamente desiludido com o estalinismo, compreensivelmente deprimido com as armas nucleares, mas sem ver alternativas (nunca se aproximou do trotskismo), se tornou pessimista quanto ao futuro da humanidade. Cumpriu papel importante nas campanhas pelo desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.

[vii] Isto foi bem desenvolvido no filme Teorema Zero, de Terry Gillian (2014), onde num futuro distópico próximo, uma megacorporação capitalista investe muito para comprovar um tal Teorema Zero, que afirma que 0 = 100%, ou seja, que nada faz sentido. Que o universo veio do nada por mero acaso e inexoravelmente retornará ao nada, afirmação necessária para desviar as pessoas da busca pela verdade e de um sentido para a vida e se contentarem com um consumismo bizarro. No filme, o tal Teorema Zero se mostra indemonstrável e o protagonista, que parecia buscar o sentido da vida na religião, compreende ao final que o único sentido que pode haver na vida é aquele que nós lhe damos (pelo menos eu interpretei assim ).

[viii] O positivismo é uma corrente filosófica popular na física, localizada no meio-termo entre o materialismo e o idealismo. Afirma corretamente que a experiência é o critério da verdade, mas absolutiza este princípio, dizendo que o único acessível ao conhecimento humano são os resultados experimentais. Assim, os modelos científicos nada mais seriam do que construções arbitrárias, que nos permitem organizar estes resultados experimentais, sem relação com a realidade objetiva, em si mesma inacessível à consciência (ou inexistente, dependendo da escola). Considera que sistematizar resultados experimentais para prever outros é o objetivo possível para a ciência. O positivismo pode ser progressivo quando defende o método científico contra as posições místico-idealistas. Cumpriu assim um papel importante contra o pós-modernismo, que foi fragorosamente derrotado na física, ao contrário da situação nas ciências humanas. Mas possui um lado reacionário, ao negar a possibilidade de conhecimento da realidade, dado que o único que nos seria acessível seriam os resultados empíricos. Desta maneira, ao final, recai também no idealismo.