Não era só pelo voto! O direito ao sufrágio como símbolo da luta contra a opressão

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Em uma sala de cinema lotada, a plateia lança aplausos contundentes durante a cena em que uma operária bate com um ferro de passar roupas à carvão na mão do patrão. O entusiasmo com o filme “As Sufragettes” parece se misturar com o mesmo que esteve presente nas ruas este ano no Brasil, em que manifestações de mulheres contra o PL 5069 e pelo “Fora Cunha” elevaram o tom dos movimentos feministas, chamado pela imprensa e algumas organizações presentes de “A primavera das mulheres”.

Na película, a luta pelo sufrágio feminino se mistura à luta contra toda a opressão e repressão sofrida pelas mulheres no início do século XX na Inglaterra, especialmente pelas mulheres trabalhadoras. O filme, dirigido pela jovem diretora Sarah Gavron, faz um recorte específico ao ter como foco da narrativa a organização de mulheres que ficou conhecida como “Suffragettes”.

Havia várias organizações que lutavam pelo sufrágio feminino na Inglaterra. A mais conhecida era a NUWSS – National Union of Women’s Suffrage Societies (União Nacional das Sociedades de Sufrágio das Mulheres) fundada em 1897 e presidida por Millicent Garret Fawcett. Esta organização, no entanto, utilizava táticas pacíficas e moderadas. Realizavam ações somente dentro da legalidade.

Em 1903, uma outra organização de mulheres sufragistas é criada, a União WSPU – Women’s Social and Political Union (União Política e Social das Mulheres) fundada em Manchester. Tinha como principais dirigentes as Pankhurts, Emmeline Pankhursts e suas filhas Cristabel, Sylvia e Adela. Ao contrário da NUWSS, a organização presidida por Emmeline considerava que anos de trabalho pacífico e dentro da legalidade não resultaram na conquista do direito ao voto para as mulheres. Ela acreditava que era necessário radicalizar o movimento, partindo para a utilização de métodos de ação direta que atacassem as propriedades e os governantes. Este movimento se diferenciou das sufragistas pacifistas e ficou conhecido como Suffragetes, retratado pelo filme em questão.

Não é por acaso que um dos locais privilegiados das cenas do filme é uma fábrica de tecidos em que a personagem principal é uma operária. As Suffragetes, desde o início, mantinham relações com as militantes do partido trabalhista inglês, muitas delas operárias das indústrias têxteis do norte da Inglaterra. Mas as militantes pelo sufrágio também discordavam da postura dos homens do Partido que não travavam esta luta das mulheres, o que acabou desembocando na ruptura das Pankhurts com o partido trabalhista¹.

O universo da rotina fabril revela a opressão cotidiana que as operárias sofriam e da qual a exploração das jornadas exaustivas e o salário bem menor do que os homens era somente uma parte. Meninas que começavam a trabalhar na fábrica com sete anos e que cresciam em meio ao assédio sexual e estupros do patrão jamais podiam falar sobre o assunto. Tal fato não é mera ilustração de ficção, mas fizeram parte da história da inserção das mulheres no trabalho fabril.²

Quebrando as correntes
Quase todas as figuras masculinas retratadas no filme representavam dor, sofrimento e submissão. O patrão, o policial, o deputado, e, sobretudo o marido, eram aqueles que exploravam, estupravam, batiam, prendiam, e tiravam qualquer perspectiva de autonomia para as mulheres. A única exceção é o marido de Edith Ellyn, personagem solidário que é colaborador das suffragettes.

A incapacidade de escolherem, de tomar decisões por elas mesmas, era o argumento utilizado para não terem o direito de votar. Os homens eram os seus tutores: “Pais, maridos e irmãos já as representam, não é necessário que elas votem”, era o discurso usual.

Em uma das reflexões da protagonista operária ela afirma: “Toda a minha vida respeitei e obedeci aos homens”. Maud Watts, a personagem, rompe com todas as correntes que sempre a prenderam quando começa a estabelecer relações com a organização das suffragettes. Nas primeiras prisões de Maud o pior momento era quando ela tinha que voltar para casa e prestar contas ao marido. A polícia inclusive fazia questão de entregar as mulheres em suas casas na frente de seus maridos, com a expectativa de que estes fossem “endireitá-las”. O marido de Maud a expulsa de casa e retira seu direito de ver o filho.

