Marx e a alienação
do trabalho Karl
Marx não parte da perda de Deus. Ao contrário, diz que essa “perda” e
esse Deus são invenções magistrais do homem para explicar
sua infelicidade, que não compreende, e para buscar conforto espiritual.
Isto é, o homem idealiza, cria em sua imaginação,
uma resposta
reconfortante à sua situação terrena miserável que
acaba por tornar-se “real” em sua mente.
Marx tampouco parte do indivíduo – expresso na declaração
universal dos direitos humanos da Revolução Francesa - para tentar
explicar a sociedade burguesa. Ao contrário, parte da própria sociedade
para chegar ao indivíduo. Mas não o indivíduo abstrato,
o “cidadão”, e sim o indivíduo real na sociedade de
classes: o trabalhador, de um lado, e o burguês, de outro. Isto é,
a felicidade não seria obtida pela busca individual por Deus, nem pela
vida na ignorância, que é nossa situação no capitalismo,
e muito menos por técnicas médicas, mas pela compreensão
do papel do homem na sociedade em que vivemos e pela sua superação.
Esta nova teoria - a da alienação do trabalho – foi esboçada
por Marx em 1844, e publicada pela primeira vez em 1932 sob o título de “Manuscritos
econômico-filosóficos”.
A infelicidade do homem moderno, do trabalhador, provém, na verdade, de
outra perda, bem mais concreta. É a perda, ou alienação,
de seus meios de trabalho e dos produtos de seu trabalho, expropriados pela burguesia.
Provém do fato de não dominar seu próprio trabalho, e sim
ser dominado por ele.
Como diz Melcíades Pena, na apostila O que é o marxismo: “Alienação
quer dizer que o homem está dominado por coisas que ele mesmo criou. Alienação
quer dizer que o homem projetou partes de si mesmo, que partes de si mesmo se
transformaram em coisas, e que essas coisas dominam o homem.”
É o que vemos hoje em qualquer fábrica. Os operários chegam
ao trabalho em meios de transporte que não lhes pertencem – os ônibus
fretados. Não carregam consigo nenhuma caixa de ferramentas, nenhuma máquina
produtiva. Chegam de mãos nuas para utilizar ferramentas e operar máquinas
que não lhes pertencem, que são dos patrões.
Esta primeira separação, ou primeiro aspecto da alienação
do trabalho, entre o trabalhador e seus meios de trabalho, ou meios de subsistência,
ocorreu de forma brutal e generalizada com o início do capitalismo. Os
servos foram expulsos de suas terras, os artesãos despojados de suas ferramentas
e transformados em trabalhadores “livres” e “iguais”.
Isto é, livres para serem igualmente explorados pelo patrão.
Como os meios de produção passam a pertencer aos patrões,
são eles que determinam os ritmos de trabalho e o processo produtivo.
O trabalhador sente-se totalmente desmotivado. Não está na fábrica
para utilizar sua mente num processo criativo, nem para aplicar sua sabedoria
prática na melhoria dos processos produtivos e no avanço da humanidade.
Nem se interessa por isso. Está lá para garantir seu salário
no fim do mês. Sua sobrevivência.
Essa sabedoria também lhe foi arrancada. Ficou confiada aos
trabalhadores
intelectuais - engenheiros, técnicos e cientistas nas universidades -
que estudam durante anos para que o conhecimento da humanidade fique concentrado
numa minoria. É a divisão entre o trabalho manual e intelectual.
Mas os patrões não desconhecem a existência dessa sabedoria
operária, que vem do chão da fábrica e do conhecimento íntimo
que o operário tem de “sua” máquina. É por isso
que cria os círculos de qualidade, implanta caixas de sugestões,
dá prêmios por elas, inventa ações “pró-ativas”.
Hoje, com a automatização cada vez maior, e a redução
do trabalho braçal, é importante para o burguês expropriar
a mente do trabalhador e retirar dele tudo que sabe.
A este só resta trabalhar para viver e, na maioria das vezes, apenas sobreviver.
O que era fim – o trabalho como forma de libertação do homem – transforma-se
em meio: o trabalho como meio de sobrevivência do trabalhador.
Marx retrata essa situação no século 19, mas que cabe inteiramente
no século 21, pois o capitalismo subsiste e se torna cada vez mais
ameaçador à existência
da humanidade. Segundo Marx, “... o trabalho é algo externo
ao trabalhador,
isto é, não forma parte de sua essência, e, portanto, o trabalhador
não se afirma em seu trabalho, mas se nega; não se sente à vontade,
mas desgostoso, não desenvolve suas livres energias físicas e espirituais,
mas mortifica seu corpo e destrói seu espírito. Por isso o trabalhador
somente se sente em casa fora do trabalho; enquanto no trabalho se sente fora
de casa. Recobra sua personalidade quando não trabalha; e se trabalha
não é ele. Portanto, seu trabalho não é voluntário,
mas obrigatório; seu trabalho é um trabalho forçado. Por
isso não representa para ele a satisfação de uma necessidade,
ão somente um meio de satisfazer necessidades estranhas a ele.”