“Meu, isso é muito Black Mirror”

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Mesmo com uma narrativa perturbadora, série inglesa faz sucesso. Mas porque a distopia nos atrai?

 

Não há como negar: as séries de televisão se tornaram uma febre, especialmente após a popularização do serviço de streaming, como o Netflix. Das muitas que fazem sucesso entre o público brasileiro, uma delas se destacou recentemente: Black Mirror. Lançada em 2011, na Inglaterra, a série foi alavancada ao ser incorporada à plataforma Netflix junto com o lançamento de sua terceira temporada.

Embora existam séries para todos os gostos, não há outra como Black Mirror. Com episódios independentes entre si, apenas uma proximidade temática, a série nos mostra um futuro marcado pela violência sistemática, pela total submissão à tecnologia e às redes sociais, completa alienação, apatia social e pela total falência do humanismo. Tudo isso sem viagens planetárias, carros voando ou outras coisas típicas de ficção científica. Pelo contrário, o enredo de Black Mirror se dá em um futuro muito próximo do que vivemos hoje. Talvez por isso o impacto da série, uma verdadeira antologia distópica do nosso tempo.

200: Uma odisséia no espaço – Jon enfrenta uma relação difícil com Hal, o computador super protetor da missão espacial.

Utopia, um sonho desde sempre
A capacidade de projetar o futuro é talvez uma das mais belas faculdades humanas. O sonho de uma sociedade ideal e justa sempre acompanhou a humanidade, desde os primórdios da filosofia grega, com a República, de Platão, até os dias de hoje. Muitas obras foram dedicadas a esses sonhos que nos oferecem um pouco de conforto diante de uma realidade nem tão confortável assim.

Thomas Morus foi quem, em 1516, lançou a obra que daria nome a esse gênero de narrativa: Utopia. Em sua obra, a ilha de Utopia (o não-lugar) é descrito como uma república onde reina a justiça, a igualdade material e onde não há excessos morais. Desde sua publicação, os diversos ideais de sociedades passaram a ser chamados de utopias.

Mas se algumas obras são otimistas, outras não se dão a esse luxo. Diante das incertezas, dos nossos vícios, problemas sociais e econômicos, há aqueles que vislumbram um futuro mais sombrio para uma humanidade. Avesso das utopias, as distopias não sonham com o futuro. Elas têm pesadelos.

É a esse gênero que pertence Black Mirror. Ao lado de 1984, Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica, 2001: Uma odisseia no espaço, Blade Runner, Eu, Robô, Farenheit 451 e outros. Umas mais sutis, outras mais contundentes, é verdade, mas todas distopias (além de clássicos).

1984, na adaptação de Michael Radford

O futuro sombrio no cinema e na literatura
Em 1984, de George Orwell, o grande irmão (Big Brother) vigia a todos e tudo vê. A propaganda oficial sustenta um permanente clima de guerra. Uma verdadeira caricatura do que se tornou o regime stalinista. Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, algo semelhante. A manipulação genética e as técnicas de condicionamento psicológico perpetuam a divisão em castas da sociedade.

No Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (que inspirou o filme de Stanley Kubrick), vemos o fim do livre arbítrio e a degeneração moral, em que gerações de jovens cometem crimes bárbaros e são respondidos no mesmo tom por um estado autoritário. Ironicamente, o filme foi proibido pela ditadura militar. Em 2001, de Arthur Clarke mas também filmado por Kubrick, e em Blade Runner, filme Ridley Scott (baseado no livro Androides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip Dick), vemos dilemas da relação homem-máquina. Crises existenciais, de consciência, e insubordinação na inteligência artificial.

Mas como pode, algo tão perturbador, ser vendido e consumido como entretenimento? Por que a distopia nos atrai?

Blade Runner: máquinas também tem medo de morrer?

Para assistir com o corpo
O gosto por filmes de terror e sustos repentinos já interessou muitos pesquisadores. Resultados recentes apontam para a hipóteses que esse tipo de prazer pode estar associado à capacidade de sentir emoções misturadas, além de um certo prazer físico. Diante de situações de risco, nosso cérebro automaticamente libera doses de dopamina, endorfina e adrenalina. Essas substâncias são responsáveis por preparar nosso corpo para uma possível reação, seja ela de fuga eu de contra-ataque. Mas como um filme é uma situação controlada e não oferece risco real, as doses liberadas causariam um efeito prazeroso, não chegando a nos causar fadiga e estresse. É um tipo de prazer semelhante ao que no ocorre quando praticamos algum esporte radical.

