Não é ficção: Mexeu com uma, mexeu com todas

O famoso ator global José Mayer, o Tião na novela A Lei do Amor, foi denunciado por assédio sexual por sua colega de trabalho, a figurinista Susllem Tonani. Ela contou que durante oito meses foi perseguida por Mayer com elogios do tipo: “como você é bonita”, “como a sua cintura é fina” e “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho” ou “você nunca vai dar para mim?”, até chegar ao cúmulo de passar a mão na sua genitália sem o seu consentimento, na presença de outras duas mulheres que também estavam no camarim.

Apesar da agressão, Susllem não o denunciou de imediato. Como ocorre com a maioria das mulheres que se veem nessa situação, ela teve medo de não ser levada a sério. Reunindo forças, pediu ao ator que parasse com o assédio e tentou manter-se afastada para evitar que a situação se repetisse.

Quando o metido a garanhão a xingou de “vaca”, Susllem, então, tomou coragem e botou a boca no trombone. A denúncia gerou um protesto coletivo entre outras funcionárias da emissora, incluindo atrizes que aderiram à campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”.

O caso ganhou tanta repercussão que obrigou a Globo a afastar José Mayer por tempo indeterminado e a se pronunciar publicamente sobre o caso, afirmando que “repudia qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito”. Mayer, que primeiro negou o ocorrido, acabou publicando uma nota admitindo a culpa e se desculpando com Susllem, como se isso fosse o suficiente.

Reprodução global do machismo
Sem a coragem de Susllem de denunciar e de suas colegas, não teria sido possível dobrar a Rede Globo. Isso mostra a importância da organização coletiva das mulheres trabalhadoras para lutar contra o machismo e a violência.

Chama a atenção, porém, a hipocrisia da emissora que afirma repudiar o machismo e a violência contra as mulheres, mas reproduz essas ideologias frequentemente em sua programação. Em suas novelas e séries, as mulheres são quase sempre retratadas de forma estereotipada, preconceituosa, violenta, racista e LGBTfóbica. Tramas envolvendo a disputa entre várias mulheres pelo mesmo homem, o envolvimento de homens mais velhos com menores de idade, a naturalização do estupro, entre outras coisas, são comuns. A maioria dos programas tratam as mulheres como objetos sexuais.

O recente caso de machismo ocorreu no BBB. Mesmo com a violência explícita de Marcos contra Emilly e outras mulheres da casa, a Globo preferiu não acatar os pedidos para que ele fosse expulso do programa num primeiro momento. Depois de muita pressão, com a agressão registrada e assistida por milhões de pessoas e com a abertura de inquérito para investigação pela delegada Marcia Noeli, da Delegacia de Atendimento à Mulher de Jacarepaguá (RJ), no dia 10 de abril, o agressor foi expulso.

Em nome da audiência, situações de ameaça, agressões psicológicas e físicas se repetem sem que a emissora faça nada de sério a respeito.

Uma violência cotidiana na vida das mulheres trabalhadores

Unir mulheres e homens trabalhadores contra o machismo e a exploração

Apesar de nem sempre ganhar repercussão, o assédio sexual no local de trabalho é extremamente comum. Pesquisas revelam que duas em cada três trabalhadoras já sofreram algum tipo de abuso por parte de chefes e colegas de trabalho, situações que vão de elogios atrevidos, cantadas e insinuações de cunho sexual a chantagem por favores sexuais em troca de promoções ou ameaças de demissão.

Além disso, segundo a organização ActionAid, 86% das mulheres brasileiras já sofreram assédio em público, como assobios, olhares insistentes, comentários de cunho sexual e xingamentos. Metade delas afirma que já foi seguida nas ruas; 44% tiveram seus corpos tocados; 37% disseram que homens se exibiram para elas; e 8% foram estupradas em espaços públicos. A principal vítima desse tipo de violência é a mulher negra, cujo corpo é um constante alvo de fetichismo sexual.

O assédio sexual é um dos instrumentos de desqualificação mais grosseiros da mulher, transformada em objeto. Nos locais de trabalho, transforma-se em desvalorização da mulher como sujeito político, pois as atitudes baseadas no assédio sexual não permitem que se desenvolva a confiança que deve primar entre trabalhadores.

A luta contra a violência e o assédio, por isso, também deve ser vista como parte das tarefas da classe trabalhadora. A luta contra a exploração capitalista necessita da unidade de todos os trabalhadores, homens e mulheres. Para isso, é fundamental combater o machismo e a violência às mulheres trabalhadoras.

Publicado no Opinião Socialista nº 534