O filme faz o percurso da operária que se descobre enquanto sujeito quando se descortina para ela outro universo, o da participação política. Lutar pelo voto significava lutar contra toda a opressão sentida na fábrica, na rua e na família.

Ao adquirir a consciência de que seus filhos e, sobretudo suas filhas iriam passar pelo mesmo martírio que elas passavam desde a infância, não lhe restou outra alternativa a não ser o engajamento em uma luta radicalizada. Era isto que imbuía e passava a dar significado às vidas destas mulheres. Correr o risco de serem presas inúmeras vezes, torturadas, fazerem greve de fome, serem forçadas a comer e darem suas próprias vidas pela causa do movimento, fizeram com que as Suffragettes entrassem para a história como mulheres que enfrentaram a repressão em uma Inglaterra com um regime nada democrático.

Mas se por um lado, o direito de votar era uma reivindicação comum a todas, este direito democrático adquiria um significado mais amplo para as mulheres trabalhadoras. Para as burguesas, a luta pelo direito à propriedade, ao voto e a se candidatarem, fazia parte do conjunto de direitos civis que possibilitariam a elas exercerem plenamente sua condição de pertencerem às classes possuidoras. Para as proletárias, no entanto, o direito ao voto se combinava a uma série de outras lutas contra as condições sociais de vida e de trabalho impostas pelo sistema de exploração a que estavam submetidas. Uma quantidade cada vez maior de mulheres proletárias na produção social escancarava a contradição de serem elas produtoras, porém sem direitos políticos, e ao mesmo tempo, sem os mínimos direitos sociais.

Esta contradição empurrava uma quantidade cada vez maior de mulheres trabalhadoras na busca pela organização de suas demandas através de movimentos sufragistas, mas também de sindicatos e partidos socialistas.

O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce a cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são em torno de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda a parte, em Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão a organizar-se a si próprias. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros (…). (KOLLONTAI, 1913)

Destinos cruzados pelas lutas
Os partidos socialistas que cresciam na Europa e se organizavam na II Internacional encaravam a luta das mulheres pelo sufrágio como parte da luta pela emancipação da classe trabalhadora, porém separavam o interesse das mulheres burguesas das mulheres proletárias.

No sétimo Congresso da Internacional Socialista (II Internacional) em 1907, ocorrido em Stuttgart, votou-se uma resolução explícita de apoio e engajamento na luta pelo direito ao sufrágio feminino.

Assim como os homens, sob condições igualmente duras (e as vezes ainda mais), se vê obrigada a lutar por suas necessidades vitais em um ambiente hostil. Ela necessita, assim como o homem, de totais direitos políticos, porque tais direitos são armas com as quais podem defender seus interesses. Junto com seu ser social, ela revoluciona seu mundo e seus pensamentos. A impotência política que o sexo feminino tem aceitado como natural por tantos séculos, agora se entende como uma indignante injustiça. Através de um lento e doloroso processo de desenvolvimento, as mulheres emergem da estreita vida familiar para o espaço da atividade política. Exigem total igualdade política, esta simbolizada pelo sufrágio como uma necessidade social vital, e como parte de sua emancipação social. A obtenção do sufrágio é o corolário necessário da emancipação económica das mulheres. (ZETKIN, 1984)

Para os socialistas a luta pelo sufrágio feminino seria mais enérgica quanto mais proletária fossem as mulheres que estivessem à frente desta luta, uma vez que eram justamente estas mulheres que se chocavam cotidianamente com a tirania da falta de direitos políticos e sociais.

As mulheres burguesas não permanecem unidas e determinadas pelo  princípio da total igualdade política para o sexo feminino. São ainda mais reticentes a lutar energicamente, como uma só força unida, pelo sufrágio universal feminino. Em última instância, isto não se deve à ignorância, ou a táticas de pouco alcance das líderes do campo sufragista, ainda que estas possam ser corretamente culpadas de uma quantidade de erros. Esta é a consequência inevitável dos diversos estratos sociais a que as mulheres pertencem. O valor da emancipação é inversamente proporcional al tamanho de sua condição. Não tem valor absoluto para as mulheres dos Upper Tem*, e é de máxima importância para as mulheres proletárias. (ZETKIN, 1984)

O filme de Sarah Gavron tem o mérito de trazer a abordagem da luta pelo sufrágio feminino colada à situação das mulheres proletárias, tanto do ponto de vista da condição de trabalho das operárias como também da situação de extrema miséria a que a classe operária de conjunto estava submetida na rica e próspera Inglaterra.