Há um outro aspecto – e esse é o caso de Black Mirror – que é a dimensão psicológica. Para a abordagem psicanalítica, os pesadelos cumprem um papel importante na estruturação do psiquismo. De uma maneira simples, pode-se dizer que nossos pesadelos refletem nossas angústias, medos profundos e desejos reprimidos. Isso nos ajudaria a lidar com esses sentimentos na medida em que os projetamos e damos formas e sentidos a esses sentimentos. Ou seja, trata-se de uma contrapartida psicológica para o alívio físico.

Isso explica porque os contos de fadas (antes das adaptações de Walt Disney) eram tão violentos, sinistros e cheios de conotações sexuais. Na prática, antes do cinema, eram os contos de fadas que cumpriam esse papel, de nos preparar e ajudar a lidar com a maldade do mundo através de situações de terror controladas, sem risco real.

Laranja Mecânica: juventude se diverte com atos de violência

Medo: uma história cultural
É assim que cada época vai projetar seus próprios medos em seus contos de terror. No princípio, o medo vinha da natureza imponente diante da pequeneza humana. Desastres naturais, pragas, longos períodos de estiagem, castigo dos deuses etc. É o que nos conta a Bíblia, desde as pragas do Egito até o apocalipse. Esse medo vai, mais ou menos, perdurar até a idade média, com as obras do Satanás e a peste.

No período das grandes navegações, o medo passa a ser povos bárbaros desconhecidos, monstros do alto mar e suas lendas marítimas. Já com o início da Revolução Industrial, e o avanço da ciência, os medos vão passando gradativamente da natureza para a sociedade. Na virada do século XIX para o XX temos os vampiros assombrando os vilarejos (antes da luz elétrica), expedições arqueológicas se deparando com múmias faraônicas e monstros como Frankstein (dotado de um “cérebro de um criminoso”, claramente influenciado pela frenologia da época).

Na segunda metade do século XX, com a guerra fria, proliferam no cinema dos Estados Unidos filmes sobre invasões alienígenas. De certa forma, uma analogia para o medo de uma possível invasão soviética. Mais recentemente, surgem as tramas envolvendo bactérias, doenças e outros experimentos científicos fora de controle (como os filmes de zumbi). Com a crise de 2007, voltam às telas as distopias e narrativas pós-apocalípticas. É o caso de Mad Max, Jogos Vorazes, Elisyum, Batman: o cavaleiro das trevas ressurge, Ela e outros.

“Nosedive”, da terceira temporada de Black Mirror. No episódio, pessoas se classificam a todo instante em seus smartphones.

Uma distopia só nossa
Talvez seja essa a chave para o sucesso de Black Mirror. A crise estrutural que vivemos é uma fratura exposta do capitalismo. Põe à nu a crise social, a barbárie, a desigualdade e a destruição do meio ambiente. A falência do projeto burguês de sociedade. E se temos mais acesso à informação do que nunca, se estamos a todo instante conectados, vemos crescer os discursos de ódio e a intolerância. Se as redes sociais nos aproxima por um lado, por outro temos estupros coletivos e suicídios registrados e transmitidos ao vivo por streaming. O crescimento exponencial do número de câmeras, a sensação de vigilância total e a perda da privacidade.

O aprofundamento dessa crise social, a alienação, a desumanização do cotidiano e as relações sociais voláteis, instáveis e artificias. Essas são angústias que todos nós sentimos. E de maneira precisa, Black Mirror capta esse sentimento e o projeta para um futuro muito próximo de nós, nos mostrando que a barbárie está aí, e num piscar de olhos ela pode se tornar realidade.

Black Mirror é a distopia feita sob medida para nós, seres humanos das redes sociais e da tecnologia. Você assiste e diz: “É isso aí!”. E por mais perturbador que seja o prognóstico, você fica aliviado porque alguém te entende e contempla, te dizendo qual o incômodo que todos nós sentimos. Entre os fãs da série, ficou famosa a expressão “Meu, isso é muito Black Mirror”, para se referir a situações concretas que lembram o prognóstico da série. Não é à toa. Esse é o mérito de Black Mirror.