“Não foi só pelo transporte”

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Matheus Gomes é da juventude do PSTU e do Bloco de Luta

O Portal do PSTU entrevistou Matheus Gomes, militante da juventude do PSTU, da ANEL e do Bloco de Lutas que construiu a vitoriosa ocupação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (RS). No bate-papo, Matheus fala sobre o histórico de luta na capital gaúcha contra o aumento das tarifas, das Jornadas de Junho que sacudiu o país e da vitoriosa ocupação que expressou uma insatisfação com as instituições do regime político

A ocupação na Câmara de vereadores do RS durou 8 dias. Quais foram as razões da ocupação e sua relação com as Jornadas de Junho?
A ocupação da Câmara foi sensacional. O ponto alto de um processo de mobilização em defesa do transporte público que já se estende por mais de sete meses. Foi a terceira onda de lutas na capital gaúcha esse ano. O primeiro momento em que as mobilizações organizadas pelo Bloco de Lutas tomaram conta da cidade foi durante o mês de abril. Os 10 mil jovens que derrotaram o aumento das passagens serviram de exemplo para todo o Brasil. Estávamos diante do prelúdio das Jornadas de Junho. Posteriormente, no mesmo momento em que São Paulo se levantou contra a brutalidade da polícia e o vandalismo dos governos, Porto Alegre acordou novamente para frear a tentativa de reajuste da tarifa de ônibus. Fomos parte da primavera brasileira, nos tornamos milhões e ampliamos nossas bandeiras.
 
É verdade que as principais pautas de debate na Câmara se relacionavam com o transporte público: a abertura das contas das empresas e o passe livre. Mas a tomada de um dos principais símbolos da democracia burguesa, a casa do poder legislativo, é a expressão de uma insatisfação generalizada com as instituições do regime político e o sistema em que vivemos. Nós nos orgulhávamos em afirmar: “estamos trabalhando muito mais que os vereadores”. Essa expressão é um ótimo retrato da situação política atual, pois é das mobilizações que estão surgindo as respostas para os anseios da ampla maioria da população. Os políticos do poder, por sua relação estreita com o capital, não conseguem responder às necessidades básica do povo. A ocupação foi simbólica por acontecer diante de uma realidade em que a correlação de forças entre os de cima e os de baixo se altera para o nosso lado. Não foi só pelo transporte. A pauta do transporte público foi o mote, mais uma vez, mas demonstramos que os nossos anseios são muito maiores. 
 
Bloco de Luta protocola projeto de Passe Livre
 
Como foi o desfecho da ocupação? E qual foi a postura dos governos e vereadores?
Os 8 dias de ocupação fortaleceram significativamente o movimento. Tivemos uma vitória política ao encaminhar dois projetos, um para o executivo e outro que vai tramitar na casa. Isso significa que é o movimento que vai pautar o debate com relação ao passe livre e a abertura das contas das empresas. Agora quem responde é o prefeito Fortunatti e os vereadores. Eles estão acuados, pois tocamos em temas chave e apresentamos propostas que visam atingir o lucro dos patrões. O nosso projeto de passe livre é uma proposta que contém o acúmulo histórico do movimento, ou seja, defende a isenção para estudantes e desempregados, e é claro com relação a quem deve pagar a conta: os empresários. Diferente do projeto apresentado pelo Governador Tarso Genro, o PL do Bloco não inclui isenção de impostos para a burguesia nem sugere que o dinheiro seja transferido de outras áreas sociais, defende que o passe livre seja cláusula pétrea de qualquer contrato e impede que se torne argumento para o aumento das tarifas. Ainda incorpora uma demanda fundamental: a defesa da gratuidade para indígenas e quilombolas, fortalecendo a unidade entre a juventude e a luta dos povos originários. A outra questão é a publicização das planilhas de custo do transporte urbano municipal, debate que expõe a relação promíscua entre os tubarões do transporte e a prefeitura. Algo que deveria ser critério básico da relação entre o estado e os empresários se transforma numa verdadeira caixa preta. Se o transporte é entendido como um serviço essencial e direito de toda a população, as contas devem ser de acesso a todos. Nosso programa está ai, com a palavra, o prefeito e os vereadores.
 