Mas foi o desenvolvimento da luta de classes que definiu o destino do movimento das Suffragettes. A generalização do movimento grevista um pouco antes da primeira guerra mundial irá causar uma ruptura dentro da própria organização e até mesmo na família das Pankhurst. Sylvia Pankhurst irá romper com sua mãe e irmã para apoiar o movimento grevista. A cisão se dá em torno à compreensão de que era necessária uma luta de toda a classe trabalhadora. Sylvia já refletia naquele momento sua adesão ao socialismo. A ruptura, a partir de 1913, irá ser definitiva depois da entrada da Inglaterra na guerra e será parte dos conflitos que irão ocasionar rupturas nas organizações de classe e nos partidos sociais-democratas que irão se dividir entre o apoio aos seus países na primeira guerra, e uma posição classista. Emmeline irá aderir ao patriotismo mudando o nome do periódico da WSPU de “La Suffragette” para “La Britania” com o lema “Pelo Rei, pelo País, pela liberdade”, enquanto Sylvia irá fundar a Federação Oeste de Londres, um movimento sufragista socialista.

A luta pelo sufrágio feminino inglês não foi isolada dos principais fatos políticos da luta de classes em escala mundial. As demandas específicas das mulheres ao longo da história se imbricaram com as lutas mais gerais da classe trabalhadora. A vitória da Revolução Russa em 1917 e suas diversas conquistas para as mulheres, como o direito ao aborto, ao divórcio e a igualdade jurídica entre os gêneros, fez com que milhares de mulheres, como Sylvia Pankhurst, passassem a acreditar que a sua libertação seria combinada com a luta pela emancipação de toda a sua classe.

Passados mais de 100 anos do surgimento das suffragettes, a “primavera das mulheres” brasileira, mas sobretudo o protagonismo feminino em diversas lutas como nas ocupações de escola em São Paulo ou nas inúmeras greves que ocorreram este ano, parece indicar que, de fato, as mulheres estão dispostas a lutar por muito mais.

 

Bibliografia

Kollontai, Alexandra. “O Dia da Mulher”, 1913. In Marxist Internet Archive.

Abreu, Zina. “Luta das Mulheres pelo Direito de Voto: Movimentos Sufragistas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos”, in Revista Arquipélago: História «2ª Série», vol. VI (Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 2002), pp. 443-69.

Zetkin, Clara. “El derecho de las mujeres a Votar”. Escritos Selectos. Ed Philip S. Foner. Nueva York: internacional Publisher, 1984

Oppen, Florence. “O feminismo como ideologia reformista”. Revista Marxismo Vivo nº6. 2015.

1-No entanto, havia entre as primeiras militantes do novo Partido Trabalhista muitas trabalhadoras das indústrias têxteis do Norte de Inglaterra profundamente empenhadas na campanha pelo direito de voto para as mulheres, de que Isabella Ford, de Leeds, é um bom exemplo. Muitas dessas trabalhadoras eram membros da ‘Manchester Suffrage Society’. Deste grupo de trabalhadoras da indústria têxtil saiu uma petição com 67.000 assinaturas, enviada ao Parlamento para pressionar o Partido Trabalhista a pôr de parte as suas objecções sexistas e a endossar a reivindicação ‘do Voto para as mulheres nos mesmos termos em que era assegurado aos homens.’ Foi precisamente a falta de empenho dos trabalhistas que levou as Pankhursts a abandonarem o Partido e a fundarem a ‘WSPU—Women’s Social and Political Union’, com Emmeline Pankhurst como líder(…) (Zina, 2002)

2-No caso dos países da América, em que durante longos anos perdurou a escravidão de homens e mulheres trazidos da África, a integração da mulher à atividade produtiva é muito anterior à industrialização. Nas lavouras onde predominava o trabalho escravo, as mulheres negras escravizadas cumpriam um papel produtivo tão importante quanto dos homens negros escravizados. (Oppen, 2015)