MBL e Santander: conservadorismo e censura na arte

O Santander decidiu encerrar, precipitadamente, a exposição Queermuseu depois da repercussão entre aqueles que acharam ruim uma exposição dedicada à sexualidade e questões de gêneroIndo direto ao ponto: capitulou à pressão conservadora e mostrou que, como qualquer grande banco, não tem compromisso nenhum com a Arte. Ou melhor, têm compromisso enquanto lhes é conveniente, enquanto lhes rende público e, claro, lucro. Fora isso, nada mais.

Bastou a patota do MBL xingar muito no Twitter e insinuar uma campanha de boicote com os correntistas para o banco voltar atrás. “Pornografia!”, “pedofilia!”, “zoofilia e todos os ‘ias’!”“prostituição infantil!”, exclamaram os fiscais da moral, dos bons costumes e do corpo alheio. Em seus vídeos e postagens repetiam todos os mesmos argumentos, que parecem ter saído de uma cartilha.

Cartilha, aliás, que não é de hoje. Em 1937 os nazistas organizaram uma mostra em Munique chamada Arte Degenerada (Entartete Kunst), em que foram expostas – e escrachadas – obras consideradas “não-germânicas” ou de natureza “judia-bolchevique”.

Em 1970, o governo Médici baixou um decreto-lei para censurar publicações obscenas. A medida causou muito rebuliço entre os empresários da imprensa que desconfiaram que se tratava apenas de mais um subterfúgio para censura. Na época, o Ministro das Comunicações Alfredo Buzaid defendeu a proposta alegando que era preciso combater o “comunismo internacional que insinua o amor livre para desfibrar as resistências morais de nossa sociedade. Este processo, elaborado e desencadeado em escala internacional, visa submeter o Brasil ao regime comunista, utilizando-se do erotismo e da pornografia para atingir seu propósito político”.

E assim, o delírio conservador da arte degenerada foi se repetindo na história até chegar em sua versão moderna, o verdadeiro espectro que ronda a civilização judaico-cristã: o marxismo cultural, essa loucura tão temida por seguidores do Bolsonaro, pelo Pastor Feliciano e os fascistinhas mirins do MBL.

E no caso da exposição, a ofensiva cultural esquerdista tem grandes representantes: Portinari, Ligia Clark, Alfredo Volpi, Adriana Varejão e outros, como a página de humor Criança Viada.

Infelizmente, casos como esses não são pontuais. Isso está virando a regra. Nós sabemos que, para algumas pessoas, eles têm que se utilizar da cultura como um meio de propagar suas ideologias político-partidarias”, afirmou Filipe Barros em vídeo postado pelo MBL em uma rede social. Qualquer semelhança com a “pornografia comunista” dos militares não é mera coincidência.

Imagina o que seria dessa turma se eles descobrissem que é possível encontrar títulos pornográficos e eróticos em bancas de revistas. E que tudo isso fica lá, exposto, para qualquer um ver. E que muitas bancas ficam em praças ou em frente a escolas, em que qualquer criança pode entrar para comprar figurinhas da Copa. Ou então se ficassem sabendo dos cinemas na Av. Ipiranga, em São Paulo. Mas eles não estão preocupados com pornografia e prostituição. Porque se eles estivessem realmente preocupados iam ter um problema sério com o capitalismo que tanto defendem.

O fato é que isso tudo não passa de hipocrisia. São uns verdadeiros LGBTfóbicos enrustidos em um suposto debate sobre arte.

Mas o fato do MBL e companhia estar arrancando os cabelos com a exposição não nos diz nada de novo. Se você está lendo isso no site do PSTU, não precisamos explicar o quanto o MBL é expressão do que há de mais reacionário. Aliás, o que se espera de uma exposição que discute gênero e sexualidade é que, no mínimo, ela cause um mal-estar nas alas conservadoras da sociedade – o que significa que até então a exposição Queermuseu foi um sucesso.

O que há de preocupante nessa história toda, na verdade, é a postura do banco que decidiu, de forma unilateral, encerrar precipitadamente a exposição sem sequer comunicar seu curador, Gaudêncio Fidélis, que ficou sabendo da decisão em um grupo de WhatsApp.

Isso sim é o que há de deplorável.

A empresa financeira não titubeou e mostrou sua verdadeira cara de empresa capitalista. Tudo vale à pena se o lucro for garantido. Que arte que nada. E isso põe por terra qualquer ilusão de que o capital pode nos proporcionar alguma liberdade artística.

É o que escreveram André Breton e Leon Trotsky no Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente (conhecido como Manifesto da Fiari). A independência da arte para a revolução e revolução para libertar de uma vez por todas a arte. Libertar aqui, justamente, do julgo de empresas que monopolizam o financiamento e a circulação da arte. Como o Santander.

A arte não existe sem o homem. E se o homem não é livre, a arte não será. A cabeça pensa aonde os pés pisam. E o capitalismo nos aliena de nossa produção. Rouba o que produzimos e dilacera nossa subjetividade.

Faz vista grossa aos discursos de ódio e de opressão para pagar menos salários ao mesmo tempo que põe LGBTs na propaganda quando convém. Esvazia nossa cultura de seu conteúdo social e nos devolve na forma de mercadoria, de cultura enlatada. Tudo passa a ser considerado um potencial nicho de mercado. “Compre de quem produz”, diz o empoderamento empreendedor. Tal como em Black Mirror, até mesmo os discursos contra o sistema podem ganhar programas de TV.

A única liberdade que o capitalismo pode oferecer para a arte, é a mesma que ele oferece para a circulação de suas mercadorias. E enquanto o capitalismo existir, quem faz a curadoria são as grandes empresas.

A libertação da humanidade é a libertação da arte.

Viva a arte livre!