Como era o dia a dia da ocupação e a sua organização?
Vivemos uma experiência rica de auto-organização, o movimento teve um acúmulo organizativo importante. As assembleias se consolidaram como o espaço central de debate. As decisões essenciais e o controle do conjunto das equipes passavam pelo processo de apreciação e aprovação do Plenário. Nos dividimos em equipes de organização, comunicação, interlocução, limpeza, alimentação, segurança e cultura.  A condução da ocupação era coletiva e havia espaço para todos se inserirem nesse processo. A rotina de debates era extensa, discutimos temas como saúde, educação, democratização da mídia e a questão das opressões. O dia a dia da ocupação expressou bem o momento de efervescência política que estamos vivendo e que também traz a ruptura com as velhas formas de fazer movimento e uma batalha permanente contra a sua burocratização. Nesse quesito, o Bloco está se saindo vitorioso. Nossos aliados expressam isso. Contamos com a ajuda de diversos sindicatos e organizações independentes dos governos e patrões e com um apoio fantástico da população, que abastecia a ocupação de acordo com os pedidos feitos via facebook. O papel das redes sociais e da mídia alternativa merece ser destacado. A ocupação foi transmitida quase que integralmente por meios alternativos, como o POSTV e o site do Coletivo Catarse, que mantinham o link aberto 24h, além da cobertura direta da Mídia Ninja, JornalismoB, Sul21, que também cobriram a vida interna da ocupação.
 
Ocupação da Câmara
 
Explica pra gente, o que é o Bloco de luta?
O Bloco se rearticula no início de 2013, mas reflete o acúmulo de lutas contra o aumento das passagens dos anos anteriores. Assim como a Assembleia Popular Horizontal de BH e o Fórum de Lutas do Rio de Janeiro, o Bloco é um novo organismo de luta que se consolidou nas mobilizações de junho. É composto por uma frente de entidades do movimento estudantil, sindical e popular, partidos políticos, organizações anarquistas, autônomas e independentes. Estamos construindo uma perspectiva de representação e unidade de ação importante, que proporcionou avanços para o movimento. A independência frente aos governos e patrões é um dos princípios do Bloco. Dessa forma, intervimos com um programa classista durante as mobilizações de junho e disputamos a direção do movimento com os setores governistas e a direita, assim como no dia 11 de julho. Do ponto de vista organizativo, nos pautamos pela democracia. Temos um funcionamento que se assemelha ao da ANEL, a partir de assembleias que submetem, de forma democrática, um conjunto de comissões. Obviamente, a pluralidade política e ideológica do Bloco traz perspectivas distintas e debates intensos entre os diferentes setores. Mas é pautada em critérios democráticos e na unidade da diversidade que o Bloco está se fortalecendo como coordenação das mobilizações da juventude em Porto Alegre. O desafio agora é conseguir delimitar cada vez mais o seu programa e sua forma de organização, para que o Bloco utilize seu respaldo na massa e o prestígio político na vanguarda para impulsionar outras mobilizações que vão além do transporte público.
 
Quais são os próximos passos?
Nossa grande tarefa agora é a conquista do passe livre e da abertura das contas. Elaboramos os projetos e agora o debate está aberto na sociedade. É o momento de impulsionar a mobilização nas ruas para garantir a implementação dessas propostas. Não podemos confiar nos governos, cada vez mais eles comprovam a incapacidade em atender as demandas do movimento. Só respondem com promessas. Fortunatti disse que o passe livre é inviável. Já Tarso apresentou uma proposta limitada e logo retirou o regime de urgência do projeto. Não temos dúvidas de que nem um e nem o outro vão abraçar o nosso projeto, pois estão comprometidos com os empresários, são financiados por eles. O Bloco deve seguir se articulando e construir uma forte campanha política para a aprovação dos projetos, incorporando em sua pauta de luta as reivindicações do conjunto da classe trabalhadora